soberania alimentar

periferias 5 | saúde pública, ambiental e democrática

ilustração: Juliana Barbosa

Autodeterminação do povo negro resgatada de nossas raízes

Entrevista com Eric Jackson, do Black Yield Institute, Baltimore

por Edmund Ruge

| EUA |

traduzido por Jackson Schmiedek

Pode surpreender a algumas de nossas leitoras e leitores  que questões de acesso urbano alimentar nos Estados Unidos são muito anteriores ao início da Covid-19. Bairros inteiros, muitas vezes chamados de “desertos alimentares”, ficam desprovidos de supermercados  e hortifrútis embora não falhem em prover opções de fast-food por quilômetros a fio. Nessas áreas, a falta de acesso a alimentos frescos e saudáveis ​​teve um efeito previsível nos indicadores de saúde, impactando desproporcionalmente as comunidades negras.

Embora a pesquisa em torno do fenômeno do “deserto alimentar” tenha trazido utilidade para a questão, o próprio termo aborda apenas problemas em nível superficial. Eric Jackson, fundador do Black Yield Institute de Baltimore, Maryland, prefere o termo "apartheid alimentar”, um processo histórico intencional que separou as comunidades negras de seus laços com a terra, cultura e preparação de alimentos.

As questões mais profundas por trás da insegurança alimentar exigem, portanto, soluções holísticas. Para Jackson, significa autodeterminação. Nascido e criado no bairro Cherry Hill, de Baltimore (uma área a que se refere por "poder negro personificado, sem mesmo dizer"), o jovem de 34 anos se dedicou a essa missão, desenvolvendo a apropriação para a população negra nas instituições, preparando as comunidades para liderar seus próprios futuros e reivindicando práticas diaspóricas pan-africanas.

Jackson teve tempo para falar com  Revista Periferias no início de abril. A entrevista final, editada para fins de publicação, ilustra um amplo entendimento da saúde pública e uma clara visão para o futuro da soberania alimentar da população negra.

 


Edmund Ruge: Podemos entrar no tópico da desigualdade estrutural, um pouco da história de Baltimore, talvez a questão de apropriação da terra, a situação atual e trajetórias das comunidades de Baltimore, quais políticas e atores estão se mobilizando? Se você pudesse pintar um quadro para alguém que nunca ouviu falar de Baltimore, como seria? 

Eric Jackson: Baltimore é uma cidade portuária em Maryland. Eu contextualizo dessa maneira como uma cidade portuária, porque fala da natureza do povo negro e de seu papel nisso. O interessante é que Baltimore como cidade, e Maryland como estado, não aparecem nas conversas sobre o Sul. Mas Maryland é, tecnicamente, o Sul. E há um ponto particular na Linha Mason-Dixon, que fica em Maryland, ao norte de Baltimore, que é o ponto de divisão entre o Norte e o Sul, e se insere no contexto mais amplo da história dos Estados Unidos da América. 

E nessa divisão do trabalho livre forçado dos povos africanos nesta parte do mundo, estamos bem no meio disso. E Baltimore, tecnicamente, não era agrária o suficiente no sentido de que escravizados africanos, e mesmo africanos livres, contribuíssem assim para essa economia. As pessoas, sobretudo, trabalhavam em padarias, em estaleiros e instalações de canhões.

A presença africana em Baltimore, historicamente é, assim como em muitos lugares nos Estados Unidos, começo da servidão. Então, quando falamos sobre racismo estrutural, não podemos ignorar a história e a trajetória das pessoas dessa linhagem. 

Enquanto falamos sobre o povo negro e a comida em Baltimore,  atualmente uma Cidade Negra, é esse o contexto. Baltimore, por ser uma cidade portuária e por estar aberta e disponível para diferentes pessoas, mas ainda dentro do contexto racista dos Estados Unidos da América, foi historicamente uma cidade de brancos. Uma cidade de gente branca, de colarinho azul principalmente, construída nas fábricas do período industrial. É uma das capitais de aço dos Estados Unidos, juntamente com Pittsburgh, Detroit e outras.

Mas você tem, com o tempo, essa continuação da divisão do trabalho e da racialização do trabalho que construiu a Baltimore que conhecemos hoje, ligada e conectada à política de habitação, uso da terra e outros aspectos de nossas vidas sociais e políticas. E assim você tem uma cidade que ainda é amplamente segregada, por ter sido projetada dessa maneira: segregada pelo trabalho, segregada pela classe e fortemente segregada pela raça. Políticas como redlining ajudaram a criar e consolidar o local onde as pessoas morariam, quais códigos postais seriam destinados às pessoas pardas ou negras."Baltimore é uma cidade ainda amplamente segregada, por ter sido projetada dessa maneira: segregada pelo trabalho, segregada pela classe e fortemente segregada pela raça"

Edmund Ruge: Como você explicaria a prática de redlining para algúem que nunca ouviu falar disso antes? 

Eric Jackson: Redlining era, literalmente, uma prática política não oficial. E quando digo política, pode não ter sido usada explicitamente por funcionários públicos, mas eles certamente a conheciam. Era uma ferramenta política que literalmente usava um marcador vermelho para criar linhas que designavam e identificavam áreas onde os negros podiam ou não viver, essencialmente. Foi amplamente utilizada pelo setor imobiliário para determinar quais áreas seriam para negros ou não. Não apenas pelo setor imobiliário mas, também, pelo setor bancário, a fim de demarcar onde as pessoas viviam. E, curiosamente, algumas áreas semelhantes que foram demarcadas entre as décadas de 1930 e 1960 na cidade de Baltimore e em outros locais são os mesmos lugares onde as pessoas estão hoje vivenciando o apartheid alimentar.

E não apenas o apartheid alimentar, pois são as áreas onde há mais gente negra, são as áreas mais empobrecidas, são as áreas em que as ruas são mais esburacadas, um verdadeiro sacrilégio estarem cheias de buracos. 

O redlining foi, essencialmente uma ferramenta utilizada, histórica e contemporaneamente, para antecipar a expectativa de vida e disparidades na saúde ao longo do tempo.

"Curiosamente, algumas áreas semelhantes que foram demarcadas entre as décadas de 1930 e 1960 na cidade de Baltimore e em outros locais são os mesmos lugares onde as pessoas estão hoje vivenciando o apartheid alimentar"

Edmund Ruge: Para esclarecer, estamos falando de uma prática intencional de políticos brancos, por meio do setor imobiliário, bancário.

Eric Jackson: Com certeza. Pela classe bancária, pela classe comercial. Foi muito intencional e teve muito a ver com  o que não se fala com frequência, de que se tratava ser de algo para manter a pureza do branco. Basicamente, o pensamento era: "se os deixarmos morar conosco, nos tornaremos impuros". Portanto, se alguém se mudasse para um desses bairros, uma das práticas dentro do redlining é que, se uma pessoa negra realmente tem um bom crédito e de alguma forma encontrou um banco que estava disposto a emprestar dinheiro, ou por esse pessoa ser médica, advogada ou pessoa negra de classe alta, era quase como aquele ditado: "lá se vai o bairro". E as pessoas realmente se mudariam de lá.

E o interessante é que houve alguns organizadores que, intencionalmente, fizeram esse tipo de coisa para “escurecer” as comunidades que eram brancas, por assim dizer. E essa era uma prática que, embora o redlining tivesse começado décadas antes, era uma prática realizada na luta pelos direitos civis dos anos 1960. Muitos advogados negros se infiltravam intencionalmente, eu diria, em bairros urbanos puramente brancos.

Ilustração: Juliana Barbosa

Edmund Ruge: Vamos entrar na questão da apropriação da terra, agricultura e soberania alimentar, e a história por trás disso, em termos de confisco de terras de povos negros ao longo dos anos de 1900. Isso muda depois? Ou como isso se interage com o contexto urbano? Ou, então, se uma família negra tem sua terra roubada, ela migra para um centro urbano ou como se dá a interação por lá?

Eric Jackson: Justamente. Tem algumas coisas acontecendo contra a população negra que era,  em grande parte, agrária e que densamente habitava as cidades e vilas do Sul. Com certeza, conhecendo a história da deslocação dos negros por toda parte, houve movimento da população negra por todo os Estados Unidos . Mas, quando falamos de agricultura, há esse fenômeno social chamado A Grande Migração, que, basicamente, explica a deslocação de famílias negras das cidades rurais, como Mobile, Alabama e Raleigh, Carolina do Norte e outros lugares, para o Norte e Oeste, para a Califórnia, Maryland, Michigan.

Uma razão para isso foi a mudança da economia nacional de agrário para industrial. E isso foi forçado também, certo? Portanto, como uma observação, precisamos deixar claro que esse processo não foi nada mais nada menos do que pessoas linchando e realizando atos de violência física.

Essa é uma parte. Mas há também o fator de violência política. Empregos eram limitados, assim como hoje lidamos com a população migrante. Colocam as pessoas umas contra as outras e buscando o trabalho mais barato, pois essa é apenas a natureza do capitalismo e a natureza do trabalho barato e forçado,  que ainda existe. E então você coloca o povo negro contra o povo branco. Os brancos falam, “Não, não vamos tolerar isso. Vamos linchar alguém”. E os negros respondem, “Não, não estamos querendo isso. Nós vamos embora." E, especialmente nos casos em que as pessoas não possuíam suas terras, elas tinham que encontrar oportunidades onde pudessem prosperar.

Tem tudo isso, mas também há violência política intencional, por assim dizer. Violência política que se estabeleceu utilizando do domínio eminente para roubar terras; utilizando política tributária, e política de usofruto da terra. Portanto, todas essas coisas que aconteceram no Sul acabam acontecendo no Norte e também nas cidades do interior. É aí que acontece a conexão.

E qual é o resultado de tudo isso? Gerações de pessoas desconectadas desse tipo de vida agrária e longe da terra, e quero enfatizar que isso não deve ser visto apenas como separação física."Qual é o resultado de tudo isso? Gerações de pessoas desconectadas desse tipo de vida agrária e longe da terra, e quero enfatizar que iss não deve ser visto apenas como separação física" É verdade, priva as pessoas da capacidade de cultivar sua própria comida, sim, mas, também, tem um aspecto espiritual quando você fala sobre pessoas que vêm do campo e que trabalham no campo. Você não pode realizar essas práticas se não estiver no campo. Também, de maneira geracional, porque as histórias, as habilidades e as heranças das famílias são repassadas. Se as famílias estão desconectadas porque algumas ficaram e não conseguiram se deslocar, então  essa interconectividade se perde. As famílias perdem um pouco de sua cultura. Perdem um pouco do know-how, perdem um pouco das histórias de família. E acho que essa é a parte invisível sobre a qual não falamos frequentemente, e é por isso que queremos levantar  narrativas assim.

Falamos sobre pessoas que não têm habilidades e pessoas que não têm boa alimentação, mas acho que a parte importante também envolve cultura.

Todos os povos são culturais. Todo grupo humano, grupo social, tem uma cultura. Ou você ensina e as pessoas mais jovens, a próxima geração, herdam essa cultura, ou será um outro alguém que vai dar. E, tipicamente, a maneira como o racismo funciona é que ele é transmitido. É transmitido ou é buscado porque, se você assimilar, fica mais fácil. Fica mais fácil navegar nesses sistemas que não são  feitos para você caso você se aproxime do que é branco. Quanto mais se aproxime do branco, seja por credenciais, atributos físicos ou pela maneira como falamos, todos esses tipos de coisas.

E acho que essa é a única lente que realmente quero focar, porque o apartheid alimentar não se trata apenas de não ter boa comida, mas da desconexão da comida ancestral e das terras ancestrais

"O apartheid alimentar não se trata apenas de não ter boa comida, mas da desconexão da comida ancestral e das terras ancestrais"Edmund Ruge: Você pode explicar o que é um deserto alimentar ou um apartheid alimentar? E talvez explicar a pressão para descrever a questão como um apartheid e não como um deserto?

Eric Jackson: As palavras são importantes, e é importante reconhecer que termos como deserto alimentar nos foram dados. Por estudiosos bem-intencionados. Desertos alimentares, pântanos alimentares, etc. Tudo bem, não estou me desfazendo deles e, de fato, acho que há uma utilidade para que eles façam conexões. Mas acho que também precisamos ampliar os horizontes.

Apartheid alimentar fala realmente da dinâmica do poder e do reconhecimento de que se trata de uma desconexão intencional e estrutural do poder que daria às comunidades o direito de terras aráveis ​​e outros recursos alimentares. E isso se baseia em raça e classe, mas, principalmente, raça. Resultado, você tem uma falta de mercearias, uma inundação de morbidade e mortalidade nessas comunidades, menor expectativa de vida e esses tipos de coisas. Mas esses são resultados; não são o problema. O problema é a falta de distribuição de poder e a intencionalidade histórica. Esse é o problema. O resultado ou o efeito colateral, eu diria, são as coisas que se destacam com "deserto alimentar" e outras linguagens progressivas, otimistas.

Mas, usamos o apartheid alimentar porque se refere a uma causa principal."Apartheid alimentar fala realmente da dinâmica do poder e do reconhecimento de que se trata de uma desconexão intencional e estrutural do poder que daria às comunidades o direito de terras aráveis ​​e outros recursos alimentares"

Edmund Ruge: Apenas a título de ilustração, para alguém que nunca esteve em Baltimore e você tivesse que o levar a um bairro que alguém descreveria como um deserto alimentar, como seria o aspecto desse bairro? Que efeito isso tem sobre a nutrição ou os padrões alimentares?

Eric Jackson: Em uma área que pode ser descrita como um deserto alimentar, ou apartheid alimentar,, como poderíamos dizer, a primeira coisa que você verá são buracos. Era disso que falava quando disse ruas "esburacadas". É isso que você vai ver. Você provavelmente também vai se questionar e coçar a cabeça: "Onde fica o supermercado? Como as pessoas compram mantimentos?" Literalmente, mantimentos frescos. "Onde estão as hortas?" E o bairro que eu estou pensando para te responder é Cherry Hill, um dos bairros ou comunidades mais ao sul de Baltimore, a cidade dos bairros. Você não vai encontrar mercearia lá. E nunca houve uma em 15 anos.

E esta é uma comunidade com cerca 10 a 16 quilômetros de extensão. E as pessoas da comunidade, de qualquer parte dela, precisam viajar três quilômetros para comprar mantimentos. E com uma baixa propriedade de veículo, eles precisam passar por muitos obstáculos apenas para obter sua comida. Em grande parte, as pessoas são relegadas a obter comida preparada de restaurantes ou de lojas de conveniência. Esse é um alimento que não é apenas denso em calorias e rico em sódio mas, também, que será vendido por alguém que não mora na sua comunidade. Quando você se envolve no ato de comprar o que em Baltimore chamamos de chicken box, ou asas de frango e batatas fritas, você não está apenas comprando alimentos que serão problemáticos para a nossa saúde, mas também está dando nosso dinheiro para um negócio que vai tirá-lo da comunidade.

E nessas áreas, há também muitas igrejas que têm restaurantes populares e despensas, onde as pessoas, se estiverem passando por dificuldades e não puderem chegar ao supermercado a três quilômetros de distância, podem realmente ser alimentadas. Isso é apenas a ponta do iceberg. E é por isso que, com nossa linguagem e nossa concepção sobre apartheid alimentar, podemos dizer: "Bem, as pessoas podem pelo menos conseguir comida". E, de certa forma, sim, mas a verdade é que ainda se mostra um controle corporativo do sistema alimentar, porque a maioria dos alimentos que chegam às igrejas ou as doações para o bem-estar social são provenientes de empresas.

O sistema alimentar não é de propriedade das pessoas do local nem controlado por elas. Mas também, algo que você não verá a menos que esteja envolvido em uma comunidade como essa, em áreas que experimentam o apartheid alimentar, você também vê pessoas tentando descobrir o que diabos fazer para comer e reverter tudo isso, como é o caso em Cherry Hill."É um alimento que não é apenas denso em calorias e rico em sódio mas, também, que será vendido por alguém que não mora na sua comunidade. Quando você se envolve no ato de comprar o que em Baltimore chamamos de chicken box, ou asas de frango e batatas fritas, você não está apenas comprando alimentos que serão problemáticos para a nossa saúde, mas também está dando nosso dinheiro para um negócio que vai tirá-lo da comunidade"

Quero dizer com isso  que você encontra aquilo que as pessoas têm chamado de indústrias caseiras: pequenos empreendimentos que saem das casas das pessoas ou de onde as pessoas utilizam recursos como caminhões de pão ou ônibus escolares velhos, adaptados para venda de mercadorias, que chamamos de “candy buses”, tipo de ônibus itinerantes que vendem alimentos orgânicos, como tinha dito . Nem sempre vendem alimentos saudáveis, mas lá estão. Você também verá outros esforços, como o que estamos fazendo, e de outras pessoas que realmente cultivam alimentos em terrenos desocupadas.

Como eu disse, um dos impactos do apartheid alimentar é a desconexão da terra ancestral e das práticas ancestrais. Em uma comunidade como Cherry Hill, há jovens que literalmente não sabem cozinhar. Eles têm seus próprios filhos, próprias casas, mas nunca aprenderam a cozinhar. Ou há também a questão psicológica, em que, quando pensamos em fome, que é uma resposta fisiológica, pensamos em fome e depois pensamos em comercialismo. Pensamos em como comprar de outra pessoa, em vez de ter as habilidades necessárias para produzir para nós mesmos.

Há também uma desconexão de uma geração para a outra em torno de certas histórias sobre comida, ou de certas receitas de família, porque alguém faleceu aos 40 anos e não conseguiu passar a receita à próxima geração.

A última coisa que tenho que falar é a relevância cultural. Mesmo em áreas onde as pessoas têm supermercados, não existe comida culturalmente apropriada. A comida que as pessoas considerariam comida de gente negra é, às vezes, mesmo nos melhores casos, relegada a um corredor no supermercado intitulado comida "internacional"."Mesmo em áreas onde as pessoas têm supermercados, não existe comida culturalmente apropriada. A comida que as pessoas considerariam comida de gente negra é, às vezes, mesmo nos melhores casos, relegada a um corredor no supermercado intitulado comida 'internacional'"

E, assim, quando se fala de herança racial, você não pode compreendê-la, a menos que você a cultive ou tenha suas próprias instituições. E quando não fazemos isso, não temos seu controle.

Então, sim, existe os aspectos mais visíveis: você não verá um supermercado, verá buracos e lixo no chão, verá restaurantes pra pegar e levar a comida. Mas, algumas das outras coisas sobre as quais falamos, por exemplo, é que o apartheid alimentar nos afeta psicologicamente. Então, nós nos questionamos, "Bem, se as pessoas estão lidando com isso, por que não estão fazendo algo a respeito?" Porque fomos ensinados de fato que está tudo bem. Fomos programados para aceitar que outras pessoas controlem nossas vidas, o que comemos; controlem aquilo ao qual estamos expostos.  E mesmo em comunidades pobres que experimentam o apartheid alimentar, ainda que as pessoas decidissem, se levantassem e dissessem: “Olha, seremos uma comunidade saudável. Declaramos que vamos fazer isso ", o capitalismo vai dar um jeito de manter o livre mercado.

Edmund Ruge: Falando em capitalismo, como você responde a alguém que diz: "No sistema em que vivemos, não existe supermercados porque os supermercados precisam ter lucro e sabem que em um bairro de baixa renda não vão conseguir ganhar tanto dinheiro. Portanto, esse problema é puramente econômico ". Como você lida com comentários como estes?

Eric Jackson: O que eu diria é que você está absolutamente certo. Se trata puramente de economia. No entanto, é uma questão de vontade, certo? E para mim, para supermercados que não estejam nas comunidades por essas mesmas razões, isso faz sentido. Mas isso também ocorre em torno de linhas raciais, especialmente se uma comunidade passou pelo redlining e historicamente tenha sido essencialmente classificada para ser uma comunidade pobre. Por exemplo, do ponto de vista da arquitetura urbana em Cherry Hill, cerca de 45% do parque habitacional é composto de conjuntos habitacionais em terras pertencentes ao governo federal, além de ter sido amplamente povoado há décadas pela população negra empobrecida, uma vez que a comunidade existe desde a década de 1940.

Então é esse o problema. E quando as pessoas argumentam que nenhum supermercado pode funcionar em comunidades como essa, eu digo, certeza, você está certo. E aqui está o problema com políticos e órgãos públicos. Muitas vezes as pessoas são treinadas em instituições de ensino superior para pensar em terceirização, em vez de preparar as pessoas. No contexto contemporâneo, as comunidades urbanas encontraram uma maneira de construir supermercados por meio de modelos cooperativos. Mas não existe programas de empréstimos, programas com juros baixos ou programas de treinamento para preparar as pessoas para cooperatizar com nossos recursos e ter nossas próprias instituições, como em outros países, onde as pessoas literalmente usam a economia cooperativa para sobreviver.

Mas com o capitalismo e o individualismo, as pessoas não pensam nisso. Elas se perguntam, "Quem podemos trazer?", em vez de dizer: "Como podemos equipar as pessoas para estarem prontas?" Isso fala do que acredito ser a crença tácita de que as pessoas não conseguem resolver seus próprios problemas. E é por isso que estamos tentando essa inversão por meio da prática da economia cooperativa. Estamos estabelecendo um supermercado na comunidade e também cultivamos alimentos. Mas, o ponto, é que temos de ser capazes de controlar nossas próprias instituições."As pessoas s se perguntam, 'Quem podemos trazer?', em vez de dizer: 'Como podemos equipar as pessoas para estarem prontas?' Isso fala do que acredito ser a crença tácita de que as pessoas não conseguem resolver seus próprios problemas. E é por isso que estamos tentando essa inversão por meio da prática da economia cooperativa"

Eu também diria que é por causa do modelo de empreendimentos, o modelo de empreendimentos extrativistas, que não funciona. Não é que os supermercados não funcionem, porque a verdade, em uma comunidade como Cherry Hill, as pessoas ainda vão às lojas. Portanto, não é que as pessoas não possam sustentar um, mas temos que ter perguntas como: ​​‘Bem, e quanto ao tamanho? E o que está disponível? E o preço?’ Porque ainda se trata de negócios, certo? Ainda operamos dentro do contexto.

E não estou tentando ser purista e dizer que, mesmo com a nossa cooperativa, não precisamos operar com lucro, porque sabemos que temos pagar as pessoas, pagar o aluguel e todas essas coisas. Mas o fato é que a verdadeira questão de por que não existe supermercados não é econômica, é de imaginação e de poder. Se você deseja que certas pessoas sejam capacitadas, elas, portanto, precisam tomar decisões com base em um sistema, um sistema centrado nas pessoas, construído por pessoas do local, as mesmas pessoas que criam os candy buses ou vendem coisas produzidas em suas casas. Essas são as mesmas pessoas que podem descobrir como fazer pra ter um supermercado.

Mas, sem poder e recursos, você não pode fazer nada. Esse é o nosso trabalho, organizar, motivar e inspirar nosso pessoal para lembrar que a economia cooperativa é nossa amiga. A autodeterminação é nossa amiga, e é assim que vamos ficar longe desse tipo de coisa.

Edmund Ruge: Esse conceito também tem grande parte nesta revista. Um dos princípios fundadores da Periferias era demonstrar e oferecer provas de que soluções já existem nas comunidades e que é uma questão de lembrar os pontos fortes históricos, ou dar valor às soluções e inovações locais que as pessoas já desenvolveram. As soluções para muitos desses problemas modernos, em vez de vir do governo ou de uma grande ONG ou algo assim, já estão realmente presentes nas próprias comunidades.

Eric Jackson: E nós temos que ampliá-las. Mas também afirmamos que, para que isso aconteça de maneira geral, é necessário aumentar a escala. E é verdade que a escala pode acontecer por meio do governo, tudo bem. Mas acredito que a mudança de sistemas deve acontecer por meio do autocontrole ou autodeterminação.

Então, começamos com a autogovernança. Nós resolvemos o que podemos. Nós mensuramos isso. Mostramos o que realmente funciona e o que não funciona. Nós controlamos nossos próprios dados. Controlamos nossos próprios insumos e todas essas coisas, mesmo que recebamos dinheiro de apoiadores externos. E então você diz: “Olha, eu quero fazer  o case”. “É assim que se faz, porque tentamos isso nos últimos cinco ou dez anos. E aqui está o nosso próximo passo.” Certo? E há precedentes para isso. Nos Estados Unidos, a maioria das crianças dos sistemas público de ensino não precisa pagar pelo almoço se atingir um determinado limite.

Em Baltimore, particularmente, não importa qual seja sua renda, você pode participar da FARMS, refeições gratuitas e a preço reduzido para as escolas. E isso vem de uma tradição, do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Então, você está falando de café da manhã, café da manhã e almoço gratuitos para crianças em idade escolar. Agora, eles não receberão todo o crédito, mas o governo federal assumiu isso como um programa, como um programa federal, depois de ver sua eficácia em cidades como Oakland, Chicago e Baltimore. Mas isso é algo que surgiu de um pequeno grupo comunitário que tinha afiliados em todo o país: seu programa de sobrevivência é a razão pela qual muitos americanos almoçam hoje a um custo zero.

Não havia precedentes para isso. Eles não receberão crédito por isso, mas é isso que quero dizer quando falo sobre mudança de sistemas por meio da autogovernança. Agora, este é um dos casos pelos quais o Partido dos Panteras Negras foi demonizado e, em seguida, surgiu a idéia de cooperativas. Mas, se podemos aprender com essa experiência, o que acredito que podemos fazer é, novamente, aprender o máximo possível, dimensionar da melhor maneira possível, colher nossos dados e compartilhar isso tudo com as pessoas e depois crescer a partir daí. É assim que a política se parece, na minha opinião, política em ação."Em Baltimore, particularmente, não importa qual seja sua renda, você pode participar da FARMS, refeições gratuitas e a preço reduzido para as escolas. E isso vem de uma tradição, do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Então, você está falando de café da manhã, café da manhã e almoço gratuitos para crianças em idade escolar. Agora, eles não receberão todo o crédito, mas o governo federal assumiu isso como um programa, como um programa federal, depois de ver sua eficácia em cidades como Oakland, Chicago e Baltimore. Mas isso é algo que surgiu de um pequeno grupo comunitário que tinha afiliados em todo o país: seu programa de sobrevivência é a razão pela qual muitos americanos almoçam hoje a um custo zero"

Ilustração: Juliana Barbosa

Edmund Ruge: Levantando a questão dos dados, algo que você ouve muito no Rio é a ideia de ser o sujeito de pesquisa e não o objeto de pesquisa. Existe muitos acadêmicos lá, bem intencionados, que entram nas favelas, estudam as favelas e estudam os moradores das favelas. Mas o contra-movimento é: "Bem, não. Vamos produzir matéria das favelas e vamos produzir nossa própria pesquisa". Ou "Vamos pesquisar os pesquisadores". Levanta-se a questão de "Por que eles estão nos pesquisando?" e depois se diz: "Bem, vamos pesquisá-los".

Eric Jackson: Sim, com certeza. 

Edmund Ruge: Portanto, produzir conhecimento da própria comunidade e criar seus próprios dados. Como isso se encaixa na batalha pela política? Ou isso tem mais a ver com educação?

Eric Jackson:  Eu acho que são as duas coisas, na verdade. Eu acho que é política e educação. Quando falo sobre educação, penso primeiro em etnoeducação: as maneiras pelas quais as pessoas aprendem com nossos próprios modos e culturas, e coisas que nos permitirão continuar como somos. E, então, deixar a educação pública realmente ajudar às pessoas a navegar nas instruções e ajudá-las a viver juntas. Mas acho que a coleta de dados e a posse de nossas próprias histórias, nossas próprias informações e a criação de conhecimento devem fazer parte disso. 

E isso é para que possamos mudar a maneira como as pessoas falam sobre essas questões e obter apoio de "pessoas de fora", por assim dizer, seja da comunidade filantrópica, agências governamentais, corporações e quem mais nos ajudar, ou apenas pessoas independentes, pessoas bem-intencionadas e ricas que querem ajudar o que estamos fazendo no nível local. Precisamos ser capazes de, acredito, contar nossas próprias histórias.

Eu argumentaria que a pesquisa não é uma ferramenta exclusivamente acadêmica. Não é a ferramenta das instituições brancas ou das instituições ocidentais, mesmo que a própria academia seja uma instituição ocidental. Mas tudo isso quer dizer que precisamos ter nossos próprios dados e poder contar nossas histórias, para que possamos moldar a aparência das coisas e depois mudar as políticas, eu diria, no campo e na comunidade, mas, também, no nível político. E, independentemente de essa política estar nos níveis municipal ou local, estadual e federal, seja lá o que decidirmos ou aonde for, acho que o primeiro nível com o qual devemos lidar é o da política comunitária.

Por meio dos dados e das informações que produzimos e do conhecimento que criamos, acho que ganhamos a capacidade de ajudar as pessoas a se lembrarem, como na educação popular. Mas também podemos  envolver as pessoas no trabalho e, em seguida, pressionar as autoridades eleitas a efetivamente movimentar dinheiro e programas para apoiar as soluções da comunidade."Tudo isso quer dizer que precisamos ter nossos próprios dados e poder contar nossas histórias, para que possamos moldar a aparência das coisas e depois mudar as políticas, eu diria, no campo e na comunidade, mas, também, no nível político. E, independentemente de essa política estar nos níveis municipal ou local, estadual e federal, seja lá o que decidirmos ou aonde for, acho que o primeiro nível com o qual devemos lidar é o da política comunitária"

Edmund Ruge: Em uma cidade como Baltimore, quanto de seus esforços você dedica à organização da comunidade e quanto você dedica à eleição de membros da comunidade para cargos públicos? Você segue os canais de política e do governo ou empodera as pessoas primeiro?

Eric Jackson: Eu acho que as duas coisas são igualmente importantes. Elas precisam ser, porque você precisa preparar as pessoas para lidar com as estruturas de governança no nível público ou no nível da comunidade, ou mesmo no nível privado com empresas e pequenos negócios. E sinto que, independentemente de onde estamos, há uma redefinição que deve acontecer, na minha opinião, em torno de organização, em torno de organização comunitária. E precisamos ser capazes de organizar as pessoas dentro das instituições, incluindo o mundo dos negócios.

Temos que organizar os dois lados, por dentro e por fora. E quando digo por dentro, quero dizer políticos também. Independentemente de colocá-los lá ou não, acho que temos que fazer o trabalho da organização política, não apenas fazer lobby legislativo, mas colocar as pessoas nessas posições. Isso tem que acontecer, porque estamos falando de um problema multifacetado. Precisamos ter várias facetas para criar soluções.

Acho que você precisa preparar as pessoas e desenvolver liderança no local. E eles podem acabar sendo os políticos. Mas você também precisa ter um quadro de pessoas que já tenham desenvolvido análise, análise coletiva, consciência coletiva, treinado juntas, trabalhado juntas e, portanto, responsabilizar as pessoas, sejam elas nosso povo ou não. Mas acho é absolutamente necessário fazer as duas coisas ao mesmo tempo. 

Gosto de enfatizar a necessidade de preparar as pessoas. O que eu não quero é reinventar no século 21 a aparência da organização do século 20 que estava usando as pessoas como ferramentas. Muitas abordagens organizacionais falavam sobre como reunir 20.000 pessoas. E parece ótimo, mas as pessoas voltam para casa e não fazem política. Temos que fazer politização enquanto fazemos o outro trabalho, mas é por isso que várias pessoas precisam fazer isso."O que eu não quero é reinventar no século 21 a aparência da organização do século 20 que estava usando as pessoas como ferramentas. Muitas abordagens organizacionais falavam sobre como reunir 20.000 pessoas. E parece ótimo, mas as pessoas voltam para casa e não fazem política. Temos que fazer politização enquanto fazemos o outro trabalho"

Edmund Ruge: Vamos voltar ao objetivo geral do Black Yield Institute. O que significa realmente a soberania alimentar para negros e qual é o objetivo final de tudo isso?

Eric Jackson: A soberania alimentar e territorial para a população negra, em poucas palavras, é a idéia de que os negros controlam a terra e os recursos, e que somos guardiões de nossas comunidades e em nossas comunidades. Isso significa controlar nossos próprios recursos, mas também controlar e construir nossas próprias instituições, tendo alguns trabalhando com outros para manter o que fazemos. Terra, comida e saúde: tudo está interligado.

Em se tratando do objetivo final, não tenho resposta, mas acho que, no final das contas, o que deve ser feito é preparar pessoas negras, comunidades de gente negra, instituições de negros e outras pessoas de cor, outras instituições de gente branca e de cor, que estão em instituições de brancos, para pensar em como fortalecer a capacidade e a tendência do povo negro, principalmente em Baltimore e nos Estados Unidos em geral. Trata-se de preparar pardos e negros para poderem arcar com o trabalho de fornecer comida para nós mesmos e controlar o que entra na nossa comunidade. É dessa maneira, preparar as pessoas para fazer isso.

E isso vai se materializar de maneiras diferentes. Talvez essas áreas se pareçam com uma fazenda; talvez isso pode se parecer com a criação de pesquisa e conhecimento sobre a qual você e eu conversamos. Talvez tenha uma conexão com as igrejas para que se possa usar suas terras, para agricultores sem terra.

Existe uma organização, a Rede de Segurança Alimentar da Igreja Negra, que está fazendo exatamente isso. Pode-se ter uma garantia de que os agricultores negros permaneçam em suas terras e que advogados realmente possam garantir que suas terras não sejam tiradas deles. Existe diferentes facetas nisso, mas, em último lugar, trata-se de controle. Soberania é isso, controle. Como podemos ter maior controle sobre nosso destino? Essa é a questão.

"Talvez essas áreas se pareçam com uma fazenda; talvez isso pode se parecer com a criação de pesquisa e conhecimento sobre a qual você e eu conversamos. Talvez tenha uma conexão com as igrejas para que se possa usar suas terras, para agricultores sem terra"

E, novamente, a resposta para essa pergunta ainda é uma pergunta. Até onde podemos chegar? E então, para a nossa próxima geração, aonde queremos chegar a partir de lá? Pegamos essa língua emprestada. Não é a nossa língua, não é a língua do Black Yield Institute, não é a língua dos negros.

Mas a terra e a soberania alimentar para a população negra, do jeito que eu vejo, é o ramo da mesma árvore da soberania alimentar, a qual foi destacada por muitas pessoas, mas particularmente pensando em Cesar Chavez, na Califórnia, e em todos os camponeses, lavradores e trabalhadores agrícolas do mundo todo, os quais foram oprimidos por corporações, seja em uma cidade interior ou num contexto urbano ou rural em todo o mundo. Mas o que estamos falando é de sermos capazes de ter mais controle sobre nossos alimentos, recursos e  nossas vidas.

Edmund Ruge: Nessa interação entre segurança alimentar e soberania alimentar e territorial para a população negra, se você previsse, Deus queira que não, outra pandemia semelhante, daqui a 15 ou 20 anos, se você realmente pudesse estabelecer em Baltimore, uma rede alimentar muito mais sólida da qual as pessoas realmente possam ter propriedade, isso poderia ser uma espécie de defesa contra o que estamos vendo agora?

Eric Jackson: Ah, com certeza. E é isso que venho dizendo, apenas defendendo a autodeterminação. Se não houver outro momento, o que as pessoas podem fazer? Que tipo de recursos existem? O que podemos realmente fazer para cuidar de nós mesmos?

Eu tenho conversado com minha equipe sobre isso e pretendo conversar com essa rede de ação que estamos desenvolvendo, ou coalizão, por falta de um termo melhor. Venho me esforçando há muito tempo, fora da organização, para unir nossos esforços e realmente consolidar nosso plano. Todos nós nesta área precisamos garantir que realmente tenhamos um sólido plano de soberania. Eu tenho falado sobre isso nos últimos seis anos.

E então, para nosso time, o que estamos pensando em fazer é um plano alimentar emergencial. Nós já estamos seguindo nessa direção. Mas o que é preservar e conservar? Como que é esse planejamento de preparação para emergências? E como fazemos isso do ponto de vista civil africano? Como mantemos um plano que pode funcionar mesmo em nossa ausência e pode se ajustar a qualquer momento político e econômico em que nos encontramos?

Para mim, sou planejador, é assim que penso. E eu também penso longitudinalmente e intergeracionalmente. Eu vou ficar aqui para sempre. E uma das coisas que o racismo institucional e a supremacia branca fazem é afetar a imaginação de todas as pessoas. Portanto, uma das melhores ferramentas que temos para enfrentar o sistema é a nossa bendita imaginação.

"Uma das coisas que o racismo institucional e a supremacia branca fazem é afetar a imaginação de todas as pessoas. Portanto, uma das melhores ferramentas que temos para enfrentar o sistema é a nossa bendita imaginação"

Então, é tipo, por que não imaginar um mundo onde não vemos isso? E, aí, trabalhar constantemente para que isso aconteça.

Parece simples, mas é assim que eu quero que meu povo esteja em geral, mas principalmente a equipe. E, portanto, em nosso desenvolvimento de liderança, educação política, estou tentando levar as pessoas a esse nível. Como podemos imaginar o que não existe? De fato, somos a materialização da imaginação de nosso povo. Então, se nosso povo pode fazer isso, nós também podemos. Nós apenas temos que ter um senso de responsabilidade nesse sentido, para enxergarmos a nós mesmos, não nossos corpos físicos, mas a nossos descendentes, sejam biológicos, políticos ou não, em uma posição que vimos na íntegra.

E é assim que quero viver. Alguém rezou para que eu existisse, rezou para que este momento existisse por intermédio da força e das fortes histórias que aprendemos. Você deve saber que existe um princípio na África Ocidental, da língua Twi, chamado "Sankofa". E o sankofa é encarnado por este pássaro que está olhando com sua cabeça virada para trás pegando um ovo de suas costas

Então, esse princípio se baseia no ato de voltar e buscar. E esse "voltar e buscar" tendo um significado em um contexto histórico, em que se pergunta: "de onde você é?". Não apenas as boas histórias e tudo o mais. É por isso que precisamos documentar, criar nossos próprios dados, anotar e contar nossas próprias narrativas ao longo da história, porque é assim que ganhamos força, não apenas em termos políticos, mas para que possamos construir instituições. Temos que fazer isso por todos os meios necessários. Se eu sei que um dia vou morrer, é melhor me preparar para esse momento e preparar meu povo para esse momento, incluindo meus filhos e outras pessoas com quem estou. É por isso que o desenvolvimento da liderança também é fundamental para esse trabalho.

Ao pensarmos neste momento, a coisa mais inteligente que podemos lembrar é que não sabemos quanto tempo temos. Foi isso o que me ocorreu. Sei que faço parte de uma trajetória e, se faço parte, tenho que preparar as pessoas para estarem no meu lugar. Isso já aconteceu antes; isso vai acontecer novamente. Então, vamos colocar alguns pergaminhos por aí para que alguém possa acessá-los mais tarde e que possam ser úteis em 10 anos ou 20 anos ou 100 anos. É nisso que penso.

Edmund Ruge: Há um velho provérbio sobre isso tudo aí, é como se você plantasse uma árvore, sabendo que nunca poderá usufruir de sua sombra.

Eric Jackson: É disso que realmente a construção de movimentos se trata. A construção de movimentos abnegada e autorrealizada deve ser capaz de visualizar esse movimento a tal ponto que nunca o veremos, mas sabendo que fazemos parte da trajetória para chegar lá. E é isso.


 

Black Yield Institute | EUA |

@blackyield

Edmund Ruge | EUA |

Coordena traduções para o inglês e edita a versão em Inglês na Revista Periferias. Com base no Rio de Janeiro, é mestre em Economia Internacional e Estudos Latino-americanos pela Johns Hopkins School of Advanced International Studies (SAIS)

edmundruge@gmail.com

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