v.02  n.02  2018
Democracia e Periferia
v.02  n.02  2018
Democracia e Periferia
Entrevistas
Conceição Evaristo: imortalidade além de um título

por Ivana Dorali *

Foto: Márcia Farias

Ela é uma das maiores escritoras da atualidade. Escreve livros que misturam suas memórias de mulher negra favelada em ficção, com o estilo batizado como escrevivência. Seus escritos geram identificação com seus pares e tende a levar às reflexões sobre gênero, raça e classe.  ” A minha escrevivência não é para adormecer a casa grande e, sim, para incomodá-la em seu sono de virgem”, disse durante a entrevista.Nos últimos dois anos, Conceição Evaristo vem cumprindo uma agenda lotada de compromissos: palestras, eventos, prêmios e entrevistas. Um reconhecimento que, apesar da sua longa trajetória profissional, só chegou aos 70 anos. A escritora afirma ter consciência que a demora é devido a sua condição de mulher negra.Neste ano, Conceição Evaristo se candidatou para entrar no clube dos imortais: a Academia Brasileira de Letras. A campanha da sociedade civil #ConceiceicaoEvaristonaABL não comoveu o círculo, que jamais teve uma mulher negra entre seus membros. Entretanto, a escritora vem trilhando um caminho que aponta que a falta do título da ABL não a faz menos imortal que os laureados, considerando unicidade de sua obra.

As condecorações ao seu trabalho são muitas. Conceição Evaristo foi tema da Ocupação Itaú Cultural, em 2017. Ganhou do prêmio Jabuti de Literatura de 2015, na categoria Contos e Crônicas, por Olhos D’Água. Recebeu, também, os prêmios Faz a Diferença – Categoria Prosa, de 2017; Prêmio Cláudia – Categoria Cultura, de 2017; e o prêmio de Literatura do Governo do Estado de Minas Gerais, de 2017. Este ano ganhou o prêmio Bravo (revista) com Destaque 2017.

No Instituto Maria e João Aleixo, Conceição Evaristo recebeu o prêmio Mestre das Periferias em agosto deste ano. Mas se engana quem pensa que as homenagens a deslumbra, para ela é uma responsabilidade. “Esses prêmios têm significado. Mas também não quero ser vista como exceção, através desses prêmios desejo aproveitar a possibilidade de quebrar com esse imaginário que nos atinge coletivamente”, me contou durante nossa conversa.Compreendendo a importância da sua figura para nós, mulheres negras, esperava com ansiedade pelo nosso encontro. Diante de uma agenda tão lotada, demorou um pouco, mas valeu a pena esperar. Mais do que uma entrevista, o momento foi um bate-papo entre mulheres negras que se reconhecem nas suas trajetórias e ancestralidade.

Entre bebericadas no chope escuro – preferido da escritora – conversamos sobre sua infância e juventude na favela em Minas Gerais, compreensões da participação da população negra na cidade, sua escrevivência na Literatura, sua importante representatividade para as mulheres negras e sobre democracia e periferia, num local de grande representatividade para Conceição Evaristo: o Bar Amarelinho, na Cinelândia, centro da cidade do Rio de Janeiro.


[*] Ivana Dorali é mulher negra periférica, feminista negra, sapa-bi e filha de Osun. É Jornalista, Educadora e aluna-pesquisadora sobre Decolonialidade e Educação do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. É membro da Rede de Mulheres Negras da Bahia e do Coletivo Luiza Mahin – UNIRIO. Foi ganhadora do prêmio de jornalismo Abdias do Nascimento, em 2013. Contato: ivanadorali@gmail.com


ENTREVISTA COM CONCEIÇÃO EVARISTO

Ivana Dorali: Primeiro, eu quero agradecer profundamente por estarmos aqui, no Bar Amarelinho, na Cinelândia, próximo à Lapa, um lugar tão importante para você, para esta entrevista. Em segundo, mas não menos importante, destacar quão representativa é sua imagem, quem você é, uma referência importante para nós, mulheres negras. Por isso, quando decidimos fazer essa entrevista, eu pedi à Islene, sua assessora, para que fosse em um lugar representativo para você, porque eu acho que, assim como as pessoas, os lugares que tem representatividade para nós, falam com a gente pelo coração. Por essa razão, eu quero entender porque o Bar Amarelinho é esse lugar de representatividade e importância para você.

Conceição Evaristo: Bom, o bar Amarelinho é um lugar que eu frequento desde os anos 70, nos meus primeiros anos aqui no Rio de Janeiro. Não sei exatamente qual o primeiro momento em que estive aqui. Quem me trouxe pela primeira vez foi um ex-namorado, justamente quando eu cheguei no Rio de Janeiro. E aqui, por exemplo, eu tive a oportunidade de ver –  de longe – Solano Trindade. Houve um momento, no final dos anos 70, em que era muito comum o Movimento Negro se encontrar aqui. Então, cheguei a ver Jorge Mugugu, Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento e Carlos Alberto Caó no Amarelinho. Toda a militância mais antiga do Movimento Negro se encontrava aqui. Depois, terminei a relação com esse namorado – as pessoas mais velhas ou da minha faixa de idade se lembram – porque ele fazia parte de um conjunto de negros cantores que foi muito famoso, era o conjunto “Nilamare e seus cantores de Ébano”. Esse rapaz pertencia a esse conjunto, tanto é que ele tinha o apelido de Ébano. Depois, a relação terminou, eu conheci o meu marido na Glória e ele também passou a frequentar o bar. Osvaldo… Morro de saudade!

Como ele era muito ligado ao samba, passou a frequentar este lugar comigo. E nós viemos muito, muito mesmo. Quando queria encontrar alguma pessoa, alguma liderança do Movimento Negro, como a vereadora Jurema Batista ou os negros do Partido Democrático Trabalhista (PDT), nos encontrávamos aqui. Até mesmo porque temos a Câmara aqui perto. Além disso, na Cinelândia, tinha um espaço onde ficavam os negros do PDT, que era conhecido, inclusive, como Brizolândia. Era o Brizola, o governador do Estado. Então, aqui era um point negro conhecidíssimo! Sempre frequentei esse lugar, sempre! Tanto é que eu estava aqui quando já estava em trabalho de parto, há 37 anos.

Eu dava aula à noite em Niterói, meu marido ia me buscar e parávamos aqui. Na véspera da minha filha nascer, eu ainda vim para tentar tomar um chope preto. Mesmo que eu adore, não aguentei tomar. E depois, continuei a frequentar o bar quando a minha filha nasceu, ela tem uma síndrome genética e, como eu morava no São Carlos, ali no Estácio, era o lugar mais próximo de casa, por isso, a Iná cresceu aqui, no Amarelinho, dentro de uma cestinha que chamamos moisés. Com o passar do tempo, e isso é uma coisa que discutimos muito, o Amarelinho foi ficando muito caro. E, como ficou muito caro, acabou selecionando, então o movimento negro passou a frequentar um barzinho que se chamava “Só Feijão”. Porque que os bares são mais baratos e não temos nenhuma sombra de dúvida de que foi uma maneira que o restaurante encontrou para nos afastar. Hoje, ainda encontramos as pessoas aqui, mas nem de longe é a frequência que costumava a ser.

Ivana Dorali: Eu sou feminista negra, também participo do Movimento Negro e milito junto ao feminismo negro. O feminismo negro me proporcionou vivências, olhares que eu não teria em outros espaços, em outros lugares. Falando dessa história muito imbricada com o Movimento Negro (MN), gostaria de compreender como é que a senhora entra nesse movimento até chegar aqui, na Cinelândia, que acaba sendo também palco da sua militância no Rio de Janeiro.

Conceição Evaristo: Eu chego ao Rio de Janeiro em 1973 e, se não estou enganada, em 76 funda-se o IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras) e nele haviam muitas atividades, das quais eu participava, às vezes. O IPCN, pela sua dinâmica, tinha um apelo muito grande e congregava, realmente, a militância negra. E é nesse momento que eu vou conhecer algumas pessoas que são ícones do Movimento Negro, como Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento e Abdias do Nascimento. Nesse momento, eu já cursava Letras e o Amarelinho também era um ponto de encontro do pessoal do curso, havia um grupinho que frequentava muito o bar. Então, é nessa época que conheço a militância do MN, homens e mulheres.

Ivana Dorali: Mas já havia esse histórico lá em Minas?

Conceição Evaristo: Eu tive um tio que foi expedicionário, Oswaldo Catarino Evaristo, que tinha contato com o Movimento Negro de Belo Horizonte nos anos 50. Nesse período, eu tinha quatro anos, mas cresci sob a influência desse tio e conheci, também nessa época, um dos primeiros poetas negros, Adão Ventura. Ainda em Minas, antes de me mudar para o Rio de Janeiro, quando tinha 17 anos, eu conheci o MN Brasileiro. A gente se encontrava na casa do Coronel Antônio Carlos Pimenta, que foi um dos primeiro coronéis negros do exército. Eu me lembro da imponência daquele homem negro quando estava com aquela farda. Lembro, também, de que ele passava pelas ruas de Belo Horizonte e chamava atenção. Nesse mesmo período, eu entro para o movimento operário através do JOC (Juventude Operária Católica), movimento de base da Igreja Católica, por isso minha militância torna-se marcada pela questão social e não pela questão racial, até mesmo porque a Igreja sequer discutia a questão racial. Esses movimentos de base da Igreja Católica tiveram uma efervescência muito grande nos anos 60 e 70, mas por conta da ditadura acabaram dispersando um pouco. Mas eu trago essa consciência negra de Belo Horizonte, no Rio de Janeiro eu vou ter mais contato é com a militância negra, nos anos 70. Em 1981, minha filha nasce com problemas de saúde e, por isso, eu me afasto, tinha que trabalhar, cuidar da minha filha e do tratamento dela, até a Iná completar nove anos. Minha formação ideológica vai se dando através da influência do discurso do Movimento Negro, não como filiada ou registrada, mas sempre sem perder contato. Já nos anos 90, já pertenço ao Coletivo de Escritores Negros que foi, na verdade, uma tentativa de recuperação do grupo “Negrícia”, também de poetas. Nesse momento, quem pertencia ao coletivo eram LC Mong, Delei de Acari, Nei Lopes, Elisa Lucinda, Salgado Maranhão, Lia Vieira, que são escritores e escritoras negras e nosso ponto de encontro era justamente no IPCN, na Mem de Sá.

“Minha formação ideológica vai se dando através da influência do discurso do Movimento Negro, não como filiada ou registrada, mas sempre sem perder contato.”

Ivana Dorali: A Cinelândia está rodeada de espaços que deveriam ser dedicados ao compartilhamento do conhecimento, mas que são estruturados para a nossa inacessibilidade. Então, a população ocupa esse lugar através das mobilizações. Refiro não só às questões históricas como as mobilizações contra a ditadura militar ou pela redemocratização do Brasil, mas também às mais recentes como os pedidos de resposta sobre a morte de Marielle, o movimento contra o impeachment da presidenta Dilma, o pedido de liberdade para o presidente Lula, entre outros. Sobre essa inversão ideológica, como você vê a dicotomia desse espaço?

Conceição Evaristo: Falando disso, penso em um espaço de conhecimento formal, nós temos também na Cinelândia a Biblioteca Nacional. Desde aquela época, a biblioteca é um espaço público, mas somente nós negros que já temos certo nível de conhecimento chegamos até lá. Toda vez que vamos à biblioteca, vamos por um motivo específico, porque temos uma pesquisa, do contrário não frequentamos muito. O que eu vejo da ocupação desses espaços? Ou mesmo desses momentos em que nós negros estamos presentes e nos mobilizando, também? Eu vejo que ocupamos esses espaços, mas não ocupamos maciçamente. Existem formas alternativas de ocupação desse espaço, mesmo quando se trata, por exemplo, de uma manifestação pública ou, se quisermos remontar, pensemos nas “Diretas já” ou nas manifestações contra o impeachment de Dilma. A grande massa não é a massa negra. Em termos quantitativos, se vê muito mais uma classe média branca. Não estou dizendo que não estamos presentes, mas não somos a grande massa.

“eu saía da PUC, onde fazia meu mestrado, e parava naquele lugar nos Arcos. Era uma efervescência, era uma coisa impressionante! Você via o povo negro, as barracas, o comércio informal – de roupas à sopa de ervilha – até que começou a surgir o discurso da violência, da droga, etc.”

Ivana Dorali: Isso está ligado à dificuldade de circulação na cidade?

Conceição Evaristo: Eu acho que está ligado à circulação da cidade e, também, à pouca representação política que temos. Nós, negros, ainda não tomamos como direito a nossa representação política. Muitas vezes, engrossamos vozes, mas quem está liderando não somos nós. Talvez a mais recente liderança negra fosse justamente Marielle.

Mas voltando ao espaço da Cinelândia, quando o Amarelinho funcionava como point do MN, aconteceram várias formas de expulsão daqui. Então, ficamos muito tempo na Rua Laura Alvim. Não sei como está hoje a presença negra nessa rua, teve um período em que os meninos do Charme ocupavam esse espaço, então havia uma juventude negra ali. Houve um momento, também nos anos 90, em que aquele espaço da Lapa era ocupado pelos blocos afros. Onde se localiza o “Instituto Tá na Rua” era um espaço onde também tinha uma frequência negra, aquele passou a ser ponto de encontro nosso, depois que saímos da região do bar Amarelinho. Existiam barraquinhas com as velhas baianas onde tinha uma baiana muito famosa, era mulher do Xangô da Mangueira. Não só ela, mas outras baianas tinham um comércio informal ali, assim como minha grande amiga Silvana, a barraca da Silvana era conhecidíssima. O povo negro ficava naquele espaço. Depois, na década de 90, um prefeito – não me lembro quem era – resolveu higienizar o lugar. Nessa época, eu saía da PUC, onde fazia meu mestrado, e parava naquele lugar nos Arcos. Era uma efervescência, era uma coisa impressionante! Você via o povo negro, as barracas, o comércio informal – de roupas à sopa de ervilha – até que começou a surgir o discurso da violência, da droga, etc. Então, o prefeito passou a remover esse comércio de lá, começando pelas barracas de comida. Certa vez, essa minha amiga, a Silvana, perdeu tudo, até as panelas. Depois, ela passou a vender cerveja e refrigerante nesses carrinhos de supermercado, era a luta pela sobrevivência.

“Os blocos afros começaram a fazer ensaios ali, mas, depois de certo tempo, nenhum deles sobreviveu. Os espaços enegrecidos vão sendo acessados por outras pessoas, pela classe média, pelos intelectuais e a gente vai recuando.”

Hoje, quando você passa por lá encontra aqueles bares que são caríssimos e não significa que acabou o comércio da droga, não significa. Então, o motivo desse comércio não era porque estavam os blocos afros, que faziam ensaios. Retiraram as barracas da rua, mas nos bares as pessoas podem ficar em pé na calçada, as mesinhas vieram até a calçada, coisas que naquele momento não podia. Houve mais um fato que me marcou: um cantor veio até a Lapa e fizeram uma reportagem sobre o fato de que a classe média e branca tinha começado a acessar o espaço e, conforme isso acontecia, nós passamos para a rua de trás, onde está o “Tô na Rua”. Os blocos afros começaram a fazer ensaios ali, mas, depois de certo tempo, nenhum deles sobreviveu. Os espaços enegrecidos vão sendo acessados por outras pessoas, pela classe média, pelos intelectuais e a gente vai recuando.

Ivana Dorali: Pontuando essa questão do comércio ilegal de drogas, me interessa perguntar se esse discurso de guerra às drogas usado para legitimar o genocídio negro já existia desde aquela época.

Conceição Evaristo: Se constrói esse imaginário de que as populações empobrecidas são as responsáveis pela violência, são as responsáveis pelas drogas. Isso é um discurso de fachada, porque sabemos que quem gerencia a venda de drogas não é o sujeito que diz que é dono do pedaço, ele é empregado de alguém, não é dono nada. Esse discurso só leva a penalizar cada vez mais aqueles que já são penalizados por uma série de circunstâncias. Mas a guerra às drogas e a guerra contra a violência não podem começar contra a comunidade. Por exemplo, eu dei aula dentro do Morro de São Carlos e diziam que lá havia armas que os EUA usaram na guerra do Iraque. Ninguém do morro desce pra comprar arma e sobe. Como essas armas chegam? Como essas armas são distribuídas? Como a droga chega ao morro? Tem alguma coisa mais profunda.

Ivana Dorali: Eu não sei como a senhora chama, mas no Rio de Janeiro a gente chama as comunidades de favela.

Conceição Evaristo: É favela, é favela mesmo! Comunidade é um termo muito novo.

“Se constrói esse imaginário de que as populações empobrecidas são as responsáveis pela violência, são as responsáveis pelas drogas. Isso é um discurso de fachada, porque sabemos que quem gerencia a venda de drogas não é o sujeito que diz que é dono do pedaço, ele é empregado de alguém, não é dono nada.”

Ivana Dorali: A senhora foi nascida e criada numa dessas favelas em Minas Gerais. Quais são as lembranças que a senhora tem dessa época?

Conceição Evaristo: Lembrança de toda a minha infância e juventude. Quando eu saí da favela, eu já estava com 25 anos. Na minha infância e minha adolescência vivi na favela, um pouco dessa memória está no livro “Becos da Memória”, mas era outra favela. Acho que no Rio de Janeiro também houve mudanças, se formos pensar na favela dos anos 70, anos 80, por exemplo. Na favela onde eu nasci e me criei em Belo Horizonte, até os meados dos anos 70, só tinha maconha, nenhuma outra droga. O mais interessante é que, como sempre dizemos, a droga começa no asfalto, inclusive em “Becos da Memória” há um episódio sobre isso. Os primeiros meninos da favela, da primeira família que teve problema com drogas, foram levados pela polícia lá no morro. Esses meninos eram amigos do que, na época, chamávamos de juventude transviada. Essa juventude transviada eram meninos brancos e moças brancas de classe média que tinham a famosa lambreta, uma moto, e que se encontravam no espaço que hoje é chamado a Ipanema de Belo Horizonte, o espaço da padaria Savassi. Então, aqueles meninos e meninas fugiam ao formato de uma juventude centrada, as moças já vestiam calça esporte, ao contrário das demais que usavam saias. Tinham dois meninos, dos quais não esqueço, eram meus contemporâneos e passaram a frequentar a Savassi, não sei por qual motivo. E, então, no momento em que a maconha chega à favela, pelo menos na favela onde morei, a polícia sobe o morro e os leva. No entanto, a juventude transviada continuou a se encontrar tranquilamente na Savassi.

Ivana Dorali: E como você vê essa relação da favela com a dinâmica da cidade? Além de nos trazer essa memória muito significativa, quando você era criança, percebia como era essa relação da favela com outros territórios? Havia essa diferença?

Conceição Evaristo: Na minha época, hoje analisando, essa relação era conduzida pelo trabalho da favela como serva da cidade. A favela era a mão de obra da cidade, tanto para os homens que desciam para as construções civis ou para outras funções, como varrer, cuidar da cidade, quanto para as mulheres, que desciam para trabalhar na casa de madames, ou para lavar as roupas delas, ou para buscar o resto, o desperdício que a cidade oferecia. Era essa a dinâmica. Hoje, sinceramente, saí de Belo Horizonte, mas agora que você falou disso, me fez lembrar Salvador, uma das coisas que notei é que quando chega certa hora da noite, fica difícil a condução para a periferia naquela cidade.

Ivana Dorali: Fica, fica sim.

“A favela era a mão de obra da cidade, tanto para os homens que desciam para as construções civis ou para outras funções, como varrer, cuidar da cidade, quanto para as mulheres, que desciam para trabalhar na casa de madames”

Conceição Evaristo: Como no Rio de Janeiro, também, e parece que é uma coisa programada. Eu me lembro muito daquela música de Caetano Veloso que diz: A Praça de Castro Alves é o povo, a cidade é o povo. Isso quando essa cidade precisa do povo, no lazer esta não incorpora esse povo. Eu já fui para o teatro na Zona Sul, quando eu morava no Rio Comprido, e tive de pegar um táxi para ir embora, porque não havia condução.

Tem uma história que não esqueço: tinha uma menina que morava em Nova Iguaçu e nos encontramos no teatro na Zona Sul, a sessão terminou mais ou menos às 22:00h. Ela estava desesperada porque o ônibus não passava e estava preocupada com o horário em que ia chegar à Central do Brasil pra tomar outro ônibus. Então, disse pra ela: “Se você não se incomoda, na minha casa somos só eu e minha filha. Eu moro em Santa Teresa e, se você quiser, você pode dormir na minha casa.” Ela disse que sentiu um alívio muito grande e foi. Então, às vezes fico pensando, por exemplo, nas atividades do Banco do Brasil (Centro Cultural Banco do Brasil) que são gratuitas e se que se transformaram numa oportunidade para quem trabalha a semana inteira e pega condução na maior dificuldade. Agora, para quem trabalha a semana inteira é possível que exista disposição pra descer pra um evento à noite e ainda depender de uma condução pra voltar?

Ivana Dorali: A insegurança também é um problema que pode te impossibilitar de chegar à casa. E vai ficar na rua? Em Salvador, isso é central. Só existe condução para alguns pontos da cidade, depois de 22:30h não tem mais.

Conceição Evaristo: E aí, eu me lembro dessa música que o Caetano canta: “A Praça Castro Alves é do povo”, é do povo no dia útil, se o povo descer pra trabalhar, fora isso não é.

Ivana Dorali: Você acha que essa realidade que você traz de Minas é semelhante à do Rio de Janeiro e outras periferias do Brasil, lugares onde existem territórios periféricos? Aliás, você não gosta de termo periferia, certo?

Conceição Evaristo: Eu acho que toda periferia se parece. Pode-se perceber isso em vários estados do Brasil e mesmo fora do país. Eu, por exemplo, já tive a oportunidade de estar na periferia de Moçambique. Dizem que a Angola sofre as mesmas dificuldades como saneamento básico e condução, apesar de eu não conhecer. Já estive nos EUA e em bairros que não sei se posso afirmar se são tão distantes assim dessa realidade, mas é possível perceber que esses bairros também sofrem da falta de infraestrutura, por exemplo. Existe, também, o discurso da violência que afirma que a periferia é ao mesmo tempo vítima e produtora dessa violência. Agora, claro que a periferia na minha infância era diferente, até mesmo pela superpopulação das cidades.

Márcia Farias

Ivana Dorali: Atualmente, a senhora tem seis livros publicados: “Ponciá Vicêncio (2003)”; “Becos da Memória (2006)” que, como você afirmou, fala de suas memórias na sua terra natal; “Poemas da Recordação e outros movimentos (2008)”; “Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2011)”; “Olhos D´água (2014)”, vencedor do Prêmio Jabuti 2015; “Histórias de Leves Enganos Parecenças (2016)”.

Como leitora e admiradora, gostaria de perguntar como a Literatura surge em sua vida? Ela já surge como escrevivência?

Conceição Evaristo: Fico pensando que a Literatura surge como escrevivência, porque me lembro de que em 1964 eu escrevi um texto, uma espécie de crônica que se chamava Samba Favela. Nela, eu descrevia a favela e depois percebi que, na verdade, aquele texto era semente de um livro que escrevi depois. Essa escrita sempre voltada ou sempre calcada na realidade me acompanha desde sempre. Em 1990, quando público “Vozes Mulheres”, escrevo um poema em que venho falando da minha realidade desde a minha bisavó. É um poema em que tenho como inspiração as mulheres no navio negreiro, uma inspiração que parte da minha situação como mulher descendente de africanos.

Essa escrita comprometida com a vida, com a vivência, sempre existiu. Pois, enquanto você vai escrevendo, vai também refletindo sobre o seu próprio ato de escrita. Essa reflexão sobre o meu próprio ato de escrita vai acontecer bem mais tarde na minha história, mas o compromisso com essa relação entre a escrita e a realidade sempre existiu, acho.

“Essa escrita comprometida com a vida, com a vivência, sempre existiu. Pois, enquanto você vai escrevendo, vai também refletindo sobre o seu próprio ato de escrita.”

Ivana Dorali: Já fazendo uma ponte entre sua história de vida enquanto mulher negra e de favela, sempre presente em sua escrita, e o tema da nossa Revista, o que lhe vem à mente quando pensa em Democracia e Periferia?

Conceição Evaristo: A primeira coisa que me vem à mente quando eu penso em Democracia e Periferia é pensar no direito à fala. Se estamos falando de democracia, você supõe um processo político em que todos têm vozes, não é só a voz do centro que faz sentido. A voz do entorno em diversos momentos faz mais sentido do que a voz do centro, porque a voz do centro é aquela voz que já está consagrada, a voz autoritária, a voz que conquistou o seu espaço e invade o espaço do outro, sem deixar o outro falar. Às vezes, eu não gosto muito do termo “periferia”, porque dá a impressão de que a periferia é um lugar isolado que não produz as suas estratégias. Além disso, hoje mais do que nunca, o centro está contaminado com a periferia e é por isso que ele quer calá-la. O discurso do centro, hoje, se encontra abalado pela periferia. Não temos um centro imune do que está acontecendo na periferia ou do que é dito ou feito nesse território. Hoje, as margens se chocam.

“Se estamos falando de democracia, você supõe um processo político em que todos têm vozes, não é só a voz do centro que faz sentido. A voz do entorno em diversos momentos faz mais sentido do que a voz do centro, por que a voz do centro […] hoje mais do que nunca, o centro está contaminado com a periferia e é por isso que ele quer calá-la. O discurso do centro, hoje, se encontra abalado pela periferia.”

Ivana Dorali: Para complementar a sua resposta anterior, qual é o papel da periferia e onde é que ela se insere no processo de construção da democracia? Especialmente nessa conjuntura de golpe e pós-golpe que estamos vivendo, como você vê esse processo? É isso, a fala? Ouvir o que ela tem a dizer?

Conceição Evaristo: Ouvir o que ela tem a dizer é fazer o que ela pede, aliás, eu não gosto nem de “o que ela pede”, é fazer o que ela impõe. Porque em determinadas circunstâncias a periferia não está pedindo. Acho que já saímos desse processo, por isso, quando as pessoas falam do “mimimi”, não é “mimimi”, não! Nós estamos apresentando questões sérias, a periferia já não está no espaço da denúncia, ele já não cabe mais. Agora, cabe o espaço de resolver essas denúncias. Denunciar? A gente denuncia há tempos! O centro já sabe o que a gente quer, ele pode se fingir de bobo, mas já sabe. Hoje, a nossa palavra não fica mais no espaço da denúncia, ela fica no espaço da ação, entende? A nossa palavra é a palavra de fazer acontecer.

“Hoje, a nossa palavra não fica mais no espaço da denúncia, ela fica no espaço da ação, entende? A nossa palavra é a palavra de fazer acontecer.”

Ivana Dorali: Essas obras em que você traz a perspectiva da escrevivência sempre abordam as questões de classe, de gênero e de raça, sempre tocam e provocam reflexões em quem lê. A senhora acha que a literatura tem um papel nessa construção de um estado democrático de direito? Quando você escreve essa experiência, está pensando nesse tipo de contribuição?

Conceição Evaristo: Eu estou pensando e acredito nesse espaço de contribuição e, talvez por isso, também, que para determinados críticos literários, determinados professores, é preciso neutralizar o poder dessa literatura. É mais cômodo ler uma literatura que não incomoda, é mais cômodo ler o que já está aí sacramentado, essa literatura que nasce de espaços sociais diferenciados, que nasce de espaços de exclusão.  E a partir daí, podemos pensar na literatura de mulheres, na literatura de negros, na literatura de homossexuais, na literatura indígena, todos esses sujeitos de espaços subalternizados. Por um motivo ou por outro, quando esses sujeitos se apossam do objeto literário ou quando se apossam do discurso literário causam incômodo. Então, vão dizer que não existe literatura de mulher, não existe literatura de gay, não existe literatura negra, porque tudo é uma literatura só. Mentira! Se esses sujeitos colocam sua subjetividade na criação desses textos, vão criar discursos diferentes. Então, por exemplo, por mais que eu esteja ligada a uma questão indígena, quando a mulher indígena escreve um texto, ainda escreve um texto diferente do meu. Isso por conta da subjetividade dela, de seu processo histórico enquanto mulher indígena, tão subalternizada quanto eu, mas que vai acontecer de outra forma. Eu não escrevo um texto de uma mulher indígena, eu escrevo um texto de uma mulher negra. E uma mulher branca não escreve meu texto. Por quê? Justamente por causa dessas subjetividades e determinadas subjetividades não interessam a essa cultura hegemônica que está aí. Eu acredito nesse papel da literatura e no fato de que esta lida com as emoções em determinados momentos, e isso faz com que o discurso literário se torne mais eficaz. Por exemplo, se você ler um texto histórico sobre a guerra do Paraguai e um romance sobre essa mesma guerra, o romance vai te tocar muito mais, porque o romance te fala as emoções. O texto histórico pode até te falar, você vai dizer: “Nossa! Então, foram mandados africanos escravizados para guerra do Paraguai, porque era uma maneira de já ter um processo eugênico na nação.” Mas se você ler essa informação em forma de romance, ela vai te tocar muito mais. Eu acredito que a literatura mexa com a consciência das pessoas. Quando eu digo que a minha escrevivência não é para adormecer a casa grande e, sim, para incomodá-la em seu sono de virgem, não estou fazendo uma literatura para acharem bonitinho e baterem palma pra mim, estou fazendo uma literatura para os meus pares, para que eles se exorcizem e se reconheçam no meu texto. Já para aqueles que não são meus pares, para que pensem mesmo o que está acontecendo por aí, o que a gente está falando.

“…minha escrevivência não é para adormecer a casa grande e, sim, para incomodá-la em seu sono de virgem, não estou fazendo uma literatura para acharem bonitinho e baterem palma pra mim, estou fazendo uma literatura para os meus pares, para que eles se exorcizem e se reconheçam no meu texto.”

Ivana Dorali: A senhora foi tema da Ocupação Itaú Cultural, recebeu o prêmio Jabuti 2015 por “Olhos D’agua” e virou leitura obrigatória na UFMG. Em uma entrevista que disse: “Foi preciso o prêmio Jabuti para comprovar que esta mulher negra não está aqui no espaço literário por intromissão.” E a senhora ganhou, também, o Prêmio Faz a Diferença – Categoria Prosa 2017; o Prêmio Claudia – Categoria Cultura 2017; o Governo de Minas Gerais te trouxe um prêmio de Literatura; além de você ter sido premiada como destaque em 2017 pela revista Bravo. A senhora acha que essas premiações contribuem para a potência humana criativa e que estes causam algum tipo de influência?

Conceição Evaristo: Meus livros já estiveram como leitura obrigatória na UFSC, na Estadual de MG, UFMG, toda rede CEFET e está na Estadual de Montes Claros. Sobre a pergunta, talvez não. Em primeiro lugar, eu acho que esses prêmios valem para reconhecer a competência das mulheres negras e eu não falo só da minha, falo das mulheres negras em outros lugares de reconhecimento. Fiquei muito feliz por reconhecerem nossa capacidade de produzir conhecimento e produzir Literatura. As mulheres negras cantam, dançam, cozinham bem, dão aula bem, escrevem bem, dirigem empresas bem, têm boas competências políticas, como qualquer outra mulher tem. Só que é como a Jurema Batista disse: “É muito mais fácil nos colocar no lugar da cidadania lúdica”. Eles acreditam que nós só cantamos e dançamos, fora isso nós não temos competências. Nós temos essas e todas as outras competências.

Às vezes, as pessoas olham pra mim, porque eu tenho esse corpo todo e imaginam que eu canto. Eu não canto, sou desafinada, a minha voz é de taquara rachada. Então, digo: “Eu não canto, nem danço, mas escrevo.” Recentemente, no corredor desse apartamento que tenho como base na Rua Riachuelo, uma moradora do prédio me perguntou: “Eu te vi na televisão, a senhora escreve, né?” Eu respondi que escrevo. Ela prosseguiu: “O quê? Livro de receitas?” Ao que respondi: “Não! Eu escrevo contos, romances, poemas, textos críticos.” Depois, ela me contou que fez um curso de arquivista na UNIRIO. Ela é uma pessoa que não teve oportunidade de pensar e construir outra representatividade para mulheres negras, mas imaginou que uma mulher negra só escreve livro de receita. Eu nem cozinho direito, sinto a maior frustração. Tenho uma irmã que cozinha muito bem. Minha tia e minha mãe são ótimas cozinheiras, também. Eu faço o trivial.

“…esses prêmios têm significado. Mas também não quero ser vista como exceção, através desses prêmios desejo aproveitar a possibilidade de quebrar com esse imaginário que nos atinge coletivamente.”

Então, quando esses prêmios concedem a uma mulher negra essa competência, podemos até aproveitar esse momento para fazer um discurso que possa contribuir para a quebra desse imaginário de que as mulheres negras não têm competência para o discurso literário, não têm competência para o discurso do conhecimento acadêmico, então, nesse sentido, esses prêmios têm significado. Mas também não quero ser vista como exceção, através desses prêmios desejo aproveitar a possibilidade de quebrar com esse imaginário que nos atinge coletivamente. Se eles me reconhecem como escritora, quem sabe isso desperte curiosidade de descobrir outras mulheres negras que estão produzindo em vários campos do conhecimento. E toda vez que eu tenho a oportunidade de dizer isso, eu digo. E digo, também, que esses prêmios foram muito importantes, mas não é esse momento que legitima o meu trabalho. O primeiro lugar de recepção, de legitimação do meu texto, do meu trabalho foi o movimento social negro. Foram os meus pares que ouviram e que leram os meus primeiros trabalhos e foram eles, também, que foram levando-os para a pesquisa acadêmica, para as salas de aula. Então, hoje, meu trabalho explode, mas ele nasceu na base.

“Se existe um espaço que primeiramente acolheu e legitimou a minha escrita foi o movimento social negro.”

Ivana Dorali: Que outro tipo de prêmio, que outro tipo de reconhecimento considera mais importante e fundamental para você?

Conceição Evaristo: Está para além desses prêmios, é esse momento nos anos 90 quando a minha primeira publicação sai no coletivo de Escritores Negros de São Paulo, que é a coletânea Cadernos Negros. Portanto, Cadernos Negros foi o primeiro espaço meu de publicação. Os meus primeiros leitores foram os leitores e as leitoras do movimento social negro. Se existe um espaço que primeiramente acolheu e legitimou a minha escrita foi o movimento social negro.

Ivana Dorali: Recentemente, a senhora foi uma das contempladas do prêmio Mestre das Periferias, que é promovido pelo Instituto Maria e João Aleixo. Como é que a senhora vê a criação desse prêmio, especificamente?

Conceição Evaristo: Foi a mesma coisa quando a minha exposição da Ocupação Itaú foi para Maré. Saí da Avenida Paulista, que é considerada o coração financeiro da América do Sul, e fui para a Maré, o que para mim é muito significativo, porque eu fui para o espaço que me criou. Eu sou a Maré, sou aquela pessoa que vem de uma experiência periférica, venho das classes populares. Na verdade eu não voltei, porque eu nunca saí, se eu sair dessa entrevista aqui e for ali, na Cinelândia, eu sou vulnerável como qualquer mulher negra. Aliás, isso também me foi perguntado na Ocupação Itaú. Eu estava na Ocupação e a repórter me perguntou como eu me sentia ali. Eu respondi: “Minha filha, eu saí daqui ontem para uma loja de departamento, o segurança me seguiu o tempo todo. Então, nada me retira do lugar o imaginário brasileiro sobre as mulheres negras, porque eu sei que, como mulher negra, a minha história coletiva é essa, é uma história que começa aqui no Brasil num processo de subalternização. É um imaginário que eles não quebraram até hoje.”

“…ser contemplada no prêmio Mestre das Periferias é ser contemplada naquilo que eu sou e que me orgulha.”

Então, ser contemplada no prêmio Mestre das Periferias é ser contemplada naquilo que eu sou e que me orgulha. Sempre repito que as exceções servem para confirmar a regra e as exceções são perigosas. Eu agradeço à vida por só agora, aos 70 anos, estar nessa situação, porque eu não tenho ilusões, eu sei que a minha imagem é uma imagem que chama a atenção da mídia, uma mulher negra, não-jovem que não faz nenhum padrão global e que está aí como escritora. Isso chama atenção, isso é matéria, isso dá matéria. Como eu tenho essa idade, a experiência me permite lidar com tudo isso e não criar ilusões. Não estou dizendo que eu não estou feliz. Estou muito feliz, isso alimenta muito o meu ego. Várias mulheres que estão aí escrevendo, minhas contemporâneas, não alcançaram a visibilidade que eu estou alcançando. Eu agradeço muito à vida, ressalto, mas digo que não quero ser tratada como excepcionalidade, porque ela reforça o discurso da meritocracia. Se estudar, se trabalhar consegue. Não é isso! Porque eu conheço muita gente que tentou estudar, tentou trabalhar e que morreu pelo caminho, adoeceu pelo caminho. E porque nossos caminhos têm de ser tão dolorosos? Tinha que ser um processo natural. As exceções servem para pensar a regra. Que regras são essas na sociedade brasileira em que uma mulher negra só vai poder publicar aos 44 anos e precisa levar mais 30 anos para alcançar visibilidade? Será que se eu fosse uma autora branca e tivesse nascido em outra circunstância só agora eu estaria alcançando isso?

Então, temos que ter muito cuidado para ler as excepcionalidades, para não ficar batendo palma e deixar de se perguntar o que existiu atrás disso. Eu sei que quando se louva a excepcionalidade demais ou quando faz uma figura excepcional, retira-se essa pessoa do coletivo, destaca-se essa pessoa e esquece-se toda a coletividade e eu não quero ser retirada do coletivo. Esse prêmio da Maré significa que o coletivo me considera, me reconhece e me coloca com os pés do chão. Se bem que eu acho que não vou tirar mais os pés do chão, não. Preocupo-me muito com isso, acho que não vou surtar com o que está me acontecendo agora, porque sei que está bom demais. Mas existe alguma coisa que só deixou isso acontecer agora e existe, também, algo que ainda não vai deixar acontecer para muita gente, apesar de toda a nossa competência.

“…quando se louva a excepcionalidade demais ou quando faz uma figura excepcional, retira-se essa pessoa do coletivo, destaca-se essa pessoa e esquece-se toda a coletividade e eu não quero ser retirada do coletivo. Esse prêmio da Maré significa que o coletivo me considera, me reconhece e me coloca com os pés do chão.”

Ivana Dorali: Você está falando sobre coletividade, eu gostaria de trazer o nome de outros companheiros também premiados no Mestre as Periferias: Nêgo Bispo, Ailton Krenak e Marielle Franco (in memoriam). Como você percebe a escolha desse grupo para essa premiação?

Conceição Evaristo: Eu acho que o fato de que essas premiações partem de espaços ou de pessoas que ideologicamente estão alinhadas a questões populares nos distingue e nos dá um voto de confiança. Agora, eu serei tema da escola de samba “Quilombo da Abolição”, uma escola que vai desfilar no domingo de carnaval na Intendente Magalhães. Ter o reconhecimento desses lugares, além de nos chamar para a constante luta, é um voto de confiança. Não é um prêmio pelo prêmio. É um prêmio pelo nosso reconhecimento, pelo não distanciamento desses espaços. Não quero nunca perder esse meu espaço, essa minha história de origem, não quero perder isso de vista. Esse reconhecimento indica que estamos no caminho certo.

Ivana Dorali: Considerando ainda os processos poucos democráticos, recentemente, a sociedade civil espontaneamente criou um movimento que chamado “Conceição Evaristo na Academia Brasileira de Letras”. Levando em conta a sua importância na Literatura Brasileira, não só no Brasil, mas no mundo, conte-nos a respeito dessa campanha para sua ocupação da cadeira número 7 da Academia Brasileira de Letras. Aproveito para ressaltar que a sociedade civil tem levantado essa questão da representatividade, porque, afinal, somos um conjunto de indivíduos representativos de forma diversa e plural e estamos capacitados para ocupar esses espaços. Como a senhora vê esse tipo de mobilização? Considera que isso contribui de alguma forma para democratização do país?

Conceição Evaristo: Eu acho que pode contribuir, que, talvez, isso leve a Academia a pensar um pouco. Afinal, levou a todas as pessoas que se interessaram a pensar a Academia a se dedicarem a ler a história dela. Foi um momento de reconhecer ou pensar na Academia, pensar na Literatura Brasileira através de um discurso que preza uma representatividade múltipla. Para mim, esse processo é que deu a oportunidade de nos educar, como existe, também, a oportunidade de educar a Academia. A própria Academia deve pensar na existência ou inexistência dessa representatividade. Não sei, porque aí é uma escolha deles.

Outro ponto que também quero afirmar é que o instituto da Academia diz que todo brasileiro tem direito a se candidatar, contanto que tenha escrito um livro. Eu sou uma mulher brasileira, tenho seis livros publicados, além de trabalhos em várias antologias pelas quais já tenho um espaço marcado na Literatura Brasileira, tenho obras traduzidas para fora do país, tenho reconhecimento fora. Por isso, eu tenho competência para me candidatar e me candidatei. Agora, cabe à Academia. Não sei quais são as regras do jogo, mas como cidadã brasileira eu preencho os requisitos para uma candidatura.

Entrevista realizada em Julho/2018

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