Invocação do mel | Inferno | Pendências
Dinha
| São Paulo, Brasil |
9 de dezembro de 2025
Invocação do mel
Quando eu morrer
diga meu nome 3x
em frente a um espelho
qualquer (com um livro meu na mão).
Onde a poesia estiver
estará meu coração.
Inferno
ou: Tudo é poética da desistência
Pode ser só cansaço.
Mas a vida tem me dado
cada joelhada
na cara…
E eu sei que essa é uma metáfora
violenta, claro.
Mas qual parte da língua
não é?
Tenho chorado mais que o que Napoleão fez,
diria o outro.
E o meu coração é uma estrada
por onde o passado pisa, o presente rola e
o futuro
planeja sambar. Além do que
cada parte de mim é uma abóbora
jirimum
apodrecendo na feira enquanto mamãe estende a fome no varal.
Como levantar?
Pode ser só cansaço. Eu sei.
Mas o Zé só tem me dado
rasteira e alucinação.
Minhas cartas de amor permanecem
ridículas.
E o meu peito é bateria de escola de samba
rebaixada:
canta o enredo feliz
e
mostra os dentes
pra desgraça.
Eu sei
é muito mimimi nesse carai a quatro.
Mas o inferno astral é isso aí.
Desistência
Deboche
e Consciência
de que a vida é uma viela torta.
Eu vou por ela repetindo o mantra
de curar amor com mais amor
próprio.
E combato o meu desejo
de lamber aos quatro ventos:
Vaza, vida, que eu nunca
estive pronta
exceto pra lama.
se soubesse beijar
por escrito
como queria o poeta
saudoso
pero no mucho
nesse teclado
frenético e firme
meus dedos
tocariam samba
até que tua perna bamba
se rendesse à dança
e retribuísse.
Pendências
está marcado
na vendeta
1 vidro de mel
sal solto
25 orgasmos e
1 vale massagem.
No meu corpo
só o amor
não será cobrado
Dinha | Brasil |
É nascida na Rua dos Ossos, em Milagres, Ceará, mas radicada em São Paulo desde a infância. É poeta, editora independente e pós-doutora em Literatura e Sociedade. Autora de dez livros, incluindo De passagem mas não a passeio e Diário do fim do mundo, é também mestre e doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela Universidade de São Paulo.