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Democracia e Periferia
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Narrativas

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Democracia e a Cabanagem

Aiala Colares de Oliveira Couto * e Wellington Frazão **

Os bairros periféricos de Belém funcionam como espacialidades urbanas que operam de forma dinâmica na construção de identidades territoriais, associadas às diversas formas de reprodução social e cultural, as quais emergem como lógicas da vida cotidiana e das estratégias de sobrevivência da população.

A expansão periférica de Belém se deu por meio do processo desterritorializante, em que parte da população foi “expulsa” das áreas centrais do centro da cidade, tendo  se deslocada para áreas mais periféricas. Os espaços periféricos da metrópole ou as áreas de baixadas tornaram-se também um lugar importante para as formas de reprodução social e de luta pelo direito à cidade em meio a um intenso processo de “exclusão social” ou “exclusão socioespacial”.

Sendo assim, é possível referir-se à problemática da habitação no Brasil, sobretudo nas metrópoles, onde esse problema se encontra no centro das questões urbanas. Em razão da exclusão de grande parte da população por parte do mercado imobiliário formal, a "solução" para esse déficit habitacional tem sido as formas alternativas de habitação, as quais nas políticas urbanas, prevalecem como uma lógica perversa de produção do espaço que é produtora da maior parte dos problemas sociais. Na Amazônia, a expansão urbana de Belém foi caracterizada pelo permanente e crescente descompasso entre o lento crescimento urbano e a rápida expansão de suas margens.

Entre a década de 1980 e início da de 1990, Belém tornou-se conhecida como a “capital das invasões”, devido aos vários movimentos de ocupação da terra para a moradia que explodiram em torno da Rodovia Augusto Montenegro, a qual integra a Zonal Sul à Zona Norte, rumo ao Distrito de Icoarací.  Do mesmo modo, vários movimentos de luta pelo direito à moradia ocorreram ao longo da rodovia BR-010, com abrangência até o município de Ananindeua, ao extremo norte da região metropolitana de Belém.

Em Belém, as ocupações populares na zona periférica do centro passaram a fazer parte da paisagem urbana da cidade, evidenciando um espaço marcado por conflitos de uso do solo. É nesse contexto que o bairro da Cabanagem surge. O nome do bairro é homenagem ao movimento popular da Cabanagem (1835 a 1840), instaurado na província do Grão-Pará (atual estado do Pará), cujo nome é atribuído em função da grande parte de seus integrantes terem sido moradores de cabanas em beira dos rios da região.

O bairro da Cabanagem surge em meados dos anos de 1988 com um rápido crescimento que alcançou, de acordo com o senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, uma população de 27. 781 habitantes.   Em princípio era chamado de Santa Maria pois a ocupação se deu em propriedade de uma antiga fazenda de mesmo nome. A ocupação definitiva da área se deu a partir da intervenção do então governador da época, Hélio da Mota Gueiros (1987-1991), que em cujo governo desapropriou um terreno de uma empresa que usava a área para fins de retirada de areia e deposito de resíduos asfálticos.

O bairro da Cabanagem é considerado um bairro popular periférico da área de expansão de Belém. A existência de ativismos sociais ali é essencial: são coletivos de bairros, centros comunitários, organizações da sociedade civil, rádios comunitárias, associações e outros tipos de organizações que contribuem para os movimentos de resistência de periferia que lutam pelo direito à cidade.

O Coletivo Periferia em Foco, é um exemplo de luta democrática na Cabanagem. Trata-se de um projeto de mídia alternativa que se destaca como uma forma estratégica demostrar as periferia de Belém e sua região metropolitana no estado do Pará.  A Cabanagem é mostrada não como marginalizada ou cheia de estereótipos negativos, mas o projeto busca apresentar o lado bom da periferia: seu povo e suas histórias; suas lutas e seus direitos.

O projeto Periferia em Foco promove a difusão da potência dos bairros populares nas redes sociais, sobretudo pela sua página na rede social Facebook. Divulga web séries, entrevistas, bate papos, roda de conversas e palestras. O projeto torna-se a voz da periferia nas redes sociais; visa, acima de tudo, construir um coletivo que viabilize a autovalorização da população periférica e que dispute o campo desmistificação da “cultura da violência” presente nesses espaços. O projeto é uma construção coletiva que busca difundir um pensamento crítico e discursivo em relação a visão do próprio morador e do seu lugar de pertencimento à cidade, focando no lado bom da periferia: as potencias individuais e criativas. O trabalho é focado nas narrativas de quem habita as periferias: o(a) feirante, o(a) motorista de ônibus, o(a) professora(a), o(a) aluno(a) da educação básica ao da educação superior, do policial de bem, os(as) profissionais da área da saúde, as secretarias dos lares, os profissionais da construção civil; os pais e as mães que sonham e lutam para ver seus filhos longe das mazelas e, acima de tudo: a juventude que está transformando a periferia.

O projeto Periferia em Foco surgiu através da inquietação de um jovem universitário morador do bairro da Cabanagem em Belém do Pará, insatisfeito com o estigma de que o cidadão da Periferia não tem voz e nem vez, e de “que todo morador da periferia é bandido ou será em breve”. Em agosto de 2016, reuniu três amigos, que assim como ele, sentiam-se incomodados com a imagem negativa  atribuída aos moradores dessas áreas. Os quatro integrantes, moradores do bairro da Cabanagem, começaram a contar o lado bom da periferia nas redes sociais, e foi a partir desse momento que o PERIFERIA EM FOCO surgiu.

O coordenador do projeto, Wellington Frazão,  é morador do bairro da Cabanagem desde sua fundação, há trinta anos. Wellington estudou música na ONG do bairro Cristo Redentor, organização que mantém uma parceria com a Fundação Carlos Gomes, para onde muitos jovens são encaminhados para seguirem com o ensino musical após dois anos de estudo em musicalização. Nas palavras de Wellington: “Nós da periferia queremos respeito; queremos direitos; queremos viver e acima de tudo viver com qualidade, pois também fazemos parte da sociedade. Nós da periferia não estamos precisamos de “minisséries” e/ou programas policiais sensacionalistas; queremos ser vistos e enxergados pelo lado bom que em muito excede o ruim. Não estamos sendo hipócritas e dizendo que não ocorre crime, que não existe pobreza, que não existe mazelas. Mostramos para o Brasil e para o mundo  as boas práticas das periferias de Belém, promovendo a valorização e desmitificando a visão marginal que mostra a grande mídia - a de uma periferia vista a partir da lente da pobreza e sofrimento. Mostramos o outro lado dessa história, o da periferias habitada pela força criativa onde pulsa o coração da cidade, pois periferia é cidade.”

O Periferia em Foco vem exercendo,  ao longo de seus dois anos de atuação, um importante papel na periferia de Belém, dando visibilidade a projetos organizados pelas comunidades situadas nas bordas de Belém.  Além do trabalho jornalístico em  redes sociais, O Periferia em Foco  integra a Agência de Narrativas das periferias do Instituto Maria e João Aleixo, rede voltada para a produção Jornalística e publicidade afirmativa.


[*] Professor e Coordenador do Curso de Pós- Graduação Lato Sensu em Ensino de Geografia na Amazônia da Universidade do Estado do Pará (UEPA). É pesquisador e coordenado do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB) vinculado à Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN).

[**] Coordenador do Periferia em Foco

 

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