v.02  n.02  2018
Democracia e Periferia
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Periferias Convida
Douglas Lopes
Redes da Maré – O WOW como possibilidade de reunir a força das mulheres na cena contemporânea

Eliana Sousa Silva

Fotos: Douglas Lopes, Gabi Carrera e Jessica Pires

O Festival Mulheres do Mundo ou Women of the World, WOW, é uma iniciativa criada pela diretora artística inglesa Jude Kely, a partir da sua inserção na direção do Centro Cultural Southbank Centre, em Londres, onde trabalhou por mais de uma década.  Desde a sua gênese no ano de 2010, o WOW, traz como perspectiva ser uma plataforma com dimensão global que se propõe a impulsionar questões que afetam a vida das mulheres mundo afora. O WOW já aconteceu em 20 países da Europa, Ásia e África. Na América Latina, foi no Brasil, no Rio de Janeiro, onde a sua primeira edição aconteceu.

Foto: Gabi Carrera

O Festival Mulheres do Mundo nasceu  com   objetivos   claros: (a) reconhecer as conquistas de meninas e mulheres a partir da expressão  de  suas vozes e visões ao  compartilharem  sonhos, medos e  lutas; (b) fomentar a criação de um espaço seguro,  aberto e diverso, onde o protagonismo feminino  é  a tônica predominante para a  construção de mudanças de atitudes que precisam acontecer no campo da equidade de gênero e (c) celebrar  a dimensão do que é ser mulher no contemporâneo  com ênfase em suas conquistas e estratégias de lutas.

Sendo o Festival Mulheres do Mundo um espaço que conecta agendas de meninas e mulheres, a partir da dimensão de cidade, em diálogo com as escalas de país e mundo, há todo um esforço por criar uma metodologia que possa representar o que há de especifico e comum nesse processo. É nessa compreensão que o WOW vai se constituindo e se fazendo, com base na sua experiência original, como um percurso que deve observar alguns pressupostos.

Um desses requisitos é que ao se chegar em um determinado país, o WOW deve ser pensado a partir da articulação de uma ou mais mulheres que já trabalham com projetos voltados pelas suas causas. No caso do Rio de Janeiro, a parceria para efetivação do WOW aconteceu a partir de um acordo entre o Southbank Centre, a Fundação WOW, recentemente formalizada, e a Redes da Maré, instituição da sociedade civil, que tem uma longa trajetória de atuação no maior conjunto de favelas da cidade, 16 ao todo, onde residem em torno de 140 mil pessoas: a Maré.

A Redes da Maré foi criada por moradoras e moradores de alguma das 16 favelas da Maré, numa perspectiva de construção de um projeto de médio e longo prazo que tenha como propósito melhorar a vida da população da região. Dessa maneira, o trabalho acontece de forma articulada, a partir de cinco eixos complementares, quais sejam: educação, arte e cultura, memorias e identidades, desenvolvimento territorial e segurança pública.

Foto: Jessica Pires

O Festival Mulheres do Mundo, WOW, se insere, portanto, no contexto do trabalho da Redes da Maré, a partir do eixo de desenvolvimento territorial, no diálogo com um de seus projetos denominado a Casa das Mulheres da Maré. Esse espaço tem como um de seus objetivos prioritários atuar na diminuição das desigualdades territoriais em relação a vida das mulheres residentes nas 16 favelas da Maré, que representam 52% das sua população.

Ao se estabelecer a parceria para efetivação do WOW/RJ, com uma instituição originária de favela, estava claro o compromisso de se pensar a curadoria do Festival, levando-se em consideração a demanda de se trabalhar o envolvimento de mulheres das periferias na construção desse projeto.

Em linhas gerais, a lógica de construção do Festival Mulheres do Mundo no Rio de Janeiro, considerou, como em outros países, aspectos que não podem faltar na organização de um WOW. Ou seja, dimensões como diálogos, produções artísticas e culturais, empreendedorismos e ativismos sociais de mulheres. A programação geral, portanto, se organizou a partir dessa lógica.

Além disso, o processo de construção da curadoria, deu-se em um processo metodológico que envolveu, no caso do WOW/RJ a realização de (i) cinco grupos de reflexão que reuniram meninas, adolescentes, jovens, mulheres adultas e maduras, de diferentes segmentos sociais e partes da cidade do Rio de Janeiro. Os encontros buscaram debater temáticas relevantes que foram essenciais para a montagem do conjunto de diálogos estabelecidos nos três dias do Festival. (ii) mapeamento de iniciativas criadas por mulheres. Foram identificadas coletivos, ONGs, movimentos sociais, poder público ou experiência individual voltada para atuação com meninas e mulheres. Formou-se uma base de dados com informações de uma rede importante que atua em torno de questões que envolvem a vida das mulheres, prioritariamente do Rio de Janeiro. (iii) Articulação de parcerias para estabelecimento de recursos materiais e humanos que garantiram a materialização da primeira edição do Festival no Brasil. A esse respeito, é importante destacar o apoio do Conselho Britânico no Brasil, que desde a definição da realização do WOW no Rio de Janeiro, empreendeu esforços para garantir recursos que viabilizaram a pré-produção do Festival assim como em parte das atividades planejadas para o encontro propriamente dito.

 

 

A curadoria, dessa maneira, levou em consideração a contribuição e a relevância de produção realizada por mulheres de diversos campos do conhecimento, sejam eles tradicionais ou científicos. Procurou-se, com isso, dar ênfase, não somente à uma leitura crítica da desigualdade entre os gêneros, mas também, reforçar o quanto as mulheres contribuem para a história da humanidade e para a construção de um mundo melhor para todas e todos.  Em princípio, foram seis as grandes áreas que nortearam a programação final do WOW/RJ:

(a)  Ciência | saberes | tecnologia | inovação | educação
(b) Questões étnico-raciais | racismos | xenofobias
(c) Poder | política | feminismos
(d) Representações | normatividades | gêneros | corporiedade
(e)  Justiça | liberdade | igualdade
(f) Trabalho | autonomia | bem-viver

O trabalho de preparação do WOW/RJ, que levou 18 meses até a sua realização, foi fundamental para articular, mobilizar e garantir a diversidade de diferentes vozes e perspectivas do que é ser mulher no contemporâneo. Chamou atenção o fato de no WOW/RJ ter havido uma presença significativa de mulheres de periferias, que, como as de outras origens, puderam estabelecer trocas, se estranhar e, também, se reconhecer nos aspectos que têm em comum.

O WOW é um Festival.  Não foi pensado para acontecer a partir de um formato de conferência ou simpósio. Tampouco, se traduz em um evento que reúne patrocinadores.  O WOW/RJ se viabilizou numa lógica que agregou parcerias de diferentes instituições que tem em comum o propósito de incidir positivamente numa agenda de igualdade entre homens e mulheres. Vivemos um momento o qual precisamos unir forças e reconhecer a potência e o papel estratégico das mulheres para mudar o mundo. Sabemos da gravidade e seriedade dos problemas vivenciados pelas mulheres no país e, por isso, o desejo maior foi o de construir um lugar acolhedor, de respeito, de compartilhamento e, também, de alegria e celebração.

Eliana Sousa Silva
Diretora da Redes da Maré
Curadora do WOW/RJ

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