v.1  n.3  2019
Experiências Alternativas
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Narrativas

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MUMI - MUSEU MIGRANTE

PELO BEM VIVER E O BEM MIGRAR: MEMÓRIA E RESISTÊNCIAS CRIATIVAS

 

Deyanira Clériga Morales
Pável Valenzuela Arámburo
Aldo Jorge Ledón Pereyra

Tradução
Mariana Costa

En la lucha es donde la gente se encuentra, Na luta é aonde a gente de encontra, pois apesar das nossas diferenças físicas, do idioma, das diferenças culturais, sempre temos nossas raízes históricas que nos permitem encontrar com gente que constrói em meio a um mundo hostil.

Esta narrativa é construída por membros da organização Voces Mesoamericanas e da Universidade Autónoma de Chipas. Incorporados ao projeto Global Grace, trabalham em comunidade com o Museu Migrante - MuMi, museu itinerante do sul do México que é uma aposta de luta e resistência dos povos indígenas migrantes dos Altos de Chiapas ao direito de mobilidade e ação política:  fronteiras se disputam, cruzam-se e nelas se habita. Assim se constrói nossa memória viva: A partir da nossa voz, o Museu Migrante - MuMi e  o cinema participativo geram processos criativos com jovens em uma experiência de emancipação humana em Chiapas. Ao final, o Museu, que é Migrante, chega ao Galpão Bela Maré, Rio de Janeiro. O que significa, portanto, esse encontro entre o Galpão Bela Maré e o MuMi?

Chiapas – Desde a luta dos povos indígenas à migração

Chiapas fica na região sudeste do México e divide um total de 645km de fronteira lineares naturais (rios, montanhas, selva) com a Guatemala; tem uma população de 5.5 milhões de pessoas e concentra uma grande população de povos originários maias:jacalteco, mame, tojolabal, cachiquel, motozintleco, lacandón, Chuj, tseltal, tsotsil, choly zoque, predominando os últimos quatro. No total, calculam-se 1.141.000 pessoas falantes de alguma língua indígena nesta região. Chiapas é o estado mais pobre do país, com 76,2% de sua população vivendo em situação de pobreza - 3.962.000 habitantes. Chiapas teve, entre 2012 e 2014, um aumento de 1,5% da população vivendo na pobreza e sendo que  7,5% da população do país vive nesta situação. A pobreza é persistente e tem aumentado significativamente nos últimos 10 anos.

A essas condições de desigualdade e ao não exercício de direitos, soma-se a grande diversidade e riquezas naturais no estado de Chiapas, historicamente produziu-se um território de disputa: água, madeira, minerais energéticos, minerais preciosos, terras de cultivo, entre outros têm instigado a cobiça de empresas nacionais e transnacionais que, mediante estratégias para a suposta geração de recursos e desenvolvimento para a  região, têm encourajado a destruição da natureza e a violência que afeta as pessoas que habitam esses territórios. Assim, o conflito armado interno de Guatemala, o levantamento armado Zapatista, os ataques terroristas do dia 09/11, os acordos globais para a segurança hemisférica e a grave crise de deslocamento forçado na região atualmente, têm se transformado na justificativa para consolidar os modelos de segurança nacional e armamentista do nosso país, tendo sua ênfase,  nas regiões fronteiriças. Chiapas acaba sempre castigada.

Entretanto os povos originários, empobrecidos, maltratados, violados, assassinados, os que estão sempre abaixo são quem nos dão mostra do valor e do significado das palavras justiça, luta, rebeldia, autonomia, respeito, dignidade, direitos... São mulheres e homens de todas as cores que iluminam a escuridão com luzes de esperança gritando: nunca mais um mundo sem nós!

Assim foi que, em 1994, quando o mundo globalizado celebrava o Tratado de Livre Comércio, envolvendo Estados Unidos, Canadá e México, como uma das grandes ações para tirar México de sua pobreza consumista, os povos souberam que era o princípio de uma morte anunciada em que novamente seriam aquelas e aqueles abaixo a sofrer os estragos; Chiapas novamente à luz do mundo gritava: basta!

Nesse mesmo ano de 1994, os povos indígenas, cansados da violência histórica e exploração, decidiram levantar armas contra um governo capitalista e neoliberal, lutando por autonomia, respeito e inclusão; eram mulheres e homens armados dando um exemplo a nível mundial da importância da luta e da briga interminável por um mundo justo,  onde se respeite e inclua  todos os olhares e pensamentos. Assim os povos têm construído suas lutas, nossas lutas, as lutas de toda a região latino-americana; são os povos que resistem, adaptam-se, transformam e propõem novas formas de caminhar nosso planeta; hoje em dia são as migrações o exemplo vívido da resistência e luta para não serem esquecidas e esquecidos, uma luta que une a todos os povos de nossa região. Atualmente, o ato mais desafiador contra um modelo excludente é o de construir a memória coletiva, política e exigente, pois se converte em uma ferramenta fundamental para a justiça no futuro.

MuMi: Museu Migrante
Resistência, direito de fuga e ação política: Disputar fronteiras, habitar fronteiras!

Na passagem de 2018 para 2019, presenciamos a evolução dos deslocamentos forçados de movimentos sociais públicos e visíveis que, em seu andar e cruzar fronteiras em multidões, exerciam o direito à fuga e à resistência a não morrer nas mãos de um sistema desigual e violento. Milhares de pessoas provenientes da América Central, assediados pela violência, corrupção, empobrecimento e nulo acesso aos direitos, saíram de seus países fugindo aos milhares - começaram a caminhar em caravanas que lembravam os êxodos bíblicos. Estas pessoas, as mais empobrecidas e violentadas, viram uma estratégia na visibilidade; são pessoas que no contexto histórico das migrações irregulares jamais puderam cobrir os custos das redes de tráfico e subornos aos governos, pois não há dúvidas: para migrar é preciso recursos econômicos. É então que a decisão forçada de ir embora se transforma em uma aposta de vida para toda uma família e até para comunidades inteiras. É importante ressaltar o papel histórico opressor que o governo dos Estados Unidos tem ocupado em relação aos países da América Central nos últimos 70 anos. Basta recordar o início dos conflitos armados internos que permitiram justificar a “intervenção americana” para a criação de estratégias de inteligência e contra-insurgência que, ao passar dos anos, geraram as bases da desapropriação, controle territorial e de recursos desta região. Hoje, as consequências desta intervenção se mostram em políticas de desenvolvimento econômico e de segurança que os Estados unidos impõem para toda a América Latina.  Entendemos que o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, os tratados de livre comércio e a segurança hemisférica funcionam como condicionantes para os deslocamentos forçados históricos, desde a clandestinidade até o movimento público social em forma de Êxodo Migratório.

Afinal, são milhares de pessoas, meninas, meninos, adolescentes, famílias, mulheres grávidas, idosos, pessoas com necessidades especiais, integrantes da comunidade LGBTQI+, todas vítimas, direta ou indiretamente, da violência física, emocional, sistêmica, histórica e simbólica em seus corpos, a partir da prevalência do modelo de desenvolvimento dos países do norte, onde o extermínio da vida e da natureza são justificadas pela ideia de sustentar o consumo insaciável das sociedades “modernas e desenvolvidas. O Êxodo Migratório é a expressão digna de milhares de pessoas que afrontam a situação adversa da pobreza, violência e exploração, começando com alternativas que propõem gerar vida e segurança para suas famílias, comunidades e povos.

E diante deste cenário, que atualmente nos mostra a expressão mais crua da violência sistêmica no deslocamento forçado, temos também possibilidades de mudar nossa história: unificando nossas lutas como povos latino-americanos; construindo formas reais de interculturalidade e integração; disputando fronteiras, não a partir da concepção da divisão e da subordinação, mas a partir da possibilidade de reconstruir nossos territórios históricos ancestrais; habitando as fronteiras em harmonia e bem-estar com a natureza; assentando nossas riquezas na infinita gama do pensamento de nossos povos; e tendo na ação política organizadora, motor para a eleição do bem viver e da vida digna em nossas comunidades latino-americanas.

Caminhos em que seja normalidade que nos acompanhemos e cuidemos, pois reconhecemos o valor, a grandeza e o aporte de cada vida que anda sobre nossa terra-mãe para o bem-estar do nosso presente!

Mumi, Jornadas con jornaleras y jornaleros en Sonora. from Atmósfera Audiovisual on Vimeo.

Construção da memória viva: O Museu Migrante – MuMi a partir da nossa voz

O Museu Migrante (MuMi) tem sido uma construção coletiva dos povos migrantes com quem trabalhamos em Voces Mesoamericanas. Não é um museu concluído, pois ao mesmo tempo que as migrações têm seu dinamismo em gerar e contar histórias, o museu vai se nutrindo de ideias, de interações e dos espaços que vai ocupando onde é montado.

Por um lado, pensamos o museu como um forma para que os povos indígenas de Los Altos de Chiapas se autovalorizassem e se reconhecessem em suas próprias história, criando uma memória coletiva como ato político e de resistência daquelas histórias que nunca se contam. Queríamos compartilhar o que move e comove as pessoas dessas geografias que vivem em contextos migratórios: suas dores, suas lutas, suas alegrias e formas de organizar-se e resistir. Buscávamos que outras e outros somassem ao MuMi para reconhecer essas vidas cheias de cores, de trabalho com a terra, de relação com o sagrado, de cumplicidade, de protesto e exigência de direitos. Queríamos compartilhar, também, as injustiças dos contextos migratórios dos nossos tempos, migrações forçadas que buscam a sobrevivência, porque nas comunidades de origem as formas de reprodução da vida estão cada vez mais precarizadas. Além disso, sofrem com detenções e humilhações no trânsito migratório, desaparições, mortes, racismo e exploração do trabalho nos destinos, formas de organização no retorno às famílias de migrantes, que nunca foram partiram, mas que viveram as migrações em outra trincheira. Nesse contexto, surgem as quatro seções do MuMi: Aquí estamos-El origen, En el camino estamos-El tránsito, Estamos allá- Los destinos y Ya regresamos- el retorno.

O MuMi é isso: raízes, rostos, rotas que contam um pouquinho da história, acompanhado de cores e bordados que caracterizam os povos desta região, além de outras formas interativas que temos construído para que as pessoas possam jogar e refletir as próprias histórias migratórias que conhecem. Por outro lado, existe o MuMi Foro (espaço-cenário vivo) que se nutre com as expressões criativas e artísticas de jovens, meninas e meninos com quem trabalhamos processos educativos de reflexão crítica, organização e exigência de direitos.

MuMi
O cinema participativo: processo criativo com jovens no MuMi

O cinema permitiu ao ser humano se aproximar de imagens em movimento de realidades e ficções diversas, conhecer outras formas de ser do Outro, viajar, entrar em outras geografias, observar outras culturas. Assim como o avião “...estes dois inventos encurtam distâncias, dão pés à imaginação e ao sonho”[1]. Os dois inventos conseguem nos fazer decolar da terra. O cinema então nos permite migrar a outros espaços-tempos sem a necessidade de nos deslocarmos. Desde suas origem, a magia cinematográfica tem se dirigido principalmente ao grande público com fins comerciais, gerando uma próspera indústria com núcleo elitista de personagens que gozam da fama, da opulência e que a partir de uma visão colonialista buscavam a exotização do outro, do “primitivo”,  visto desde a Europa. Ao mesmo tempo, em certos espaços, tem-se buscado incorporar ao fazer cinematográfico um foco de conteúdo social, com novas ferramentas artísticas que estabeleçam formas multidisciplinares, por meio das ciências sociais, para documentar e interpretar criticamente as realidades, criando outros métodos, mais justos e participativos, que acessem a outras óticas que são, geralmente, invisibilizadas.

Por isso, com o Museu Migrante (MuMi), espaço de mobilidade e de intercâmbio de expressões artísticas com jovens indígenas migrantes de Los Altos de Chiapas, estamos apostando em um cinema participativo, onde se desenvolva e motive uma criatividade nutrida pela riqueza do entorno cultura desta região Maia, a partir das comunidades que vivem diversas experiências na migração. Buscamos gerar encontros culturais, intercambiar práticas, aprender mutuamente. O MuMi trabalha com o propósito de fomentar o autorreconhecimento dos povos, da sua história passada e presente, com o exercício e a criação de relatos próprios que construam narrativas comunitárias. Compartilhamos entre diversas disciplinas este sonho como compromisso e postura política para, assim, possibilitar a partir da arte que cada uma delas e cada um deles sejam protagonistas, diretores e atores políticos em suas vidas e comunidades.

Na nossa forma de fazer cinema não buscamos a lógica imperante, vemos o cinema como uma ferramenta comunitária para contar nossas histórias, nossas anedotas como seres com características específicas, mulheres, homens, migrantes, que habitam excluídos dos estandartes da lógica neoliberal; meninos, meninas, jovens que se transladam com a arte para outras realidades. Com o cinema participativo, criamos novas formas e processos de construir a imagem. Por meio da língua nativa dos povos, reinventa-se a linguagem cinematográfica e as narrativas, e, também, elimina-se hierarquias. A aprendizagem é comunal, se aprende das outras e dos outros. Todo conhecimento é válido e importante. Os processos nutrem e formam parte do produto audiovisual final, elaborado em comunidade.

O MuMi no Galpão Bela Maré, Rio de Janeiro

O MuMi viaja pela primeira vez ao sul da América Latina e não para qualquer lugar, mas para o Galpão Bela Maré! Poder montar o MuMi na favela da Maré significou a possibilidade de levar a palavra dos povos migrantes indígenas do sul do México e, assim, conseguir conectar as histórias de migração, exclusão, lutas e resistências entre pessoas de ambos os países.

Soubemos por fotos como seria o espaço físico onde instalaríamos o MuMi. A verdade é que nossa experiência exibindo o MuMi se concretizou quando chegamos e pensamos onde penduraríamos as cordas, as fotos, as lonas e os fios coloridos. Quando chegamos àquele espaço, a primeira coisa que nos impressionou foi a maquete da Maré. Um dia antes, tínhamos caminhado por suas ruas, tivemos muitas surpresas e muitos sorrisos trocados com as pessoas pelas ruas do Parque União e da Nova Holanda, que integram o Conjunto de Favelas da Maré. Foi por isso que, ver a maquete nos roubou vários suspiros e, claro, a curiosidade de querer saber mais sobre esse território.

Sem planejar muito, decidimos que o MuMi deveria ser exibido ao fundo do espaço, abrindo seus braços para a grande maquete, abraçando o território. Ao mesmo tempo, a Maré estava ali disposta no centro para se abrir ao MuMi, para observar com carinho as histórias de povos distantes do México. Depois de várias semanas e de compartilhar várias reflexões em conjunto, ambos os territórios deixaram de estar distantes, porque aprendemos pelas cumplicidades presente por entre as raízes, os rostos, as rotas e, também, das dores e alegrias. Como se não bastasse, dezenas de passarinhos de papel (tsurus migrantes) foram postos em cima da maquete, como se estivessem voando sobre a Maré, já que, em vez de helicópteros atirando, os pássaros simbolizam a possibilidade de levar mensagens de solidariedade, justiça e dignidade.

Esta foi a primeira vez que o MuMi estava em um espaço de galeria; quase sempre ocupamos as ruas, os corredores de alguma escola, as árvores de algum jardim, as grades de algum campo de futebol, as barras das janelas. Foi uma experiência linda encontrar-nos com martelos e pregos nas mãos e, claro, com a disposição de toda a equipe do Bela Maré que colaboraram com nossa aventura de exibir o MuMi. Nunca faltou a escada, a mesa, o café, o ventilador, a água, os pregos, a fita adesiva da parte deles. Meninas, meninos e jovens intercambiando no MuMi e, com isso, a possibilidade de construir a memória para além de “só observar”. Cada encontro foi planejado para fazer uma atividade, primeiro reconhecendo o que significa migrar, onde moramos, onde nascemos e onde nossos pais e avós nasceram. Fomos nos localizando em cada encontro em um mapa imaginário gigante e descobrimos juntos as migrações do Nordeste brasileiro, principalmente para o Rio de Janeiro e, particularmente, para a Maré. Pensamos também coisas que sabemos desses lugares que nos contam nossos pais e avós, que sabores diferentes têm, o que significa migrar e por que o fazemos. Contávamos de onde vinham essas raízes, rostos e rotas, compartilhávamos coisas que nos chamavam a atenção, dúvidas sobre as fotos que estavam sendo exibidas. O que significam as velas acesas? Quem são os povos indígenas?  Por que a polícia os prende? Por que essas pessoas estão protestando? De quê brincam essas crianças? O que fazem essas mulheres nesta foto? Em trabalham as pessoas quando migram? Como se organizam? Por que as pessoas migrantes desaparecem? Estas e outras perguntas nos fizemos e fomos compartilhando reflexões coletivas para ressignificar as histórias comuns de migração – que ainda nos dói e nos mas dá esperança dessas raízes, rostos e rotas. Um dia fizemos passarinhos de papel pensando na migração como o direito a voar, a mover-se de um lado a outro em liberdade. No outro dia, abrimos a caixa de Pandora para ler notícias sobre migração no México, no Brasil e na América Latina e pudemos juntos questionar por que os governos ditam políticas contra as pessoas migrante, o que acontece com o racismo e por que uns países decidem o que outros devem fazer. Também vestimos bonecas de papel para contar histórias de mulheres migrantes, que foi quando apareceram os nomes das avós e das mães. A experiência das visitas mediadas nos levou a compartilhar a reflexão final que mantemos como premissa ético política e, portanto, motor de luta em Voces Mesoamericanas. Nós, pessoas do mundo, temos direito a não migrar, ou seja, direito a poder ficar dignamente em nossas comunidades de origem sem ter que migrar porque as circunstâncias nos obrigam a ir. Entretanto, por outro lado, também temos direito a migrar, porque as sociedades do mundo tem construído migrações, então este direito implica a possibilidade de nos mover a outros espaços em completa garantia de liberdade e justiça.

Galpão Bela Maré, Rio de Janeiro
MuMi
MuMi
MuMi
O que significa para nós Bela Maré e o MuMi se encontrando?

Primeiro, agradecemos a possibilidade desse encontro, a confiança e a disposição por nos abrirem as portas do espaço e território, e  por nos deixar entrar para somarmos juntos tudo o que nos conecta nessa Nossa América Latina. Percebemos que nossa história comum tem impactos comuns até hoje, que a violência estrutural colonial, capitalista e patriarcal se assoma em múltiplas formas na vida de nossos povos. Percebemos que as formas de democracia neoliberal imposta em nossos países tem legitimado a permanência das estruturas de poder que perpetuam as desigualdades e a injustiça. Percebemos que as violências do estado, nas formas físicas e simbólicas, impactam cotidianamente nossos corpos, mentes e corações. Levamos anos em guerra e nessa guerra os mortos sempre incluem os povos negros e indígenas. Percebemos que temos migrado forçadamente por centenas de anos e que nos destinos vamos construindo a vida sempre em condições precarizadas. Percebemos que nossos valores e práticas coloniais se expressam nas formas em que o poder “nos observa” e nas formas que nós vemos “as outras e os outros”. Nos unem histórias de ditaduras, de desaparições, da Direita no poder, das leis e reformas neoliberais, do sistema carcerário inoperante, do extermínio racial e sua expressão em mortes cotidianas em nossos territórios. Percebemos as rupturas dos tecidos sociais que existem em nossas geográficas, as muitas formas em comum que nos reprimem o tempo todo, as formas em que os governos criminalizam os defensores dos direitos humanos e promotores comunitários. Percebemos as formas que nos paralisam e fazem desaparecer com a possibilidade de viver.

Diante de tudo isso,  nosso encontro na Maré também nos deu a possibilidade de inspirar juntas e juntos, de intercambiar ideias, de sorrir, de nos abraçar, de nos reconhecer, de valorizar nossas lutas, de sonhar as possibilidades futuras. Reafirmamos a ideia da arte como ferramenta política de transformação, parafraseando o poema de Celaya “A poesia é uma arma carregada de futuro”, a arte é uma arma carregada de futuro[2], e juntas o vivenciamos uma e outra vez. Percebemos que é importante seguir construindo espaços educativos alternativos, de reconhecimento, de compartilhamento sincero, de brincar, de criatividade. E lembramos Freire reafirmando "que ninguém liberta ninguém e ninguém se liberta sozinho, nos libertamos em comunhão". Percebemos que temos histórias comuns de movimentos sociais, rurais, urbanos, trabalhadores, estudantes que vêm dizendo há anos "Basta", e todos os passos dados por milhares de pessoas nas ruas para construir a ação diária de buscar e cuidar do que se ama na vida. Percebemos que, apesar das distâncias geográficas e do portunhol, pudemos sempre encontrar uma maneira de transmitir força e paixão. Percebemos nossa capacidade de nos comover, mover o corpo, a mente, o coração e o espírito com o que acontece na vida das pessoas. Pudemos sentir no território as forças individuais e coletivas que dignificam a história da humanidade.

Admiramos as resistências que da população negra no Brasil, com a potência identitária das favelas, com as mulheres que se abraçam, contam umas às outras suas dores e transformam isso em sororidade. Percebemos que os mesmos povos negros e indígenas que foram mortos por centenas de anos são os que continuam a nos ensinar as muitas formas de resistência e luta cheias de dignidade. Continuam a nos ensinar maneiras de criar comunidade, laços, armar cumplicidades sorridentes, de mostrar abraços sinceros e mãos solidárias.  Nos ensinamos todas essas formas de estar juntas e juntos e de nos darmos ao luxo irrenunciável – apesar de tudo – de fazê-lo através da forma luminosa e eterna de disfrutar a vida. Nos recordamos que também cantando, dançando e rindo se fazem atos revolucionário, assim como o território carioca e favelado nos reafirmou muitas vezes. Vimos nas casas que nos abriram as portas, nas ruas onde compartilhamos o futebol e a cerveja, no mural que celebramos juntos na parede do Bela Maré, na palavra doce de Dona Victoria, na memória do Quilombo, no funk e no samba que soava por todas as partes. Vimos na possibilidade sagrada de seguir celebrando a possibilidade de estar juntos resistindo, porque ao final e ao princípio, é na luta onde as pessoas se encontram. E é aí, no México ou no Brasil, na Maré ou em Chiapas, onde seguiremos nos encontrando.

Deyanira Clériga Morales   |   México

Colabora com a associação civil Vocês Mesoamericanas, acompanhando processos político-organizativos e educação popular com perspectiva intercultural e de gênero com pessoas indígenas migrantes da região de Altos de Chiapas para a construção do Direito ao Bem Viver e Bem Migrar.

deyaniraclemor@gmail.com
Pável Valenzuela Arámburo   |   México

Mestre em Antropologia Visual. Cineasta e professor de oficinas de antropologia visual e cinema documental. É responsável em México pelo projeto Global Grace Por el Buen vivir y el buen migrar: creating cultures of equality through the Migrant Museum (MuMi) in indigenous communities of Chiapas, México”.

atmosferaudiovisual@gmail.com
Aldo Jorge Ledón Pereyra   |   México

Membro da Voces Mesoamericanas, Acción con Pueblos Migrantes, A.C.  e da coordenação da Mesa Transfronteriza Migraciones y Género (MTMG). Desde 2009 é defensor ativo de populações migrantes no sul do México e na fronteira com a Guatemala; De sua experiencia, destaca: busca por pessoas desaparecidas, acompanhamento psicossocial, técnicas forenses para a busca e identificação, ativação e monitoramento de mecanismos governamentais  para a defesa legal contra violações de direitos humanos e trabalhistas.

ledon@vocesmesoamericanas.org

[1]No original: “...estos dos inventos acortan distancias, dan pie a la imaginación y al sueño” (Morin, 1979).

[2]Tradução nossa.

Referencia:

Morin, Edgar, El Cine o El Hombre Imaginario, Paidos, Barcelona, 1972.

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