v.01  n.01  2018
O Paradigma da Potência
v.01  n.01  2018
O Paradigma da Potência
Artigos
Moradoras e moradores de Molenbeek desafiando o estigma

Johan Leman*

Tradução do Inglês: Daniel Stefani
Foto: Lieven Soete

Resumo

Em Bruxelas, o distrito Baixo Molenbeek encara uma série de desafios estruturais. Das altas taxas de desemprego às condições de superlotação de moradia, em meio a   comércio de drogas e outras questões.  Os bairros são considerados inseguros e sem limpeza, e moradores e moradoras carregam um estigma associado à “falha” e a vertentes conservadoras ou até radicais do Islã. Assumimos, neste artigo, uma abordagem fortemente baseada na práxis, ao explorar seis exemplos concretos de diferentes iniciativas dos moradores e moradoras de Molenbeek,  que viabilizaram emancipação e empoderamento, cujo potencial fez ser reconsiderada as imagens estigmatizantes do território. Cada iniciativa discutida é explorada com uma disposição de detalhes, demonstrando origem e a qual carga de estigma que desafiam. Trata-se, portanto, de uma abordagem positiva, construtiva e de sonho compartilhado (realista) tendo as potências de Molenbeek em comum.

Introdução

Conseguem moradores e moradoras de uma periferia estigmatizada, a partir de suas próprias práticas, encontrar forças para conquistar a emancipação? E, ato contínuo, conseguir transformar e transcender um rótulo negativo de seus territórios e das pessoas, para assim conquistar algo em benefício próprio e favorável à melhoria da imagem vista a partir do mundo de fora?

Nem todas as periferias e os estigmas são os mesmos. Para alguns bairros, os rótulos são claramente mais profundos e negativos do que outros. Às vezes, o ato de rotular é mais estrutural do que em outros casos. Há, seguramente, outros locais muito mais estigmatizados e, objetivamente falando, locais mais difíceis do que Molenbeek. Restrinjo-me ao que vem sendo considerado “marginalidade” e “rótulo” em Baixo Molenbeek –  território internacionalmente  estigmatizado após os ataques terroristas de Paris (13.11.2015) e Bruxelas (22.03.2106);  anteriormente, já vinha assim sendo tratado, em âmbito nacional. Meu intuito é discutir, de forma concreta, tanto o estigma presente em Molenbeek, quanto sua superação. E começo por considerar cenários cuja origem ou ao menos a sustentação de movimentos, encontrem-se  essencialmente no dia-a-dia e nas experiências dos moradores e moradoras.

“Baixo Molenbeek” como ambiente estigmatizado

Inicialmente, faz sentido introduzir brevemente a municipalidade de Molenbeek, localizada em Bruxelas. A chamada Região de Bruxelas é um aglomerado de 19 municipalidades. Molenbeek é apenas uma delas, sendo Baixo Molenbeek  apenas uma parte dessa municipalidade. Aqui há também uma classe média mais abastada vivendo em Alto Molenbeek.  Quando a mídia menciona Molenbeek, rotulando-o, refere-se na verdade a Baixo Molenbeek; quatro bairros periféricos e populares que, localizados na parte norte do canal que atravessa a região de Bruxelas, já no começo do século XIX, eram bairros de trabalhadores.

Desde os ataques terroristas à Paris (2015) e a Bruxelas (2016), centenas de jornalistas vieram a Molenbeek. Em sua maioria surpresos, esperavam um bairro cujas condições fossem precárias, o que Molenbeek não é. E mesmo Baixo Molenbeek sendo visivelmente mais marcado pela desigualdade do que Alto Molenbeek, ainda não é um bidonville[1] . Seguramente, os problemas aqui não se resumem à falta. Os quatro bairros do Baixo Molenbeek compõem o que chamam de “portão da cidade”, posto que é  entrada para imigrantes que chegam à Bruxelas.

Muitos imigrantes com condição econômica  desfavorável e baixa qualificação profissional procuram por um apartamento em Baixo Molenbeek, bairro que se tornou um lugar cujos imigrantes moradores mais bem sucedidos, abandonam após certo tempo. Assim, o risco é que uma cultura de “ausência de sucesso” e até de “falha”, instaure-se. Para muitas famílias, membro nenhum consegue trabalho no mercado regular de trabalho. A taxa de desemprego é altíssima, também entre jovens, e a população de Molenbeek é muito jovem, sendo que metade dela tem menos do que 29 anos. Muitas das famílias vivem em espaços considerados pequenos demais para os parâmetros belgas – metade dos apartamentos tem menos do que 55m².

Molenbeek está localizado entre uma rota de trânsito de drogas, a qual que se estende do Rife, no Marrocos, à Holanda. A venda de drogas em muito se configura como uma estratégia para ganhar dinheiro, portanto  Molenbeek pode se tornar espaço que para muitos jovens participem de atividades ilícitas e que sejam deslocados para subculturas, também sob influência da internet. Também uma tendência por uma monocultura Norte Africana/Islâmica, manifesta-se no espaço público.

Como explicar que o jihadismo militante consegue, com expressividade, tomar forma em Baixo Molenbeek? Há, antes de tudo, a proximidade com a França: em uma hora chega-se a Paris por trem. Molenbeek também é o mais marroquino dos ambientes de Bruxelas; é espaço para constantes trânsitos de novas chegadas e partidas. Há, portanto, pouco controle social em geral, a não ser por dentro de redes já estabelecidas. A região de Bruxelas propriamente dita, e Molenbeek sendo parte dela, é institucionalmente bastante fragmentada; muitas autoridades políticas se sentem competentes para lidar com apenas um aspecto ou parte reduzida – mas sempre diferente – da realidade social.

Há alguns pontos cegos, “buracos” ofuscados que sejam, onde subculturas informais podem se desenvolver, tal como também acontece com subculturas jihadistas-salafitas nas dobras e sombras da “vida social normal e coesa”. Assim, alguns ex-militantes jihadistas do Grupo Islâmico Argelino (GIA), os quais estiveram presentes em conflitos no Afeganistão, podem por lá se esconder e recrutar jovens para a causa jihadista. Resultado: Baixo Molenbeek e sua juventude têm sido rotulados como radicais e perigosos.

Interessante é o que diz um desses jovens, que agora jovem adulto, é um dos cofundadores de um projeto que apresentarei. Relata sobre si e os demais jovens que integram o projeto MolenGeek:

“Em Molenbeek, os jovens do projeto tem que trabalhar duas vezes mais arduamente. É difícil para todos conseguir um trabalho, porém é ainda mais difícil para eles; os que não estudaram, não têm experiência nem apoio de uma rede . Ainda por último, e não apenas por isso, são de Molenbeek. (…) São jovens sem trabalho que enfrentam discriminação e que, em muitos locais, não são bem vindos. São humilhados como sendo inúteis pela própria família. A polícia os controla constantemente. Há um acúmulo de problemas.” (Ibrahim Ouassari, cofundador do projeto “MolenGeek”, em entrevista ao jornal De Tijd, 30/12/2017:14-15)

Entre muitos dos jovens moradores e moradoras de Baixo Molenbeek, há a forte convicção de que ser morador de Molenbeek é fator bastante negativo quando se candidatam a um trabalho. Sabem que as escolas frequentadas em Molenbeek não são a melhor preparação para os estudos posteriores. Se o nome soar árabe e/ou marroquino, novamente há algo que os coloca em uma posição desfavorável de partida. É assim que se sentem e, repetindo, algo que consigo entender.

A reação deles pode tomar diferentes direções. Alguns/algumas jovens erguem a cabeça e decidem buscar o que almejam, convencidos de que vencerão o desafio. Já outros dizem preferir sair de Molenbeek e ter endereço em outro lugar, para começar a partir de uma posição melhor. Outros, ainda indiferentes, jogam com a ideia da possibilidade de por muitos anos passar a ganhar algum dinheiro vendendo drogas ou tendo trabalho informal ou ilegal. Por fim, há também um grupo que se afasta completamente, voltando-se para o fundamentalismo religioso e criando a própria hierarquia de valores morais e religiosos, normas e práticas, acreditando serem valores superiores aos do meio em que vivem.

Chama atenção o fato de que a maioria dos que participaram dos ataques à Paris e Bruxelas figuravam na categoria de venda de drogas. Alguns deles, a propósito, nunca estiveram na Síria. Mas muitos daqueles que de fato estiveram na Síria foram convertidos para o Jihadismo Salafista, por intermédio de recrutadores de grupos fundamentalistas.

Como situar a condição acima, considerando uma teoria de estigmatização como a desenvolvida por Erving Goffman (1963)? A questão que se coloca é se a pessoa se sente estigmatizado, caso se perceba fortemente e ainda injustamente identificado com uma má reputação, e ainda por ser rotulado negativamente como alguém e por algo que ele/ela de fato não é. Trata-se não apenas de uma questão de sentimento pessoal, mas geralmente também de realidade.

A estigmatização pode ocorrer baseando-se em características físicas, personalidade ou identificação de pessoas com um grupo específico. Se a questão é se o bairro Baixo Molenbeek sofre de estigma tal como Goffman descreve, a resposta então é positiva. Pois estão os moradores e moradoras de Baixo Molenbeek – a juventude em particular – sujeitos(as) a sofrer alguma carga de estigma? Sim, sendo que a maior parte o considera injusto. Alguns talvez demonstrem certo entendimento, mas não sem perceber uma forma de injustiça contrária a eles.

O estigma de Molenbeek é influenciado por três elementos: os bairros são considerados inseguros e sujos; a religião predominante – o Islã – é considerada fundamentalista e não apropriada para a integração; a proveniência étnica, em sua maioria Marroquina da região do Rife, é vista como hostil às mulheres e intolerantes à “alteridade”. Categoricamente não digo ser esse o caso ou que há fundo de verdade. Também sei que moradores e moradoras não-muçulmanos(as) são mais marcados por outras características. Mas de fato é essa a percepção comum entre aqueles(as) que não vivem em Molenbeek, os quais muito frequentemente ocupam posições de decisão e prestígio no mercado de trabalho e na própria cidade.  Também as duas seguintes suposições sobre moradores e moradoras de Molenbeek podem ocorrer: uma relutância frente ao esforço necessário para obter êxito no mercado de trabalho, e uma propensão ao radicalismo.

Como já descrito, uma pessoa se sente vítima do estigma ao se perceber parecido com outros, mas sabe, ao mesmo tempo, que outros os(as) veem como alguém “diferente” – cuja conotação para o termo é negativa. A juventude de Molenbeek já carregava estigma antes dos ataques à Paris e Bruxelas. Já após os ataques, a noção de que supostamente havia simpatia com salafistas, jihadistas e terroristas foi incorporada ao estigma original. Um dos argumentos expostos pelos olhos da opinião pública e, infelizmente, por alguns ministros do Governo, é que muito tempo fora necessário para que o esconderijo de Salah Abdeslam, um dos que participou dos atentados em Paris, pudesse ser descoberto.  Instaurou-se, então, um ciclo vicioso.

As características dos bairros podem confirmar os supostos traços da juventude, motivando o olhar sobre a reputação dos bairros onde moram. A questão que trato neste artigo é: o que vejo, a partir tanto da experiência na ONG Foyer – organização que o opera no âmbito de movimentos de base em Molenbeek e a qual integro, quanto a partir de outras iniciativas e associações locais, como representações que desafiam os estereótipos e rótulos negativos de Molenbeek impactam tanto o bairro em si quanto a cidade como um todo.

Ao respondê-la, evitarei idealizações e me aterei ao que considero funcional. O foco são as ações construídas a partir de movimentos e, sempre que possível, a partir de ações e experiências dos moradores e moradoras – principalmente da juventude propriamente dita.

Cenários concretos que desafiam o estigma em Molenbeek

Brevemente descrevo seis exemplos de ações que vejo acontecer aqui em Molenbeek, cuja  experiência conduz ou pelo menos respalda a desestigmatização:

  • São muitos os jovens, mulheres e homens, que se tornam bem sucedidos de forma primorosa em suas carreiras; ao mesmo tempo, tornam-se famosos também fora de Molenbeek, por intermédio da mídia. Assertivamente, quando mulheres e homens continuam a expressar seu pertencimento à comunidade de Molenbeek, e ao expressarem certo orgulho e gratidão à família e ao meio, podem se tornar modelo e incentivo para a juventude local. Tanto localmente quanto para a opinião pública, podem se tornar embaixadores culturais de seus bairros.
  • Jovens que fazem do fracasso escolar uma dinâmica de empreendedorismo criativo na economia formal, estabelecendo-se e dando continuidade aos negócios em Molenbeek.
  • A comunidade Paquistanesa, que entre as comunidades de imigrantes, foi uma das que mais recentemente se estabeleceu na Bélgica e seguramente também em Molenbeek, mantém suas próprias tradições de esporte; sua presença significa uma boa oportunidade para incentivar o críquete, esporte relativamente novo na Bélgica, não muito praticado apesar de bem conhecido e bastante apreciado.
  • Ações que atraem pessoas de fora de Molenbeek e de Bruxelas por oferecer algo genuíno e relativamente difícil de encontrar em outro lugar da Bélgica.

Nos primeiros quatro casos, o(a) responsável por empreender a iniciativa talvez necessite de certo apoio ou impulso de pessoas mais bem capacitadas profissionalmente, mas não mais do que em qualquer outro lugar em  casos de iniciativas semelhantes. São, essencialmente, ações de movimentos, mas que desprovidas da potência moral e intelectual dos moradores e moradoras de bairros como Baixo Molenbeek, simplesmente não aconteceriam. Incluo aos quatro perfis apresentados – baseados em esporte, artes e em um sentido de empreendedorismo – algumas outras ações cuja estrutura profissional, respaldada pela intervenção e apoio de associações atuantes nos movimentos, podem ser, em certo nível, mais importantes. Para o caso, novamente será fundamental e decisivo contar com o comprometimento dos próprios moradores.

  • Moradores podem criar algo verdadeiramente original com ritmos genuínos e sons que toquem o imaginário, sem se desvencilhar de Molenbeek. É esse o caso dos Fanfakids, banda de fanfarra formada por crianças e jovens.
  • Muitas moradoras e moradores, cuja profissionalização quase inexiste – mulheres mais velhas, por exemplo – estão preparadas para assumir e atuar como atrizes/atores protagonistas em filme cujo objetivo é retratar para o grande público – o processo de emancipação dos moradores; atuam de forma irreverente, com humor e sob a direção de um produtor profissional.

São esses seis cenários que demonstram como pessoas em Molenbeek, ancoradas por experiências de movimentos de base, almejam desafiar e conseguem superar o estigma de seus territórios. Olhados um por um, são esses os exemplos:

Talento individual que não nega a origem

Impressiona a diversidade de talentos que Molenbeek projeta nas áreas do esporte, artes (teatro e cinema), ciência e empreendedorismo; retrata, por sua vez, a pluralidade do território. É verdade que protagonistas, cujas histórias de sucesso, algumas receberam apoio externo em algum ponto da carreira, mas com certeza não mais do que quando comparadas a outros e outras jovens que obtiveram sucesso. Em sua maior parte, o esforço e o incentivo fundamental viera deles(as) mesmo ou fora estimulado pela família e encorajado por alguma instituição, professor ou outro tipo de profissional.

No mundo dos esportes, não surpreende o fato de que artes marciais como kick-boxing ou caratê atraem bom público. O sucesso da juventude lutadora de Molenbeek – jovens que trilharam a carreira com base na própria força e treinamento duro – culminou até com a participação em Jogos Olímpicos. Também criaram academias, instituíram circuitos de treinamento e se tornaram modelos(as) para uma categoria de jovens. Mohamed Boulef se tornou campeão mundial de kick-boxing.  Monder Rizki originalmente pertencia a um grupo de jovens de rua; ao participar de um treino na Atlemo – academia de atletismo da Foyer –, Rizki decidiu se tornar corredor de provas de cinco e dez mil metros. Em pouco tempo, participou dos Jogos Olímpicos de Pequim e Atenas.

Esportistas, mulheres e homens, são vistos como modelos(as) “acessíveis” para muitos jovens, uma vez que permanecem em Molenbeek, mesmo sendo óbvio que a carreira de atleta poderia se beneficiar da vida em um local menos poluído, de ar limpo e mais bem equipado. Mandam suas duas mensagens aos moradores de Molenbeek: “você pode – mesmo – ter sucesso na vida morando em Molenbeek”, e “para nós é difícil deixar Molenbeek, já que em outro lugar, nos sentimos alienados”.

O esportista Vincent Kompany, nascido em um bairro próximo e socialmente estigmatizado, é um importante jogador da Premier League (Reino Unido) e também um modelo que serve de incentivo, embora ele tenha se tornado menos próximo e acessível. É muito valioso a fato de que alguém como Vincent Kompany enfatize, em algumas de suas entrevistas, as qualidades da juventude de Molenbeek, investindo ainda pessoalmente em projetos de futebol voltados para a juventude de Bruxelas.

Os exemplos do mundo das artes podem ser encontrados principalmente no cinema, como com os cineastas Adil El Arbi e Billal Fallah.  Começaram a carreira com o filme “Black”, que lhes rendeu um convite para trabalhar com outros projetos em Hollywood[2]. Inspirados por algumas das realidades e pelas ainda maiores fantasias sobre a vida em Baixo Molenbeek, ambos os jovens diretores seguiram os passos de outro jovem cineasta belga-marroquino, Nabil Ben Yadir, produtor do filme de sucesso “Les Barons”. O filme representa, de forma agradável e emocionante, as escolhas com as quais a juventude de Molenbeek encara a vida ao permanecer em Molenbeek – abordando desde de como lidam com a venda de drogas à relação com os estudos.

Analisando a partir de uma perspectiva histórica, vemos os primeiros e primeiras jovens diretores e diretoras, produtores e produtoras, atores e atrizes da comunidade de Molenbeek – retratarem ativamente no teatro, a vida em Molenbeek. Podemos assegurar que esses produtores e produtoras do teatro contaram inteiramente com os próprios meios, conseguindo o primeiro retorno financeiro com performances realizadas em frente a um público bastante local; lentamente, passo a passo, também se projetavam fora de Molenbeek. Os cineastas contaram com mais apoio, primeiro proveniente de vários atores profissionais da cena Belga que se dispuseram a apoia-los, tendo também recebido, em seguida, apoio de fora da Bélgica. O que não diminui deles o esforço individual, motivação e compromisso. Esse tipo de apoio é, inclusive, necessário para alcançar alguma medida de sucesso no mundo internacional do cinema.

Em terceiro lugar, várias jovens obtiveram sucesso acadêmico, fazendo-se presentes de tempos em tempos na mídia, em decorrência de suas carreiras tanto na política quanto na ciência. E ao chegar esse momento, não negam sua origem – o que é muito importante. Fadila Lanaan, cuja mãe esteve presente nas aulas de alfabetização da Casa das Mulheres da Foyer, a Dar al Amal – e tendo a própria Fadila frequentado enquanto criança o centro para juventude da Foyer, o Foyer des Jeunes – tornou-se Ministra da Cultura para a Comunidade Francesa na Bélgica. Khadija Hamouchi desenvolveu o aplicativo Sejaal, com o qual espera aprimorar a qualidade da educação no Oriente Médio e Norte da África. Ela recebeu convites da Silicon Valley. Essas mulheres se tornaram modelos protagonistas para a juventude –  que conclui poder ela também  ao menos começar a universidade e ter sucesso na vida – tanto pelo caminho acadêmico ou por outro que seja. Com o passar do tempo, não será mais palpite, o fato de que em tais bairros – meninas sejam mais bem sucedidas do que meninos.

Jovens que convertem o baixo rendimento escolar em dinamismo empreendedor

Vejo um segundo cenário desenvolvido em um projeto digital empreendedor, o MolenGeek. Mas do que se trata o projeto? Jovens, incluindo aqueles que possuem pouca aptidão, encontram-se da noite de Sexta-feira à de Domingo, para desenvolver seus projetos digitais e para socializar em torno de uma cultura de startup.  Um dos cofundadores do projeto é um jovem cujo baixo desempenho levou-o a desistência escolar. Falando abertamente e sem culpa, disse em  entrevista:

“Até hoje não consigo explicar bem porque as coisas deram errado para mim, já que no ensino fundamental as coisas iam bem. A escola de repente passou a não me interessar mais. Não estava feliz e não estudava mais. Fazia papel do palhaço nas aulas. Muitos professores conversaram comigo naquela época, com certeza com boas intenções, dizendo que eu estava desperdiçando meu futuro. (…) Um deles me colocou em um curso técnico. Mas por lá tudo também deu errado. (…) Hoje vou muito a encontros para conversar com jovens, e a pergunta sempre é: “O que devemos estudar para fazer o que você está fazendo?” É difícil encontrar uma resposta. Eu nunca estudei.  Só posso dizer: tentem e continuem tentando. (…) Um em cada cinco jovens em Bruxelas deixa a escola sem conseguir diploma. Ainda um em cada cinco não estuda, não está se aperfeiçoando tecnicamente nem procurando um trabalho. Conhecidos como NEETs – Nem na Educação, Emprego ou Treinamento. – MolenGeek está cheio deles. oitenta por cento de nossos jovens são NEET. Se você me perguntar: “Por quê MolenGeek?” Minha resposta será: “Para oferece-los uma perspectiva”. (Ibrahim Ouassari, cofundador do MolenGeek, em entrevista com Sofie Vanlommel, do De Tijd, 30/12/2017).

Sem sucesso com as candidaturas para trabalho, Ibrahim Ouassari descobriu, e agora é apaixonado pelo mundo digital. Ele criou uma pequena empresa para jovens egressos da educação, mas se interessou pelo empreendedorismo e pelo www. Sua opinião é a de que jovens, também de bairros como Baixo Molenbeek, querem todos participar do mundo virtual www. Ele os encoraja a desenvolver aplicativos e a aprender o trabalho, praticando e descobrindo uma nova paixão: a de tornar-se empreendedor, buscando um novo nicho no mercado de trabalho digital.

Após os ataques de Paris e Bruxelas, autoridades públicas o apoiaram financeiramente (oferecendo €500,000) e também socialmente, promovendo sua iniciativa na mídia como exemplo e tentando convencer jovens de Molenbeek que eles e elas não são uma “geração perdida”, abandonada pela sociedade. O projeto definitivamente obteve impacto positivo na opinião pública, também externa à Molenbeek.

O incentivo de Molenbeek para o esporte

Dentre as comunidades mais recentemente fixadas em Molenbeek, há uma vibrante comunidade Paquistanesa. Quase todo dia após a aula, é possível ver jovens Paquistaneses jogando críquete na praça central em frente à igreja, apesar dos meios precários. Na Bélgica, o críquete é conhecido e apreciado, mas raramente praticado. Não há tradição de críquete. No entanto, uma federação de críquete foi recentemente fundada, mas permanece pouco conhecida, dado a falta de adesão popular. Nesse ponto, a juventude Paquistanesa de territórios populares, tais como Baixo Molenbeek ,tem o potencial de impulsionar esse novo esporte e atuar em parte de seu desenvolvimento, indo bem mais longe do que Molenbeek.

Quanto à abordagem da Foyer, o coordenador de esportes da associação é encarregado de entrar em contato com esses jovens e com a comunidade Paquistanesa, propor-lhes um modelo de auto-organização, dotado de estruturas de clube, e mediar com a municipalidade – não apenas para viabilizar a prática interna e externa de críquete, mas também para instituir um programa recreativo e competitivo de críquete em Molenbeek. Eles sem dúvidas se tornarão, em muito pouco tempo, uma das equipes mais fortes de críquete da Bélgica.

Oferecendo às pessoas de fora uma experiência única e local de Molenbeek

É possível explorar certas características bastante positivas do complexo mosaico chamado Molenbeek, normalmente ofuscadas uma vez que a lógica da mídia é focar no conflito. Iniciativas positivas assim podem ser expressas por eventos anuais ou por institutos permanentes. Darei dois exemplos de eventos, e de institutos criado ad hoc, apoiados e baseados nas práticas dos habitantes.

Um construtivo show inter-religioso  anual, com participação dos moradores de Molenbeek.

Os quatro bairros de Baixo Molenbeek são multireligiosos. É marcante o fato de que as comunidades religiosas não sabem muito a respeito dos outros lugares de culto de outras religiões. Mas os não-Molenbeekois[3] sabem ainda menos. A rica realidade religiosa é composta por: várias irmandades Islâmicas Sufi; um mosaico de igrejas Cristãs Pentecostais Africanas e Romanas; comunidades católicas e ortodoxas e ainda mais. Também em algumas dessas comunidades, corais se apresentam muitas vezes durante a semana, e alcançam um alto nível de qualidade mesmo permanecendo desconhecidos.

A cada ano, a Foyer convida algum dos corais para se apresentar em uma igreja central de Molenbeek; compõem em conjunto, um repertório base para a apresentação de um cantor ou cantora proeminente.  O resultado do encontro é uma interessante noite que se tornou tradição em Molenbeek, e que atrai público também externo à Bruxelas. Em eventos assim, a igreja de Molenbeek pode se tornar um local representativo, marca positiva de um espaço onde as pessoas podem experienciar com extrema genuinidade, aspectos da realidade local.

Uma corrida anual

Mais recorrentemente, ainda mais após os ataques à Paris e Bruxelas, Molenbeek é tido como um local inseguro e perigoso, onde pessoas o visitam muito em primeiro lugar devido à curiosidade e como uma forma de turismo de desastre.  A Foyer tenta mudar essa percepção de Molenbeek por vários meios, sendo um deles a organização do Foyer Jogging, um encontro anual pelas vias comerciais da parte antiga de Molenbeek, em tardes de Sábado. A competição de corrida é realizada de uma tal forma que possibilita aos participantes uma experiência em que mulheres podem correr sentindo-se seguras ao vestirem trajes esportivos, como blusa e shorts, em um bairro cuja reputação é ser radical junto às mulheres locais, as quais com frequência, correm com véu na cabeça.

A organização anual de shows que agregam diversas religiões, bem como uma corrida anual pelas áreas mais estigmatizadas de Baixo Molenbeek, são parte da estratégia da Foyer para favorecer uma requalificação positiva para esses bairros, impactando tanto moradores quanto não moradores de Molenbeek. As pessoas descobrem que de fato muitos fundamentalistas muçulmanos moram por lá, mas não representam, no entanto, a categoria dominante – sem dúvida não no espaço público.

MIMA

Nos limites de Molenbeek, uma iniciativa vinda de fora foi tomada para a criação do museu MIMA: o Museu Iconoclasta de Arte do Milênio se apresenta como “um museu de artes visuais abertos ao público geral, determinado a contribuir com o ímpeto cultural – empático, iconoclasta, colaborativo, participativo e transversal – que se esconde em cada um de nós, apenas pedindo para ser libertado. Os trabalhos artísticos expostos são deliberadamente livres de divisões, livremente combinando mundos diferentes: culturas musicais (punk-rock, música eletrônica, hip hop, música folk e outras), artes gráficas (ilustrações e design), esportes (skate, surfe, esportes radicais), artes (cinema, artes plásticas, performances, quadrinhos, tatuagem, design de moda) e ainda arte urbana (grafite e arte de rua). Tendo, essencialmente, origem nas “subculturas”, tais como as artes de rua, skate e arte gráfica, os artistas participantes alcançam notório reconhecimento, independentemente de rede de galerias e centros de arte.” As artistas e os artistas claramente se interessavam por Molenbeek, tanto pela localização quanto pela marca de suas “subculturas”. Próximo ao museu, outro empreendedor abriu um hotel, que passou a ser bastante frequentado.

Bel Mundo

Não que eu queira apresentar ambas as iniciativas acima descritas como provenientes de movimentos e dos moradores e moradoras de Molenbeek; são iniciativas que mais bem podem ser compreendidas a partir da perspectiva da gentrificação. Entretanto, é interessante que no mesmo local, um restaurante social foi aberto: Bel Mundo.  Lá vemos uma iniciativa empreendedora de uma associação local, a Groot Eiland, que cria empregos para imigrantes que acabam de chegar em Molenbeek, oferecendo-os contratos de trabalho para cuidar das hortas adjacentes, as quais produzem os ingredientes utilizados pela cozinha do restaurante. Outros novos imigrantes atendem aos clientes no restaurante. Mesmo não se tratando de uma iniciativa típica de movimentos, mostra como algumas associações agem em conjunto com novas iniciativas para promover uma possível inserção dos moradores e moradoras de Molenbeek – novos imigrantes neste caso – o que pode proporcionar um impacto positivo na percepção de seus visitantes.

Um pequeno “museu de multiculturalismo e artes”

Sob o formato de um programa de três anos de duração (2017-2019), a Foyer está criando um pequeno museu “de multiculturalismo e artes” em Molenbeek, apoiado por alguns artistas proeminentes, mas também por alguns moradores e moradoras talentosas. Ao mesmo tempo, o projeto tentará fazer com que o multiculturalismo de Molenbeek e de Bruxelas seja enfaticamente compreensível. Novamente fica claro que uma iniciativa assim dificilmente começa sem uma medida de apoio de professionais e de uma instituição, mas é igualmente verdade não ter chances de lograr êxito se não contar com um apoio básico de uma larga escala participativa do território.

A criação e promoção de ritmos e sons genuínos: A Fanfakids, banda de fanfarra formada por crianças e jovens.

Fanfakids é uma iniciativa de outro centro de juventude, o Centrum West-D’Broej. Desde 2000, crianças e jovens de um bairro estigmatizado se encontram duas vezes por semana para ensaiar, sob a condução de um músico profissional, com pequenos instrumentos de percussão, sinos e sons da África, América Latina e Europa. As crianças e jovens criaram os próprios sons e ritmos, e também compartilharam com outras crianças no centro da juventude e em escolas próximas. Como  Fanfakids de Molenbeek, saem em viagens durante as férias. Até então, já estiveram na Holanda, Luxemburgo, França, Itália, Suíça, Marrocos, Gana, Togo e Benin. Orgulham-se de suas performances, sempre claramente se identificando com o território.

A empatia dos moradores nos cinemas

O filme Patience Patience, T’iras au paradis, foi premiado com o prêmio Iris no Festival de Berlim.  Sete mulheres falam do passado vivido no Marrocos e da vida em Molenbeek, expressando – sem negar lealdade à família, aos vizinhos e ao território –  como se libertaram de vários obstáculos culturais e de aspectos de controle social onde moram. No filme, partem juntas em uma van, durante feriado, rumo ao sul do país – região onde imigrantes não vão; encontram-se com Arno, proeminente cantor belga, em passeio na orla; juntas, viajam à Nova Iorque ao  encontro, entre  outros, de um jovem advogado Belga-Marroquino, e ainda vão além. Concretizam tudo com as próprias economias e com o apoio de outras mulheres de Dar al Amal. O filme foi exibido nos cinemas de Bruxelas, e também distribuído em DVD. Viabilizar um filme como esse, seria impossível sem o apoio essencial angariado entre as próprias mulheres, que não são nem professionais na área, nem atrizes com experiência. Criaram, assim, um retrato de Molenbeek que desarma.

Discussão

Descrevi seis iniciativas, retiradas diretamente de uma práxis concreta em Molenbeek. Por que as chamo de “desafiantes do estigma”? Pois para Molenbeek, como descrito no início, o estigma perpassa:  a insegurança (portanto a Foyer organiza a prova de corrida); a hostilidade para com as mulheres (por isso também a prova de corrida); o  espaço marcado pelo fracasso e por uma suposta “geração perdida” (rebatido pelas tantas histórias individuais de sucesso, pelo MolenGeek e pelo críquete Paquistanês); a imagem de que pessoas supostamente não querem trabalhar (portanto o Bel Mundo e MolenGeek); a intolerância (portanto os concertos multi-religiosos e o Fanfakids); e, por fim, um espaço de fácil adesão Muçulmana ao radicalismo (portanto o filme Patience, patience). E a lista não se encerra por aí. São várias outras iniciativas interessantes.

Ainda levando em consideração o fato de que, evidentemente, Molenbeek precisa ainda de mais: propostas de uma política adequada à condição de cidade porta de entrada, que conte com escolas mais adaptadas e referidas pelo êxito; conduzir uma séria reflexão conjunta com os Imãs sobre o Islã e a interpretação de suas mensagens; analisar os fluxos financeiros ofuscados, relacionados à venda de droga e armas, mas também ligados à difusão de diferentes vertentes do Salafismo.

A sociedade civil e suas associações também deveriam empenhar mais esforços para desenvolver programas proativos, tal como o de incluir a programas de educação para jovens sobre o mundo digital e as mídias sociais. É necessário mais colaboração para esclarecer quais são os “ângulos cegos” e os “buracos ofuscados” onde a radicalização pode tomar forma, como visto no passado. A provável existência de “buracos ofuscados” (os quais explicam porque fora tão difícil encontrar onde Salah Abdeslam se escondia) continua sendo um problema; iniciativas pela desestigmatização, tais como as que honram coletivamente a memória das vitimas dos ataques, continuam apenas em parte bem-sucedidas. Outra iniciativa que pôde estimular a desestigmatização fora um pequeno livro de autoria do marroquino Mohamed El Bachiri, morador de Molenbeek e marido de uma vítima dos ataques  à Bruxelas.  Em “Un jihad de l’amour” (Uma jihad de amor, 2017), o autor desenvolve em forma de apelo, o que chama de única interpretação correta da jihad, a do Amor de aceitar positivamente o outro.

É importante compreender que, para superar o estigma, além de sonhar, também é necessário autoconfiança e poder contar com apoio de amigos e amigas, ou ponderando a partir de uma perspectiva mais teórica: trilhar o caminho de um sonho começa com capital social positivo − com uma rede que crie condições mútuas de confiança e autoconfiança entre aqueles que dela participam. Uma vez contando com uma rede – o que pode facilmente levar alguns sete anos para ser angariado (tendo em vista nossa experiência com tantos projetos), pois sempre envolve “estar presente” e “conquistar confiança” – é possível propor empreender  um sonho que transcenda a fronteira do grupo, ficando sob responsabilidade dos movimentos, incluir-se no sonho, colocando a si mesmos nesse investimento que é propor um novo capital cultural.

Uma vez um sonho concretizado, novo capital social complementar será criado, novamente com renovada oportunidade para novos capitais culturais complementares – assim fazendo com que pessoas trilhem o próprio caminho rumo à superação do estigma.

É fundamental tanto mais entender que o processo não é de baixo para cima, mas base acima, com a linha de frente lá presente, junto às pessoas e escutando-as. É necessário escutar a juventude local e também mães e pais. Em territórios marcados pela estigmatização, a confiança é a base do capital social, o qual é, por sua vez, base para o capital cultural emancipatório. Não é coincidência que, uma das filhas de uma mulher aluna de um curso de alfabetização com voluntárias em Dar al Amal,  tornou-se a primeira ministra Belga-Marroquina de Cultura Francesa na Bélgica. Durante as aulas de alfabetização, as professoras voluntárias continuadamente insistiam com as alunas sobre a necessidade de permitir que as filhas continuassem os estudos. Iam às casas, ao encontro dos pais, para também convencê-los.  Evidentemente, o esforço provém das próprias pessoas, mas algumas encorajadas por instituições, conseguem melhores resultados.

Processos positivos de emancipação são os melhores antídotos contra o estigma, mesmo que na prática seja necessário algum tempo para que a mídia e a opinião pública se mostrem abertos para acompanhar os processos. A esse respeito, também é importante que outras instituições apoiem o processo. Quanto à educação em Molenbeek, é interessante ver que duas escolas altamente conceituadas, localizadas fora do bairro e vistas até como direcionadas para um público de classe média alta, tenham decidido abrir uma unidade em Molenbeek.

Conclusão

Os problemas mais recorrentes em Molenbeek são as altas taxas de desemprego entre jovens, e o desequilíbrio entre a formação escolar e as atuais demandas do mercado de trabalho. Ademais, há no território um visível comércio de drogas que se coloca como uma forma para mais facilmente ganhar dinheiro, assim como há também a presença de pregadores informais em locais que chamei de “buracos ofuscados”. E para alguns jovens, permanece, evidentemente, um sentimento de “sem futuro”.

Contextos como os descritos, fundamentalmente enraizados e alimentados pelo comprometimento dos próprios moradores e moradoras, são necessários: mantêm um clima de sonhos possíveis e realistas, ancorados por casos de sucesso – parciais, porém  incontestáveis. Referem-se principalmente a ações no campo dos esportes, cultura e arte, e no empreendedorismo. Também demonstram que aceitação e tolerância mútua podem ser parte dos sonhos de um território. Histórias de sucesso e de protagonismo são difundidas. Encorajam pessoas. Criam espaço para um capital social e cultural, e de espírito de construção, mas não o de um espaço para um capital espiritual que leve ao isolamento e renúncia ao restante do mundo.

Conjuntamente ao desenvolvimento de capital cultural e novas e maiores iniciativas vindas de fora (justamente com o MIMA e outras), as quais se colocam mais como um sinal da gentrificação, um novo desafio pode surgir. Pessoas de fora, percebendo melhorias em determinado momento cujos preços de habitação ainda são relativamente acessíveis, podem se interessar pelo território. Assim sendo, é bom sinal. Entretanto, se os preços imobiliários e de moradia aumentarem significantemente, algumas pessoas que se encontram em condição mais desiguais podem ser expulsas.

Por essa razão, não me surpreenderia mesmo se Molenbeek, incluindo Baixo Molenbeek, passarem, um dia – talvez em um período de duas décadas – de uma marca negativa a uma completamente positiva. O desafio será evitar que os moradores e as moradoras, hoje percussores nos processos de desenvolvimentos, tornem-se vítimas da melhoria. Não seria a primeira a vez que, um território, por anos estigmatizado, verá sua população mudar por completo, graças a desenvolvimentos positivos iniciados a partir de dentro e posteriormente complementados por investimentos vindos de fora.  Não que eu queira, entretanto, encerrar imprimindo um tom negativo ou de advertência. Pois neste entretempo, a parte boa é que moradoras e moradores de Molenbeek lutam pelo respeito próprio e estão prontos para se mobilizarem, juntos, contra a estigmatização.


[*] Antropólogo, Diretor da Foyer vzw (Bruxelas, Bélgica). Contato: johan.leman@foyer.be


[1] NT: Bidonville é termo francês que designa bairros com condições desiguais de vida.
[2] NA: Ver a série “Bad Boys”.
[3] NA: “Molenbeekois”, é como habitantes de Molenbeek se referem a si mesmos, em língua Francesa.

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