v.1  n.3  2019
Experiências Alternativas
v.1  n.3  2019
Experiências Alternativas
Narrativas

COMPARTILHE

PDF

TRÊS VOZES DA POESIA LATINO-AMERICANA CONTEMPORÂNEA

Lucía González e Luciana di Leone
Núcleo Poesía (Laboratório da Palavra – PACC - UFRJ)
Colaboradores: Estela Rosa, Taís Bravo, Claudia Sampaio, Juliana Assis, Núcleo Tradução (Laboratório da Palavra - PACC - UFRJ)

Fazer uma antologia é sempre difícil. Um recorte pequeno nunca dá conta de experiências poéticas heterogêneas. Desde o pequeno espaço desta antologia –selecionada, apresentada, montada e traduzida colaborativamente pelo Laboratório da Palavra (PACC -UFRJ) – procuramos manter e aprofundar essa diversidade de dicções sem deixar de atender à necessidade de representar uma diversidade geográfica. Em uma América Latina que acostuma separar o Brasil do Caribe, o Caribe do Cone Sul, o Cone Sul da América Latina do golfo de México, o desafio era colocar em contato e em tensão esses espaços, permitindo, ao mesmo tempo, mostrar diversas vozes poéticas e, ainda mais, vozes tradicionalmente abafadas pela desigualdade. Por isso, apresentamos aqui três jovens poetas, mulheres, latino-americanas – Valeska Torres, Minerva Reynosa e Rita Indiana – que a partir de cada um dos seus poemas, e de modos muito diferentes, nos situam em espaços diferenciados, tanto geográficos quanto discursivos: a periferia do Rio de Janeiro, a fronteira entre México e Estados Unidos e as ruas de República Dominicana e os modos de habitar essa ilha.

Valeska é do Rio de Janeiro e a periferia que se desenha nos seus poemas está feita de cheiros, de animais e de contas que não fecham. A periferia é geográfica: o morro, Caxias-Méier, mas também é o que se marca no corpo e fica fora. A periferia escava o Rio de Janeiro no lugar de expandi-la e deixa ao descoberto suas cavidades mais profundas, que se abrem a partir do golpe que aparece nos poemas de Valeska como uma forma de dar origem ao mundo e ao Rio de Janeiro - um golpe que se repete indefinidamente e que perpetua tanto os buracos como os corpos que os habitam.

Minerva Reynosa é mexicana, mais especificamente de Monterrey, estado que fica no norte de México e limita com Estados Unidos. Nos seus poemas surge esse espaço que é periferia e fronteira ao mesmo tempo e brinca –inclusive com a forma- com a possibilidade de fuga. O primer poema de Minerva é um bloque, fechado pelos quatro lados. A periferia da que fala Minerva se encontra no centro desse bloque e parece ao mesmo tempo um centro que atrai e é reativo. Chegamos na periferia a traves da casa, da cama e dos problemas de a dois. Embora esse centro, essa periferia de nortes e subúrbios, se nega como ponto de fuga ao dirigir de novo o caminho até esse corpo feminino fechado também: não há filhos, não há menstruação. Porém, o Monterrey de Minerva estende-se a través da forma do poema até tocar um outro espaço, o da fronteira, onde o que se nomeia parece ser justamente essa instancia do liminar: o passaporte, os cérberos, outra língua. O espaço parece se abrir e já não é a cama, nem o segundo andar, nem o interior do corpo feminino, mas também não existe fuga possível. O poema inscreve-se nesse limbo, muito ao sul dos Estados Unido ao norte de México, no que a língua –esse inglês com sotaque- e o sujeito se desfiguram.

Nos poemas de Rita a cidade está ávida de loucos e um corpo tem nome só quando é interpelado. É um corpo que faz: limpa, cuida dos quintais, arruma o que é de outros. Mas além, a voz do corpo repete e desvia a possibilidade da identidade. Com Rita aparece também a ilha: o coco, os furacões, as competições de beleza, os clichês do caribe, a ilha paradisíaca e Trujillo. Aparece uma voz que é corpo e é cidade que se monta e desmonta, sendo uma coisa muito própria e ao mesmo tempo de ninguém. A história da República Dominicana e o cotidiano de seus corpos surgem nos poemas de Rita nomeados sucessivamente, criando um testemunho impossível que ninguém se aproxima para escutar.  A periferia que se desenha no percurso que atravessa os poemas dessas três poetas não é, ou não: não é simplesmente um lugar distante  ou no entorno de um centro.É uma voz periférica que transita pela língua de um jeito alternativo, forçando-a a dizer o que normalmente não se diz. A experiência alternativa da periferia, em uma cidade em guerra com os pobres, em uma ilha, em uma fronteira, é também uma experiência do corpo e da sua voz. Uma voz que se levanta, na sua diferença, e se emancipa.

VALESKA TORRES (BRASIL)

Em uma galáxia tão tão distante …

há anos-luz
criou-se um buraco negro
tão preto e profundo
que é confundido
com a desova
lá do morro
que cavam
mais uma cova mais uma cova mais uma cova mais uma cova mais uma  cova
de um vagabundo.

Mijada

a rolha explode contra a minha testa
de calcinha bege clara mijo escorre entre as minhas pernas
o líquido amarelo metálico: uma mulher suja.
nas tentativas em segredo, enfio os meus dedosentre
a goela quando eu,
enfiaria entre os lábios da minha buceta se me fosse permitido gozar,
se me fosse permitido …………………………..

uma penca de banana com granola,
arrebenta
o zíper da minha calça quando devoro uma penca de banana com granola,
comendo banana (baixinho para que ninguém ouça minha língua empapada de saliva)

tenho vergonha de ser uma mulher suja e que gosta de comer bananas pelos cantos mastigando baixinho fazendo papa debaixo da língua
não quero que ninguém me veja
que ninguém me ouça
comendo na poltrona puída do caxias x méier
nem que me perguntem por que mijo nas calças quando uma rolha explode contra a minha testa
não quero que vejam meus pêlos debaixo do sovaco que raspo
todososdiastodososdias
raspo os pelos dos meus sovacos
sem nenhum rito
sem nenhuma falha
limpo os pelos feios e sujos da mulher suja que sou.

Rebanho

Seis horas da tarde,
uma porca indo pro abate, uma multidão de porcos.
Uniforme: cinza e azul, bandeira do Brasil, unidade pública de
ensino. Uma porca bem vestida.

Sistema público de ensino e um bando de porcos
pretos tentando aprender
que Jesus tem olhos azuis
é branquelo,
um bronze tem que passar pasta d’água.

Sistema público de ensino de que adianta saber
contar, se no fim do mês não sobra nada
para a porca que trabalha para pagar boletos? Sustentar um lar?

Fim de um dia de trabalho, início de uma noite de pasto
a barriga no fogão
uma espingarda com cano ainda
quente meto a bala na cara do canalha
faço jus ao meu salário.

MINERVA REYNOSA (MÉXICO)

outra dinâmica de espaço
a fronteira
com outro cara com outro
hábito
nos cancerberos
a nave tateando pela pradaria
morro
garçons de luz intergalácticos
sol
incandescente wet back my passaporte
passo ao largo do monte
longa a distancia com outro nome
outro espaço outro sujeito:
who stay in the Grass
desfigurado

(Trad. Luciana di Leone)

 

 

no segundo andar na cama o problema com meu ex-namorado deveria ser sagrado eu penso em você com risadas estrambóticas no final com o presente de um tempo juntos eu penso choro sobre o chão na cozinha aquecimento nos planetas jamaica espanha ampliação geográfica para pensar montanha eu penso prece de deus como estaríamos agora gostaríamos do sofáos lábios o passaporte então os amantes outros escondidos dos amantes adito-adita em direção ao futuro sequestro nem sopor nem grito o pavimento tessituras trindades trotes nortes periferias subúrbios eu choro quelóide eu penso deitada arroxeado braço brunido ouro banho relevo sarna encefalograma tratamento volitivo eu anônima de boca anima ao lado do meu ex-namorado sem poder eu desfrutar a mina absolvida do membro vermelho adulterada elucubrando o grunhido suco colorido corado colorido o céu mansidão a mina não a nuvem arroxeada nas partes bipartida esfoliando a matriz sem colo a matriz sem filhos a matriz brunida em golpes travada alterada eu atirada no chão transcorazonada a pele a menina a arroxeada como estaríamos agora e penso em você sem grito nem cão nem sol sem menstruar já

(Trad. Luciana di Leone)

RITA INDIANA (REPÚBLICA DOMINICANA)

Em nome

Todas as manhãs
em frente à igreja de Los Prados
sentado num caixote tem
um louco que se chama se chama
faz tempo vem se fazendo de jardineiro
os padres da paróquia o têm iluminado e
o pagam com um prato de comida de cantina
para cuidar dos pátios enormes que cercam o
templo
junto aos cães sarnentos do beco
tem uma caminha feita pelo mesmo se chama
de jornais sujos de merda
e uma almofada de papelão
planta sementes se chama
rega com água se chama
passa o ancinho se chama
limpa a grama se chama
As pessoas quando passam de manhã em frente à igreja
com o carro marca toyota porque são mais firmes
rápidos até os colégios e caixas dos bancos
com os olhos avermelhados
se chama
diz adeus sem abrir a boca
e as pessoas gritam
como se chama
e ele responde
se chama se chama
e as pessoas
tão ávidas de loucos
se sentem contentes
se chama
se chama como qualquer dia do ano
dos que a igreja católica dispõe, inclusive com
vários santos num mesmo dia
são barnabé por exemplo
santa rita de cássia 22 de maio
quando ninguém felicita ninguém nos dias de seu santo
a mim por exemplo
se chama
voltando ao tema
se chama
como qualquer outro dia
dos que a igreja católica dispôs
e muito bem
para queimar calvinistas, alquimistas, doutores
ninfomaníacas casadas com o diabo, virgens que suavam
verde e cuspiam fogo
luteranos, escravos, criadores de seitas maravilhosas
em que deus era uma fruta ou um cristal
por exemplo
se chama
tendo isso claro
sobre os dias e a igreja
lava o tronco e os ramos de seu corpo
e ainda com um pedaço de classificados agarrado à
sujeira na perna
ou a um pedaço de chiclete azul na calça
vai receber seu comando
se chama tire o lixo
se chama busque poeira onde não há
se chama gosta desse limpo tão branco
anestesiador
os padres também
se chama
eu
que às vezes passo por ali
chutando com o sapato uma caixinha
durante quatro quadras
olho se chama
e se chama me devolve
o olhar
e eu que não sei como se chama se chama
ou seja como de verdade se chama
pergunto a ele
como se chama
se chama se chama

(trad. Núcleo Tradução – PACC-UFRJ)

Testemunho

Eu sou
a única que vira
o embrião do apocalipse
que na cabeça da ponte
como um grafite
que representa me ungira
e desbaratara
afundara a espada fluorescente
batizado com aço inoperante
sou a tua mamãezinha aeromoça miss da
paixão de um cristo rei
a noção de lazer mais profundo
a cegonha magra masca chiclete
a estrategistas de pé chato
aquela que sou e serei for ever ande ver
a mortalmente infectada de concursos
televisados , carnavais do terceiro mundo
buscando a verdade
nos esgotos da nobreza da capital
nas patinhas abastadas das baratas dos
salões de beleza
a noite me encontrando
solenemente desfeita
as juntas quebradas de bater portas
e as bordas dos guindastes
que levantam falos da cidade até o céu
a profecia anunciara que eu
viria combater a carcoma
de gordos semanais e lapides como sois
que derrubam as cabeças das
pessoas
como frutas
golpeadas por um martelo
os cachorros da rua
esses que são o meu domínio
sujos como as marquises de naco
sabiam da minha vinda há séculos
eu sou a mãe
vagabundos no inconsciente trujilhista meus rebentos
sou aquela que enfia o dedo até a ferida
sou a ferida aberta desde os setentas na cara
pálida de Cidade Trujillo
sou a fera de pelúcia
sou o saco plástico e o verme que procura
sou o solitário flamboyant que acolhe
os necessitados
machões que dão a bunda
por um refresco de guaraná
essa é a verdade
sou a vela que abre caminho
a cadela vilã levantada em quatro patas de cimento
a mulher que não serei
sou uma coisa muito minha
será possível que ninguém entenda esta solidão?
Venham
me enterrem completa na estrada
onde mil fungos esbranquiçados agasalharam minhas nádegas
manimortas pela magia
esta magia mãe das crianças que como eu
deambulam a noite dominicana rarefeitos pela droga
que o coco secreta quando tem lua cheia
venham
comam do meu corpo
antes do tempo passar com seu gillette que é um
túmulo
e me calculem os pirralhos que viriam depois de mim
olhando com olhinhos uma foto desbotada
do meu presente glória em pampers
Venham
tragam perfume
febres esquimós tenho alojadas na carne
do meu espelho
A cidade montará nas minhas costas
E seremos uma
Coisa só minha
Golden bárbara bendita
Golden doce baby bitch
Golden carro da sorte Knorr
Golden destino do inoperante
Golden e bendito dom Manuel Del Cabral, louco andando
nu perseguindo um verso
choremos como eu choraria neste caso
E depois uma oração
E depois uma visão
San Michael Jordan voando pelos ares Del Ensanche
Ozama
Vem me ver corre vem
As motinhos sabotando todos os dados da sorte
A velocidade da malícia
De um habitante do manguezal
Sou a estrela dos cachorros desvelados
O Cibao engrandecido como um armazém de pedras para
comer
O sul um solo sotaque canino
O leste um deserto de pessoas mortas e cozidas numa
panela com forma de diamante
Tudo sob o uivo
do homem cão
o mutante que tem nos bolsos
escondidas
pulgas do mal
a morte de dentes
roedora de ossos
a morte raivosa  that we will always will be
o homem cão calcula seu próprio peso olhando o
obelisco
os montes de papelão nas suas costas
adiantando o apocalipse do quintal
que também é da mina invenção
porque tudo o que existe nessa metrópole é meu
eu nomeei tudo
fui tudo
marionete de radio televisão dominicana
dominicana ausente no show de vickiana
perdedora de concursos de beleza
idiota número oito
cobiçada do domingo balaguerista
puta, velha
cadela
pobre golden
baba
eu
venham até mim os poderes
de um xangó que agora é um Pokémon
a mim sem nomes
sem aniversários
sem frangos geneticamente manipulados
sem cozinha onde preparar meu café
sem nome
sem golden
eu
aquela que espera seus irmãos embaixo da colcha tricolor
que não é a pátria
é outra coisa alcoolizada
pelos dejetos e o Discovery channel
eu
a fervorosa admiradora de Toño
a estrela dos cães que esvoaçam como
canibais borboletas de sucata
aquela que brinca com os matacueros, sem vergonha,
filhadaputa
que não são eu
aquela que vê a cidade esquartejada continua
precisando
dos seus antigos nomes
será que ninguém viu ainda?
Por quê ninguém levanta o telefone?
O secretel é a marca da besta
Venham por favor
Me libertem dessa ilha cara cortada
Que não lembra dos seus abortos
Volto a ser eu novamente
A infância de um gatinho cibernético
A sujeira miúda do catolicismo light
Apostando minha sorte
No coração do céu caribenho
o furacão final
que entrará sem misericórdia por todas as portas
O furacão
Que é uma aranha metálica
Com oito pás douradas
Pego na mão
E minha mão é a ilha
E como sempre
é tão bonita.

(trad. Luciana di Leone)

Valeska Torres   |   Brasil

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1996 e é poeta. Publicou nas coletâneas de poemas, contos e crônicas “Do rio ao mar” [Turista Aprendiz, 2015], na antologia “Seis temas à procura de um poema” [Flup, 2017], na antologia “Alma – Projeto Identidade” [Editora Conexão 7, 2018]. Em 2019, lançou o livro O coice da égua.

Instagram: valeskatorres_poeta
Rita Indiana   |   Rpública Dominicana

Nasceu em 1977 em Santo Domingo, Republica Dominicana. É escritora, cantora e compositora e entre suas obras podem-se mencionar Rumiantes(1998), Cuentos y poemas(2017) y Hecho en Saturno(2018).

 

Instagram: ritaindianaisback
Minerva Reynosa   |   México

Nasceu em 1979 em Monterrey, México. É poeta, gestora cultural, ensaísta e experimentadora digital. É autora dos seguintes livros, entre outros:  Una infancia necia (2003), Atardecer en los subúrbios(2011) e Mammut(2017).

mine.bonita@gmail.com
Luciana Di Leone e Lucía González   |   Brasil

Formam parte da equipe de trabalho do Laboratório da Palavra que funciona dentro do PACC (UFRJ). O Laboratório desenvolve oficinas, cursos e residências de poesia, edição, ensino, musica, etc. Ditas atividades de extensão são realizadas, muitas vezes, em pareceria com outras organizações não universitárias como coletivos, ongs ou escolas públicas.

laboratoriodapalavra.pacc@gmail.com
VOLTAR AO TOPO
EDIÇÕES ANTERIORES
Democracia e Periferia v.2  n.2  2018
O Paradigma da Potência v.1  n.1  2018
ASSINE NOSSA NEWSLETTER