v.01  n.01  2018
O Paradigma da Potência
v.01  n.01  2018
O Paradigma da Potência
Narrativas
Escritos visuais dos(as) fotógrafos(as) do Imagens do Povo

Bira Carvalho, Francisco Valdean, Marcia Farias, Rosilene Miliotti

Na manhã de sexta-feira (1 de julho de 2004), os professores João Roberto Ripper e Ricardo Funari reuniram os alunos da primeira turma da Escola de Fotógrafos Populares em frente ao número 26 da Rua Guilherme Maxwell[1] e ali repassaram as últimas instruções necessárias para a realização da primeira aula prática do projeto Imagens do Povo, aquele tipo de atividade ficou conhecido dentro projeto como “saídas fotográficas”. Naquele dia saímos pela primeira vez para uma aula prática para fotografar as ruas da Maré.

O curso da EFP, ofertado pelo Observatório de Favelas, acontecia há pelo menos dois meses quando da primeira ida a campo. Até então tínhamos acessado apenas conteúdos teórico. A turma era composta, em sua maioria, por alunos moradores da Maré, mas também por alunos da Mangueira, Santa Marta, Rocinha, Manguinhos, Vila Aliança, e favelas do Alemão. Havia, por parte da instituição Observatório de Favelas, a intenção de replicar a experiência, que ocorria na Maré, em outras favelas do Rio de Janeiro. Após as instruções dos professores seguimos munidos de algumas câmeras fotográficas, todas fornecidas pelo projeto Imagens do Povo, por ruas das localidades do Morro do Timbau, Baixa do Sapateiro e McLaren. Nesta aula prática fizemos registros fotográficos de paisagens, das ruas e de personagens. Estes registros podem ser considerados como o princípio do grande acervo fotográfico construído pelos fotógrafos oriundos desta experiência de comunicação.

Iniciamos os registros fotográficos ainda ali na Rua Guilherme Maxwell, em seguida passamos pela Rua Praia de Inhaúma. Na favela da McLaren, onde viviam em barracos de madeira algumas famílias, foi onde nos demoramos mais. A favela da McLaren é a mais recente ocupação da região e remonta às origens da Maré (moradias em barracos de madeira erguidas às margens de um valão), a situação era de profunda precariedade. Voltamos muitas outras vezes nesta favela. Dali seguimos para a Linha Vermelha, pretendíamos fotografar trabalhadores ambulantes, muitos moradores da região vivem da venda de produtos no trânsito desta via. Ficamos sabendo da existência de um grupo de pessoas morando embaixo do viaduto da Avenida Bento Ribeiro Dantas. Fomos ao encontro deste grupo de moradores de Rua da Maré, chegando ao local nos deparamos com homens, mulheres e crianças, fizemos os contatos necessários e conseguimos permissão para a realização de alguns retratos do grupo e das condições degradantes do ambiente em que viviam.

Para mim este foi o fato mais impactante que aqueles primeiros momentos de prática fotográfica me proporcionaram. Apesar de circular bastante por ali, eu nunca havia percebido aqueles moradores e, claro, a surpresa maior foi “descobrir” que na Maré também tinha população morando na rua. Pensava que moradores de rua eram um problema do “asfalto” não da favela. Depois fiquei sabendo que este grupo de pessoas tornou-se parte da população da favela McLaren.
Após a visita aos moradores de rua da Maré circularmos por ruas da Baixa do Sapateiro e ruas do Morro do Timbau, onde fotografamos personagens como um gari comunitário nesta localidade também registramos becos e vielas.

Em uma aula posterior, as imagens produzidas naquela primeira saída fotográfica, foram projetadas em um telão e analisadas coletivamente. À medida que as fotografias iam aparecendo no telão as mais diversas manifestações surgiam, os professores (Ripper e Funari) faziam comentários técnicos a respeito da luz, enquadramento, composição e davam dicas de como a fotografia poderia ter sido melhor executada. Para os casos em que o registro não era satisfatório sugeriam que fizéssemos novamente a respectiva fotografia. Nós alunos relatávamos impressões marcantes daquela primeira experiência de campo, como tinha sido o contato com os moradores da favela McLaren, os trabalhadores ambulantes da Linha Vermelha e para todos a impressão mais impactante foi a “descoberta” da existência de moradores de rua na região.

Inventário visual do cotidiano da Maré
por Francisco Valdem

“Inventariar o cotidiano festivo, artístico e criativo da Maré é a minha busca como fotógrafo, considero uma atividade necessária e importante para o combate das imagens estereotipadas narradas com frequência…”

Francisco Valdean é Mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2013). Tem experiência na área de produção cultural e gestão de banco de imagens, desenvolve atividades de gerenciamento do banco de imagens do Programa Imagens do Povo da instituição Observatório de Favelas. Membro do Grupo de Pesquisa Imagens, Narrativas e Práticas Culturais (INARRA) vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa a representação das favelas da Maré na linguagem fotográfica do fotojornalismo e documental

Por ruas da Nova Holanda
por Bira Carvalho

Bira Carvalho é coordenador do projeto Imagens do Povo, é fotógrafo formado pela Escola de Fotógrafos Populares e “rueiro”, gosta mesmo é de parar na Rua principal da Nova Holanda, é desta vivência que saem inspirações para fotografar as ruas da Nova Holanda. É formado em áudio e vídeo pela Escola de Comunicação Crítica, é formado ainda em mediação de conflito pela fundação Getúlio Vargas , morador da Nova Holanda há 43 anos e liderança comunitária no Complexo de Favelas da Maré”

XINGU
por Marcia Farias

Fotógrafa formada pela Escola de Fotógrafos Populares em 2009. Trabalhou como fotógrafa e responsável pela indexação, tratamento e arquivo de imagens da instituição Viva Rio de 2009 a 2011. Participou das exposições coletivas: A Maré do seu Tom (2007), Caçadores de Sonhos (2009), Viva Favela 10 Anos (2011). Ministrou aulas de fotografias para o projeto Wikmapas e Curta Favela em 2010. Fez assistência para o fotógrafo Thiago Barros. Na atualidade assina a exposição individual “XINGU escritas Visuais de Marcia Farias” em exibição na galeria 535 do Observatório de Favelas.

Paisagens religiosas
por Rosilene Miliotti

Fotógrafa formada pela Escola Fotógrafos Populares, em 2007. Cursou a Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC), realizada pelo Observatório de Favelas, em 2005. Formada em Comunicação Social/Jornalismo, cursa pós-graduação em Gerenciamento de Mídias Digitais. Em 2009 estagiou em comunicação no Observatório de Favelas e atualmente trabalha como jornalista na Redes de Desenvolvimento da Maré. Desenvolve projetos de assessoria de imprensa e na área de mídias digitais.


[1] A rua Guilherme Maxwell fica no Morro do Timbau. No número 26 a época funciona a Casa de Cultura da Maré que abrigava vários projetos dentre eles o projeto do Museu da Maré. Após mudanças o espaço deixou de se chamar Casa de Cultura e passou a se chamar, Museu da Maré.
[2] Avenida Bento Ribeiro Dantas liga o campus do Fundão-UFRJ a Linha Vermelha.

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