v.02  n.02  2018
Democracia e Periferia
v.02  n.02  2018
Democracia e Periferia
Editorial
Instituto Maria e João Aleixo | Universidade Internacional de Periferias

DEMOCRACIA E PERIFERIA

O mundo contemporâneo vive uma nova onda de autoritarismo. A ameaça à democracia se estabelece a partir de contornos que circundam as instituições e valores democráticos de modo a questioná-los sob a perspectiva da política conservadora e, no limite, regressiva. As forças progressistas, por outro lado, não foram capazes de elaborar discursos e ações políticas de enfrentamento para fazer frente ao desmonte gradual dos valores democráticos. Com efeito, uma política agressiva no discurso (e na prática) começa a assumir contornos em resposta à inquietude diante do avanço das desigualdades e da incapacidade de alternativas fortes o suficiente para afirmação de outro projeto político. O avanço de movimentos sociais periféricos como o Movimento das Mulheres, Movimento Negro, o Movimento LGBTq+, e os Movimentos culturais das periferias reinventam o fazer político, indo além da própria agenda que até então a esquerda política tradicional propunha.

A renovação das lutas sociais, que traz a emergência de outros(as) sujeitos individuais e coletivos para a política, esteve diante da oportunidade de avanços de suas agendas durante os governos progressistas (locais e/ou nacionais). Essa renovação se deu a partir da incorporação de pautas identitárias amplas, criando possibilidades para a reinvenção qualitativa do sentido da democracia. Já  com a crise do capitalismo em sua forma mais recente, a do neoliberalismo, não se permitiu que esses avanços ganhassem maior ressonância para romper com o discurso conservador e, no limite, com as ações regressivas em relação aos direitos.

Com a instauração de crises econômicas e políticas, o retorno ao conservadorismo se tornou o caminho adotado pelos grupos dominantes em sua retomada e recomposição da hegemonia sociocultural, sustentando ideologicamente a expansão predatória do mercado. O grande perigo passa a ser não apenas o avanço dessas forças conservadoras, mas o menosprezo à democracia como um regime de direitos plenos.

A presente edição de PERIFERIAS se propõe a pensar os desafios da democracia no mundo contemporâneo. Nossa proposta é pensa-los a partir dos olhares, vivências e experiências das periferias do mundo. Embora a ameaça à democracia seja real diante das inúmeras frentes conservadoras antidemocráticas globalmente em expansão, é preciso considerar que seus efeitos são ainda mais devastadores nos territórios e populações cuja proteção e garantia de direitos não se consolidaram.

A análise afirmativa das lutas emergentes em diferentes territórios, assim como as estratégias instauradas pelos grupos periféricos, é não apenas necessária, como se origina de um processo ampliado de identificação das alternativas que as Periferias podem oferecer para se repensar o sentido da democracia no contemporâneo, no qual se inclui a necessidade de invenção de narrativas estéticas e atuação política para sustentar a preservação e a consolidação da democracia.

Repensar o processo político não apenas passa pela Periferia,  pois a capacidade de dar respostas aos desafios do mundo contemporâneo – necessariamente vem da Periferia e de seu poder inventivo.

EDIÇÃO Nº2

A Revista PERIFERIAS, publicação semestral e em quatro idiomas (PTENGESFR) do Instituto Maria e João Aleixo (IMJA) , completa, com sua edição Democracia e Periferia, seu primeiro ciclo de publicação.  Ao todo, dezenove conteúdos compõem as seções Artigos, Narrativas, Entrevistas, Cria da Periferia, Resenha e PERIFERIAS Convida.

ENTREVISTAS E ARTIGOS

A escritora brasileira Conceição Evaristo, e a Eurodeputada portuguesa Marisa Matias, são as entrevistadas da edição. Na seção Artigos Raja Bagga e Madhurima Dhanuka (Índia) discutem os desafios para Reforma Prisional e Democracia. Abdullah Yusuf (Paquistão) aborda possibilidades e desafios para o Primeiro Ministro eleito; Levent Piskin (Turquia) analisa em perspectiva histórica o autoritarismo presente na política contemporânea do país. Paula Flanagan (Irlanda) revisa criticamente neoliberalismo e a prática comunitária e, Albert Ogien (França), traz sua leitura de expansão conceitual sobre periferia. Eduardo Alves – assina o texto de abertura do IMJA.

NARRATIVAS ESTÉTICAS, CRIA E RESENHA

Marcada pela pluralidade de Narrativas, a Revista abre a seção com Intervenção Mapuche – Obra 18.314 (Chile) de Daniela Catrileo, composta de intervenção artística, poesia, fotografia e diálogos com as coautoras. Em Narrativa Cigana (Espanha), Pastora Filigrana, Sonia Sahli e Natalia Caballo trazem a perspectiva cigana do Polígono Sur – periferia de Sevilha. Em O Corpo na Trouxa, Shahd Wadi, descreve, em tom de depoimento, corpo e pertencimento à Palestina.  Alejandro “Pitu” Salvatierra, de Villa 15 (Buenos Aires), é a personalidade de Cria da Periferia.  Bira Carvalho, fotógrafo do Imagens do Povo, projeto do Observatório de Favelas, traz seu ensaio. Em diálogo entre teólogo e mulher transexual, Gilmara Cunha e Graham McGeoch discutem corpo, transexualidade, visibilidade e política. O livro Geopolítica do estado nacional e o território Quilombola no séc.XXI”, recebe a resenha da edição. Aiala Colares e Wellington Frazão discutem democracia ao acesso no bairro da Cabanagem – Belém.

CONVIDA

Inaugurando a seção PERIFERIAS Convida, a Revista recebe Redes da Maré e o Festival WOW – Mulheres do Mundo, Comunidades Catalisadoras e Agência Narra.

EDIÇÃO Nº3

A chamada para a edição Nº3, “Experiências Alternativas da Periferia“, encontra-se disponível. Envio de propostas de contribuição até Março/2019.

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