v.01  n.01  2018
O Paradigma da Potência
v.01  n.01  2018
O Paradigma da Potência
Narrativas
A Poesia Maloqueirista

Por Caco Pontes e Lino Teixeira

A Poesia Maloqueirista nasceu no ano de 2002, a partir do encontro de poetas que veiculavam seus libretos pelas ruas da cidade de São Paulo. Desde então, gerou um diálogo popular, de identidade mambembe e nômade, indo aonde o povo está. Esta relação com os territórios populares e o trânsito entre periferia e centro são marcas não só da estratégia de atuação do coletivo mas se expressam também na origem popular e trajetória de seus integrantes. Sempre resistindo aos meios de comunicação padrão, o grupo atravessou o início da difusão na era digital e, com o surgimento de blogs e redes sociais, passou a otimizar tais elementos como ferramenta, porém sem abandonar o segmento impresso, que gerou a ampla difusão editorial através de seu selo próprio, responsável por dezenas de publicações. Sua principal característica sempre foi a posição artística diversificada e controversa, mantendo a poesia como base de linguagem na busca em abrir o campo de criação e troca de experiências, através de intervenções, performances, saraus, oficinas, publicações e eventos multidisciplinares, entre outras atividades que demarcam não só a dimensão poética e estética mas também a dimensão territorial e política. Nesse contexto, é possível destacar algumas das diversas atividades realizadas pelo grupo ao longo de sua existência que ilustram bem essa característica: ciclo Outras Margens, parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de SP; Recebe a estatueta do 3°Prêmio Cooperifa, como reconhecimento de iniciativas culturais que promovem o acesso da cultura às classes desfavorecidas socialmente; residência artística no Morro do Querosene e inicia parceria com o Espaço dos Parlapatões, para realização da Récita Maloqueirista, sarau com  palco aberto para expressões artísticas e lançamentos de livros e outras publicações autorais; Estreia o projeto Malocália no SESC Pompéia, mesclando a poesia performática com  música, artes do corpo e visuais e etc. Com a realização da Revista Não Funciona, editada de 2004 a 2009, ganhou alcance em solo brasileiro, publicando mais de 500 artistas autorais, em texto e imagem. Também obteve traduções para catalão e espanhol em projeto realizado por pesquisadores em Barcelona.  Na edição de lançamento da Revista Periferias  foi selecionado um conjunto heterogêneo e plural que traz um panorama da multiplicidade de linguagens e temas que dão sustentação à Poesia Maloqueirista. Veremos aqui como a dimensão poética  é capaz de descortinar, por meio da investigação e inquietação estética do grupo, a complexa teia de sujeitos e territórios que compõem a dinâmica da cidade. Estão presentes nesta publicação Aline Bins, Bárbaro Rosa, Giovani Baffô, Caco Pontes, Inayara Samuel, Leo de Abreu, Paloma Kliss e Pedro Tostes.

 

Giovani Baffô

em casa
de menino de rua
o último a dormir
apaga a lua.

Favela

essas vielas apertadas
e sem horizontes
é o que nos põe
a olhar estrelas.

a maior dor do sol é não poder sair à noite

 

Thiago Calle

Nave mãe

os cães morrem
e meus filhos não me visitam
vou de um a outro ponto final
viação
uma epopéia rumo aos dois sentidos
tenho ataques epiléticos
épicos nos coletivos
sentindo aromas do além
fecho os olhos para
contrações musculares
mordidas na língua

acordo sozinha
no ônibus lotado
e os filhos não estão comigo

em vão, ligo
não atenderão
meus filhos têm filhos e não os tenho
dentro de mim

not any more

sou um ovni em ligação
interurbana
à cobrar atenção

nave mãe pairando
à sombra da cena urbana

brincam conosco
o tempo
e as panelas no fogo

Agouro

um poema
como agora

onde quer
quando for
como é

algo
parecido com agora

como agora quer
como se agora fosse

o que agora é

 

Inayara Samuel

pura asma

queria não mais fazer poema
urbano
Mas há em minhas mãos
uma poluição desmedida
um olhar engarrafado
minhas cinzas na pia
Gostaria de palavrear
mares, brisas
e transeuntes
que me cruzariam
devagarzinho…
(acabo de tossir – preciso de um cigarro)
Meu Deus!
Agora, só por agora
para meu peito:
um poeminha a beira mar.

 

Pedro Tostes

pê esse

uma concavidade
sem cavidade

é como um consenso
sem senso

um poeta
sem amor
não é poeta
é fingidor

(mas as palavras se propagam com o
mesmo ardor)

ps: será este poema um artefato
ou será então arte de fato?

 

Bárbaro Rosa

Ela chega e passa
Como se fosse minha alma
Acalmo-a com flores
E a amo por instantes
Meus desejos vão e vêm
Morrendo como os girassóis
Antes, ela fosse minha alma:
Para os meus tormentos
Serem outros

 

Aline Binns

palavras

não quero muitas
e nem poucas palavras
não quero definições
e nem quero sentenças
quero apenas caminhar com sede
e ouvir-me silenciosamente
enquanto atravesso
essa vida em tumulto
esse alarde
essa busca insana de tudo
para o nada que eu preciso

 

Caco Pontes

Cidadela do Caos

Eu vi adultos e carros
em viadutos traçados
nos sóis da cidade
cinza-azulada

E fatigados
em morto cansaço
um ar de embaraço
em face do fácil

E também o status
causando o colapso
até nos dí mais

bons atos

O tempo e a bebida
depois, o inchaço
e quando não
se queira fugir
através do viaduto
e seus traços

 

Paloma Kliss

(…)

você na China
de tuas MURALHAS

Eu – em fluxo –
pelas BR’s acenando…

na neblina dos sonhos perdidos
olhos ausentes de todo gosto
que sangra irremediável

quando agora já exaustos
– num acordo tácito –

desistimos um do outro

 

Leo de Abreu

Desde Menino

Apanho muros
parede de concreto
cimento pra tapar o buraco
da camada de ozônio
desencontro
no Largo da Batata só deu eu
só deu eu

Cinza é a cor do meu cabelo
preto é a cor que predomina
eu moro nesse condomínio
desde menino

 

-x-x-x-

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