literatura & poesia

periferias 10 | edição especial

calibri 12 | equílibrio | antes de Nakba

Diogo Cardoso

| São Paulo, Brasil |

9 de dezembro de 2025

calibri 12 


sem um real no bolso
sem nome aresta ou arcabouço
ouço teu nome no outono
e persigo essa voz sem sorte
em completo abandono

que me levasse então a morte
já que sem rumo ou norte
quisessem-me filho da puta a canalha
pois que filho da puta sou
no entanto não como queiram
hiena serpente e gralha

se uma e outra e outra além de
outra (e esta sim sói e dói)
para o justo contraditório
por puro ódio não me deem ouvidos
que então se faça a noite a faca a foice
e que seja então eu morto esquartejado
crucificado na cruz do olvido

 

equilíbrio 


um santo que não acreditava em Deus disse:
“a chave para o reino dos céus
está debaixo de nossos pés”
por um instante — em coral uníssono —
os pés de todo o mundo abandonaram o chão:

 a Terra saiu de seu eixo.

 

antes de Nakba

 

era lá, minha irmã,
lá ao longe onde as águas resplandeciam o céu
lá ao longe onde caminhávamos risos sobre os seixos
lá onde, na alegria diuturna, sonhávamos margens abertas
de uma vida contínua como o abraço de um molhe

era lá, minha irmã,
nos tempos antigos em que das viagens havia regresso
do deserto móvel havia regresso
do sofrimento estanque havia regresso
do demorado vinho havia regresso
— mesmo ainda para o abraço havia regresso —

eram tempos, minha irmã,
em que ainda existia em nossos corações a palavra regresso

* 

o lamento, minha irmã, que hoje entoamos
são gritos de corações empedrados
dispersos em um deserto minado de armamento e ódio

 — mas nem sempre foi assim:

 as veias da cidade pulsavam com o cheiro 
de mirra, canela, açafrão e bocas
o ar de antes, minha irmã, era tecido de vozes
e acima de nossas cabeças, a luz era apenas astros suspensos
sem jamais estar obstruída por escombros ou medo

a densidade aérea nos impede de ouvir
a densidade aérea nos impede de regressarmos
ainda que a alguns milímetros de nosso peito
o vazio entre dois toques sempre tem a extensão de um outro deserto

*

 lanço, minha irmã, essa súplica do fundo de um poço escuro
onde quer que esteja — se luz houver —
é minha voz luzindo-te
depois de Nakba


 

Diogo Cardoso | Brasil |

É poeta e tradutor. É autor de Sem lugar a voz (Dobradura, 2016) e da plaquete A língua nômade (Círculo de poemas, 2025) e tradutor, dentre outros, de A mais recôndita memória dos homens(Fósforo, 2023), de Mohamed Mbougar Sarr, e Dicionário abreviado do surrealismo, de André Breton e Paul Éluard (100/cabeças, 2024).

Edições Anteriores

Assine nossa newsletter