v.1  n.3  2019
Experiências Alternativas
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Entrevistas

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SOFIA DJAMA E A RETOMADA DO CINEMA ARGELINO

Daniel Stefani e Gabrielly Pereira
ENTREVISTAM

Juliana Barbosa
ILUSTRA

Sofia, te agradecemos por estar conosco na UNIperiferias - Universidade Internacional das Periferias, aqui na Maré, Rio de Janeiro. Gostaríamos que você se apresentasse. Bem livre.

Sofia Djama: Sou Argelina, me chamo Sofia Djama e nasci em Orã, uma grande cidade da parte oeste da Argélia, na beira do mar. Cresci em Bugia, cidade do centro leste, balneária, também no centro-leste do país. Vivo em Argel, capital do país e também na beira do mar. Sou cineasta.Comecei com um curta metragem e em seguida fiz o longa “Les Bien heureux", The Blessed, em inglês, Suaada, em árabe. “Os Afortunados”, em português. É um filme sobre um casal Argelino quinquagenário que viveu a primeira revolta de 1988, que imaginei como militantes ativistas. O filme é ancorado na cidade de Argel, personagem central, numa história se passa em 2008. Nesses vinte anos, aconteceu uma guerra civil entre radicais islamistas. Atacaram a população e as instituições, pois consideravam que a interrupção do processo eleitoral das eleições de 1991 tinha roubado a vitória deles. Criaram um exército, atacaram a população, pois consideravam que todas as pessoas que não respondiam positivamente ao projeto da Sharia  e de sua imposição, não eram dignas para viver. Configurou-se, então, uma situação de guerra civil. Mas o filme não trata apenas disso, da origem da guerra, mas de seu impacto como uma situação pós-traumática. Quais resquícios ficaram para as pessoas? Como o sistema, o regime, impactaram na intimidade das pessoas? E isso foi incorporado pelo casal que vai festejar o vigésimo aniversário de casamento. Vamos vê-los circular em Argel. Em um movimento noturno, já que o essencial do filme se passa à noite. Vão ao encontro de amigos, tentam ir a restaurantes e serão a cada vez impedidos por alguma coerção. As discussões do casal ajudam a compreender, o que, de fato, os prejudicou. E, por outro lado, presenciamos o movimento da juventude, de um ponto de vista de outra geração, a de jovem adultos... Estão em oposição? Estão em ruptura? Para onde se encaminha em relação à geração precedente?  É um olhar sobre duas gerações, sobre uma cidade e sobre um país. É disso que trata "Os afortunados". É bem denso e mesmo intrigante, pois quando o descrevo assim, parece tratar de um verdadeiro drama e de um filme político, quando, na verdade, trata-se de uma comédia dramática e que tem, às vezes, momentos bem leves já que argelinos têm muito humor. A miséria, a guerra e a pobreza... Situações difíceis sempre geraram recuo, ironia e humor.

 

 

E pensando no cinema argelino, como você o enxerga a situação atual do cinema feito na Argélia, em relação ao contexto atual do país?

Não podemos falar de uma grande dinâmica desse cinema. Se fossemos falar do cinema Argelino atual, a nova geração, não falaríamos sobre mais do que cinco, seis cineastas conhecidos... conhecidos pois os festivais os reconheceram. Na verdade, a gente passa a conhecer o cinema de um país quando esse país participa de um grande festival. É assim que acontece. Eu fui selecionada para o Festival de Veneza, de onde saímos premiadas. Karim Moussaoui  foi selecionada para o Festival de Cannes. Narimane Mari, ao Festival de Locarno. E é apenas assim que passamos a identificar o cinema de um país, isto não quer dizer que são apenas essas as pessoas cineastas. Outras pessoas no país trabalham, fazem seus filmes e existem fora dos circuitos e e  não devem ser considerados desinteressantes. É só que tivemos, sobretudo, a sorte de ter produtoras estrangeiras. Meu filme é fruto de uma coprodução internacional, com um distribuidor, tem uma máquina que traz mais oportunidades. A gente consegue o dinheiro e os festivais cobram para inscrever um filme.  É uma tendência, os distribuidores e tudo. É o mercado internacional que faz com que vejamos mais um determinado cinema de um realizador do que de outros. Mas não estou dizendo que na Argélia cineastas são tantos assim. Temos que saber que, na verdade, lá não existe escola de cinema. E, da mesma forma, não podemos falar de uma escola de comédia, atores ou algo do tipo. Temos estabelecimentos que pretendem ser escolas, mas que não são, em relação à qualidade do programa e ao ensino oferecido. Houve uma energia cinematográfica, escolas, formações e  realizadores na Argélia dos anos 1970. Houve uma emergência de um cinema Argelino que fora essencialmente de cinema de propaganda e de realizadores que tinham formação. A geração dos anos 1970 tinha passado pela escola de Moscou, tinham feito IDEC [Instituto de altos estudos cinematográficos], atual FEMIS [Escola Nacional Superior dos ofícios da imagem e do som], na França. Tinham passado por escolas, tinham bolsa em Moscou, mas porquê?Por causa da campanha Argélia e o socialismo, e assim foi. Estávamos muito mais próximos da União Soviética. Cineastas se formavam pela escola de Moscou, puderam fazer escolas na Ucrânia e tudo e isso gerou um certo gênero de cinema. Mas já nossa geração, nós somos autodidatas, em nossa maioria.

O cinema argelino nasceu a partir da Guerra de Independência, e temosde saber que, antes, as imagens da Argélia eram feitas pela França. Era a colonização no cinema. Argelinos não tinham representações próprias, a não ser a feita pela França. Não eram nem mesmo chamados “argelinos", e sim "indígenas". Então, durante os anos finais da década de 1950, a primeira coisa feita pelo FLN, Fundo de Libertação Nacional, foi projetar uma imagem de engajamento Argelino na Guerra. Cineastas, a princípio estrangeiros, foram filmar na Argélia. Penso em René Vautier e nos cineastas tchecos que vieram. Na época em que era a Tchecolosváquia, foram muitos assim como foi com os búlgaros. Muitos  vieram da antiga União Soviética e Europa Oriental por conta da Independência Argelina. As primeiras imagens do cinema Argelino são verdadeiras imagens de guerra.E então, depois da guerra de Independência da Argélia, houve a criação, essa vontade de criar a cinemateca, a escola de cinema e de criar um processo de formação. Como cineastas se formavam em outros países, isso nos deu cineastas que mais tarde conheceríamos: Merzak Allouache, que é bastante importante, ou ainda Farouk Beloufa, Rachide Bouchareb, que pertencem à  geração de Lakhdar Hamina.

"O cinema argelino nasceu a partir da Guerra de Independência, e temosde saber que, antes, as imagens da Argélia eram feitas pela França. Era a colonização no cinema. Argelinos não tinham representações próprias, a não ser a feita pela França. Não eram nem mesmo chamados “argelinos", e sim "indígenas". "

Em seguida, tivemos a cinemateca de Argel, que foi muito importante, pois Argel é o território das grandes independências. Houve toda uma ideologia que impulsionou a cinemateca de Argel com a vinda de Godard, Klaus Kinski e Herzog. Todos os cineastas independentistas do Oeste da África também vieram. Chamávamos Argel de Meca dos revolucionários. E inclusive desde a América Latina, vimos a vinda de argentinos, chilenos, brasileiros. E o cinema Russo passou, evidentemente, pela cinemateca de Argel. Faziam filmes populares, sobre os comandos na revolução, mas também filmes de comédia. As pessoas de fato iam ao cinema. Eu e minha geração, que cresceu durante os anos 1980/90, não tivemos a sorte de frequentar salas de cinema, que fechavam em um processo gradual. Foram tomadas pela prefeitura, que fez delas anexos administrativos. Em seguida, veio a guerra civil.

As primeiras coisas sacrificadas em um contexto de guerra, onde quer que seja, são as mulheres e a cultura. E assim aconteceu na Argélia: as salas de cinema, os teatros, museus e tudo mais, funcionavam de forma bastante precária, praticamente em ponto morto. E o cinema é uma indústria bastante complexa. Eu cheguei a conhecer salas de cinema com verdadeiras condições para se ver um filme, pela primeira vez na minha vida, na França. Mas retomando: a guerra civil havia oficialmente acabado, nós nos encontrávamos em uma situação de secularização do país. As primeiras filmagens foram retomadas, tivemos filmes de Nadir Moknèche, de Merzack Allouche. É preciso lembrar que, durante os anos 1990, não existia mais cinema, filmes não podiam mais ser feitos, pois vivíamos uma situação de segurança extremamente precária. Durante a filmagem de Azzedine Meddour, no final dá década de 1990, metade de sua equipe foi explodida em um atentado. E ele teve que aguardar seis meses para retomar o filme, mas com que estado de espírito você retoma um filme em que metade da equipe de filmagem morre assassinada em um atentado a bomba? Foi extremamente difícil e, com isso, houve uma interrupção na indústria do cinema. Na época, eu escrevia roteiros para a rádio, que é uma excelente escola já que de fato escrevemos, mesmo se for publicidade. Eu fazia isso para justamente fazer a direção de voz, pois quando fazemos direção de voz, devemos criar um universo sonoro que faça com que você, ouvinte, imagine, o que é ótimo para poder trabalhar com atrizes e atores.  Fiz isso e um dia caí em um atelier de escrita, onde escrevi meus dois roteiros, duas adaptações.

Tinha escrito Mollement, un samedi matin, meu primeiro curta e Les 100 pas de Monsieur X. Mollementfoi uma grande filmagem. Les 100 pas foi um exercício de estilo.Seis meses depois da filmagem, em 2010, encontrei um produtor, na França. Em 2011, estávamos filmando. E então rodei meus dois primeiros curtas metragens em um período de uma semana. Enquanto preparava Mollement, em uma grande filmagem com uma equipe francesa, me sentia extremamente rica para produzir o filme, e pensava que assim seguiria pela vida de cineasta. Fiz o filme com 120 mil euros.Dez dias para rodar um curta, o que é muito tempo! Eu me encontrava eu uma situação econômica bastante confortável, minha equipe ia bem, eu tinha, sobretudo, material e tempo suficiente para a pós-produção, edição de imagem, edição de som. E esse curta foi selecionado ao Festival Clermont Ferrant, de onde voltei com dois prêmios.Primeiro filme, seleção bastante expressiva.  É como ir a Cannes com um curta e uma turnê internacional. Tinha toda a imprensa. Imagina, fui com um curta metragem e tinha France Culture, France Inter, que são rádios muito importantes na França.Tinha o Le Monde, tinha um painel na FNAC patrocinado pela Arte. Em seguida, estava em turnê internacional e fiquei impressionada, disse a mim mesma: "Sou reconhecida, existe reconhecimento". Então ali, decidi engrenar com meu outro projeto. Encontrei um produtor e fiz Les Bien Herueux, “Os afortunados", que é uma outra aventura, mas não com tanto dinheiro. Quando eu penso, estava mais rica para fazer meu curta do que para fazer o longa metragem.

"As primeiras coisas sacrificadas em um contexto de guerra, onde quer que seja, são as mulheres e a cultura. E assim aconteceu na Argélia: as salas de cinema, os teatros, museus e tudo mais, funcionavam de forma bastante precária, praticamente em ponto morto. E o cinema é uma indústria bastante complexa."

Você veio ao Brasil para o Mostra de Cinema Árabe Feminino no CCBB, Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro. Partindo desse recorte, como considera que as mulheres conseguem afirmar seu papel no cinema argelino e árabe, e até mesmo africano, apesar de todas as dificuldades?

Então, eu conheço muito pouco sobre a condição do cinema africano, é terrível. Sabe porquê? Por que quando falamos de festivais de cinema árabe, que também pressupõe africano, tem a ver com a Argélia, Marrocos, Tunísia, Mauritânia e Líbia, isso se tiverem filmes, mas não inclui a África subsaariana. O que quer dizer que inclui apenas países arabófonos.Africanos arabófonos, cinema africano contemporâneo que está de fora de festivais internacionais como Cannes, Veneza, e cinema mundial afora... Então tenho muito pouco acesso aos festivais de cinema africano, a não ser pelo FESTPACO, o Festival pan-africano de cinema e televisão de Uagadugu, Burkina Faso, e o Festival Internacional de Carthage, na Tunísia. É um festival que engloba todas as línguas do Magrebe, o árabe, e a África. Mas os festivais da África anglófona não me procuram, já que os países do Magrebe renunciaram à sua Africanidade. Preferem ir ao Festival do Cairo, Festival de Dubai e Festival de Abu-Dhabi. Nós renunciamos à nossa Africanidade. É terrível. Por exemplo, se você me pedir para dizer de cara um cineasta Africano, eu diria... o mauritano Med Hondo e, evidentemente, Abderrahamne Sissako. Tá vendo? Tenho uma cultura bem restrita do cinema Africano. Mas enfim...  já fui premiada em Ruanda, pela Academia Africana de Cinema, porque era muito importante estar em um festival que se destacasse dos festivais do mundo Árabe.

E como você vê esse movimento de mulheres fazendo cinema no mundo Árabe?

E Magrebino.

Isso, e Magrebino.

Como mulher, Magrebina, pois é assim que me identifico e também tendo a língua Árabe, pois meu filme é em árabe, em argelino, acho  que não podemos dizer que existe um grupo específico assim. Não há visibilidade suficiente sobre nosso cinema no mundo Árabe e Magrebino para se ter uma ideia precisa sobre o assunto. Não é como na França, que tem 250 filmes por ano. Lá podemos ter espaço e dizer: neste ano, quantas mulheres foram financiandas para fazer um filme? Quanto tiveram de financiamento? Conseguimos chegar a fazer um cálculo, uma estatística.

No mundo árabe, o número de cineastas é tão baixo, a indústria cinematrográfica está tão sofrida que o simples fato de ser cineasta é uma luta por si só, então não perguntamos assim sobre o cinema das mulheres, o cinema dos homens. Tinha explicado que, se fizéssemos um cálculo, neste ano, na Argélia, entre os cineastas que ouvimos falar nos festivais internacionais, temos KarimMoussaoui e Narimane Mari, Yasmine Choukih e eu. São mais mulheres do que homem. E é parecido na Tunísia, ouvimos falar mais de cineastas mulheres do que de homens. Em anos de produção, em 2017, tivemos mais mulheres. A pergunta que deveríamos fazer para o futuro é: "Será que nossa geração terá rompido a questão de gênero naturalmente ou não? "Será parecido em dez anos? Na nouvelle vague do cinema magrebino e do mundo árabe, estamos acertando nisso. Aliás, mesmo em relação às temáticas, não são apenas as mulheres que assumem a história da luta feminista. No mundo árabe, são mulheres e homens que a assumem e isso para mim é uma bela evolução.E no cinema, somos afetadas pela mesma problemática do financiamento do cinema no mundo árabe, estamos na mesma situação catastrófica. Então sofremos da mesma maneira.

"No mundo árabe, o número de cineastas é tão baixo, a indústria cinematrográfica está tão sofrida que o simples fato de ser cineasta é uma luta por si só, então não perguntamos assim sobre o cinema das mulheres, o cinema dos homens."

E como você vê a luta feminista na Argélia e no mundo árabe?

Quando era adolescente, tinha uma visão do feminismo bastante influenciada pela França. Tinha um olhar bastante radical sobre a questão do Hijab. Tinha uma visão totalmente francesa. Precisei de tempo também para integrar a especificidade de meu próprio país, para desconstruí-lo. E o que vejo é que assim por todo lugar, é próprio da luta feminista no mundo.O primeiro desafio é econômico, muitas mulheres trabalham sem serem pagas. No mundo rural, não participam da vida.Uma mulher que trabalha e que não tem controle do que gera como economia, é uma mulher que não consegue sua emancipação. Na verdade, se a mulher não tem controle sob seu dinheiro, ela não pode se impor em sua casa, e dar de cara com o patriarcado. Todas as mulheres que conseguiram criar pequenos negócios, a rentabilizar o que fazem, tiveram, como primeiro reflexo, o investimento na educação dos filhos. Na Argélia, muitas mulheres interrompiam os estudos de segundo grau, nos anos 1980, e então se casavam. Hoje, a situação econômica da Argélia está assim tão complicada faz que homens precisem das mulheres trabalhando, pois os aluguéis são caros, porque a vida é cara, tem uma inflação que faz com que o homem, ao casar, queira que as mulheres trabalhem para assim contar com dois salários. Antes, na Universidade, mulheres estavam sempre mais presentes nos cursos de ciências humanas, psicologia, eram professoras.Hoje tem muito mais mulheres no curso de medicina, em cursos de ciência e tecnologia, matemática e engenharias. É importante, é uma evolução. E cada país com a sua.

Mas foi a guerra civil nos anos 1980 que enfraqueceu a luta feminista na Argélia. E em todos os países que conheceram uma situação de guerra civil, como dizia, as primeiras a serem sacrificadas são a cultura e as mulheres e, então, a família.As lutas feministas argelinas que ocorreram nos anos 1960 estavam na vanguarda, mas em 1984, aprovou-se o código da família, que reduzia a mulher a um status inferior. Imediatamente, mulheres e homens se mobilizaram com bastante força.Em 1990, nós nos encontrávamos em uma situação de guerra com radicais islamistas, então houve muito assassinato de intelectuais, de militantes. Eram as primeiras vítimas. Em seguida, atacavam a toda a população.Isso nos enfraqueceu. E hoje que reencontramos o contexto de paz, é preciso reconstruir tudo. Mas no entre tempo, as coisas evoluíram. A nova geração não é como a nossa, a questão da sexualidade não é mais colocada da mesma maneira. Muitas coisas evoluíram, mas outras estagnaram ou mesmo regressaram.

Você acha que é possível falar de experiências alternativas nas periferias argelinas?

Acho que realmente precisamos refletir sobre lugares alternativos, pensamento alternativo, pois é algo ainda pouco presente. Acho que deveríamos aproveitar experiências de alguns países, principalmente nossos países vizinhos, como Tunísia, por exemplo, que criou uma contracultura alternativa. Na África subsaariana, também na Burkina, por exemplo, ao que se refere à cultura. Nós somos tradicionalistas demais, na verdade. Penso que vai chegar com a nova geração.

Como você tem vivenciado o movimento de mobilização popular que tem se projetado com toda essa expressividade na Argélia, exigindo uma mudança política expressiva, começando pela renuncia de um presidente que se perpetua no país nesses últimos vinte anos?

A única constatação que posso fazer é que retomamos a posse do direito à mobilização no espaço público. Isso, por si só, é uma enorme conquista. Há 18 anos perdemos a posse de nosso espaço público como espaço de reivindicação - pelo direito à manifestação. Ainda, provamos que somos capazes de fazer na serenidade. As manifestações foram pacíficas. Na Argélia, por conta da proibição de manifestação e da guerra civil, nós perdemos o hábito de nos mobilizarmos. As pessoas tinham medo de se manifestar. Antes, tinha atentado durante as manifestações. A segunda coisa que me deixa contente é que por muito tempo argelinas e argelinos se queixavam: "Não tem alternativa, não tem voz... Que voz? Quem? Qual entidade poderia se apresentar com discurso de liderança?". Na verdade, graças a tudo que aconteceu, nós desmistificamos o fato de que nada disso existia. Pois foram muitas as pessoas que se expressaram. Nós escutamos a diversas vozes se expressarem. Eu conheci uma super expressiva, de Zoubida Assoul, magistrada, uma voz de líder. É uma mulher que tem o potencial de ser elegível como presidenciável.

Já quando eu era mais jovem, tinha uma associação que se chamava RAJE (Reunião Argelina para a Juventude). Iam até as escolas e liceus para nos ensinarem e encorajarem a sermos militantes, ativistas. A primeira manifestação que participei, com 14 anos, foi o RAJE que nos fez ir para a rua.Estudantes de segundo grau eram bastante ativos graças a associações como RAJE. Durante a guerra civil, todas as pessoas militantes, intelectuais, organizaram formas para federalizar as associações e trabalhar uns com os outros, dando a todos um sentido e um objetivo.Durante essa dezena de anos, tudo isso se enfraqueceu por conta da guerra civil: a sociedade civil, a reflexão, a vida alternativa, como recuperar os espaços, ocupá-los de outra forma.Veja então porque estamos com esse atraso sobre o pensamento periférico: como ser contracultura? Como fabricar uma economia periférica? Como não estar na oposição a algo institucional, mas fazer algo diferente?

"A única constatação que posso fazer é que retomamos a posse do direito à mobilização no espaço público. Isso, por si só, é uma enorme conquista. Há 18 anos perdemos a posse de nosso espaço público como espaço de reinvindicação - pelo direito à manifestação."

Para você, mulher argelina e magrebina, como é possível falar de identidade na Argélia e no Magrebe em relação à identidade árabe?

Bom, sou agnóstica, mas digo que sou de cultura arabo-muçulmano, pois foi dela que me banhei. Eu não recuso minha cultura e minha herança arabo-muçulmana.Até minha linguagem: eu falo argelino, que é uma mistura de árabe, francês, turco, espanhol e berber. Tudo isso é meu patrimônio. Eu falo francês, é a língua com a qual mais me comunico. Eu me sinto mediterrânea, francófona, argelinófona e, se pudéssemos inventar, magrehbinófona, uma vez que eu entendo o tunisiano e o marroquino, nós nos entendemos, mas eu não posso entender um libanês ou um palestino, então o Oriente está longe para mim. Até o Egito, a Mauritânia, a Líbia, são culturas distantes para mim.

Para mim, a "arabicidade", a Al'umma al’arabiyya[1], é algo que não tem nada a ver com a minha identidade.É uma ideologia que tinha sentido e um objetivo nos anos 1960 mas que hoje, na verdade, é uma mentira. É triste, é uma ideologia corrompida. E é uma pena porque poderia ter sido um belo projeto. Foi o que disse uma vez: "se realmente houvesse uma vontade de Al'umma al’arabiyya, um verdadeiro desafio cultural e identitário, teria ido bem se não negasse nossas próprias identidades". Se tivessem sido inteligentes, teriam festejados as diferenças linguísticas da Al'umma al’arabiyya, a berberidade, a africanidade, nossa mediterraniedade, aceitado tudo isso como elementos pertencentes da Al'umma al’arabiyya. Quando perguntamos a um estudante argelino de segundo grau: o que é o mundo árabe?" A resposta será: " É a religião, o Islã, é a língua árabe". Mas no mundo árabe tem cristãos, judeus, cooptas, muçulmanos sunitas, xiitas, maliquitas.  E para o estudante, a Al'umma al’arabiyya é apenas uma única identidade, a identidade árabe, uma única religião, o islã, e apenas sunita. É negar muitos dos habitantes dos territórios que estão compreendidos no mundo árabe.

"Sou agnóstica, mas digo que sou de cultura arabo-muçulmano, pois foi dela que me banhei. Eu não recuso minha cultura e minha herança arabo-muçulmana. Até minha linguagem: eu falo argelino, que é uma mistura de árabe, francês, turco, espanhol e berber. Tudo isso é meu patrimônio."

Como você pensa a potência das periferias?

Nós a encontramos na favela, no espaço da criação. Nós recuperamos nossa legitimidade de pessoas criadoras de arte, de pensamento, de economia, habitação e mobilidade.

Entrevista realizada em Março/2019 na UNIperiferias – Rio de Janeiro
PERIFERIAS agradece a Analu Bambirra e Layla Braz, organizadoras da Mostra de Cinema Árabe Feminino CCBB - Rio de Janeiro (março/2019)
Colaboração: Déborah Spatz
Original em Francês

Daniel Stefani   |   Brasil

Daniel Stefani é editor executivo e tradutor na Revista Periferias

daniel@imja.org.br
Gabrielly Pereira   |   Brasil

Gabrielly Pereira é jornalista e fotógrafa na Revista Periferias

gabrielly@imja.org.br

[1] “A mãe árabe”, projeto nacionalista árabe que reúne valores, tradições história e língua árabe.

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