Interceptação
Novas estratégias de solidariedade global por Gaza navegam o Mediterrâneo
Zukiswa Wanner
| África do Sul |
9 de dezembro de 2025
traduzido por Jemima Alves

Dois novos membros ingressaram no barco devido a problemas que impossibilitaram que outras embarcações da flotilha continuassem. Finalmente, temos uma médica de verdade a bordo, e estamos todos fazendo de tudo para que ela fique à vontade, porque o Capitão tem tido problemas nas costas. Dores de dente dão pontadas em quem é francesa vivendo na Alemanha — e, agora, aqui, vem alguém que pode ajudar. O Xará do Profeta e minha compatriota R estão até lavando a louça quando é a vez dela. Suas tarefas de preparar o café da manhã foram praticamente assumidas e divididas entre a Pesquisadora e o Capitão, que vez ou outra faz pão. Crianças, estudem — isso será útil mais tarde na vida, possivelmente até num barco que tenta criar um corredor humanitário.
O outro membro é Awda, chamada por mim assim porque ela tem o mesmo nome de um hospital em Gaza. Não sei se serve de prova da facilidade com que todos no Mendi Reencarnado se dão bem ou da simpatia dos dois novos membros, mas a integração deles é imediata. E lá estávamos nós, quase todos na proa do barco, naquela quarta-feira, primeiro de outubro.
As fronteiras entre a tripulação e os participantes se tornaram nebulosas há muito tempo, o Cara da TI do Mendi Reencarnado — que eu secretamente chamo de Siddharta, porque está sempre em busca de espiritualidade — nos faz cantar uma música enquanto grava cada um de nós entoando os versos de uma canção que ouviu em algum lugar, e terminamos com o verso “sailing for humanity”.
Apesar de a família ser bem unida e harmonizarmos em muitas coisas, jamais seremos os cantores da Família von Trapp. Entre risadas, perguntamos a ele se estamos subindo ou descendo de tom em humanity da maneira correta, e será agudo o suficiente? Siddharta desiste e grava o que consegue. O pôr do sol parece ainda mais glorioso — sabemos que esta é a nossa última noite antes de chegarmos a Gaza.
*
Como você, leitor, bem sabe, não chegamos a Gaza. Por volta das sete da noite, a marinha israelense do apartheid atirou água em nosso barco perto o suficiente para que entregássemos nossos telefones ao Coordenador — que, com menos delidadeza que nós, os entregou ao Mediterrâneo. Foi precipitado, pois aquilo não passou de uma provocação. Acabaram por nos deixar em paz e continuaram a interceptar outros barcos.
Foi então que descobrimos que Siddharta não tinha nem enviado para a nuvem nem postado o nosso vídeo no Instagram — mal cantado, é verdade, mas certamente digno do prêmio Sailing for Humanity. Como é possível que esse seja o nosso Cara da TI? Mandei fotos para o logbook Afrique XXI, para que ficassem salvas, antes de jogar meu telefone fora.
Eish.
Caramba.
Manter as luzes apagadas para não chamar atenção, e ainda assim permanecer em alerta. Ninguém se atreveu a descer para dormir — a não ser dormir de olhos abertos, por assim dizer — e jantamos tâmaras, mix de frutos secos e água.
A bomba de esgoto do Mendi Reencarnado começou a apresentar falhas justamente no momento em que nenhum dos outros barcos podia vir em nosso apoio. Ao perceber isso, R, a Compatriota, o Xará do Profeta e o Coordenador puseram-se imediatamente a tirar a água com baldes, assim que viram que as Forças do Apartheid estavam fora de vista. Um trabalho digno de elogio.
Continuávamos a avançar em direção a Gaza, havíamos ultrapassado a marca das 50 milhas náuticas e seguíamos cada vez mais perto.
— A que distância estamos, Capitão?
— 30 milhas náuticas.
Gritos de alegria. Estávamos indo bem.
Awda entrou depois do Fajr, a oração da alvorada, e disse, com naturalidade:
— Eles estão aqui.
Conferimos se estávamos todos presentes, se não faltava ninguém.
— A que distância estamos, irmão? — eu, incorrigível, perguntei, ao Imediato, que estava no leme.
— 28 milhas náuticas.
Um suspiro coletivo tomou conta do barco.
Ele tentou continuar, mas todos nós sugerimos que poderíamos ser alvejados.
O motor foi desligado e nós todos seguimos o protocolo de interceptação — acender as luzes, colocar o colete salva-vidas, sentar-se com as mãos abertas para mostrar que não tínhamos armas e deixar o passaporte à vista.
— Quem é o capitão aqui?
Ficamos todos em silêncio.
— Mantenham os olhos fechados e as mãos levantadas.
Fechamos os olhos. Nos recusamos a erguer as mãos como sinal de rendição, mas as mantivemos abertas ao nível do peito, como se em oração, para mostrar que não tínhamos más intenções. Um dos membros das Forças de Ocupação Israelenses assumiu o leme. Três deles armados, nos comandando, um por um, a ir para a frente do barco.
Risadas e a camaradagem da noite anterior. Uma cena que ainda respirava entre nós. Desapontados por não termos chegado a Gaza, o espírito de camaradagem, entretanto, permanecia intacto. Se havia algo em que toda essa equipe acreditava, com todo o seu ser, era que iríamos alcançar as praias de Khan Younis. Impulsionados por essa fé e pelos lindos vídeos de esperança que chegavam de Gaza, o episódio da interceptação soou como um enorme desapontamento para Gaza e seu povo. Sentimos como se fosse um fracasso pessoal de cada um de nós naquele barco.
A médica trazia dois grandes chocolates (sabor coco e noz-pecã) que planejava dar às primeiras crianças de Gaza que encontrasse, e eu tinha proibido as pessoas de comer algumas tâmaras lindamente arranjadas e embaladas que comprei em Túnis, porque queria entregá-las em meu encontro à primeira mulher de Gaza. Trouxe também livros, romances para o jovem que, ouvi dizer, sempre carrega consigo sua biblioteca nos bombardeios. Talvez eu não o encontrasse, mas tinha certeza de que alguém em algum lugar poderia vê-lo, se eu mencionasse isso nas redes sociais — e não seria lindo se um daqueles romances fosse um romance ambientado em Gaza, escrito por uma autora sul-africana que levou leitura em uma flotilha?
Todos nós tínhamos personalidades muito diferentes, mas estávamos unidos no amor pela humanidade e no ódio à opressão. Não contamos às Forças de Ocupação Israelenses sobre a bomba de esgoto avariada do Mendi Reencarnado nem sobre o fato de o motor estar enchendo de água enquanto eles tomavam o controle do barco — “isso agora é problema deles”. Demos de ombros enquanto nos sentávamos.
Todos nós esboçamos um sorrisinho de canto quando, duas horas depois, o motor morreu.
— Vai levar de três a cinco horas até o barco afundar por completo, disse o nosso ex-Capitão.
As Forças de Ocupação notaram que o motor havia morrido. Sete deles estavam a bordo: dois acima de nós, dois nos guardando de ambos os lados do barco e três dentro. Teriam de nos salvar para se salvarem, e nós sabemos qual exército é o mais covarde de todos.
Eles começaram a disparar fogos de artifício por volta das dez da manhã, como era de dia, levou algum tempo até que fossem vistos. Nós, dispensados de nossas tarefas cotidianas de cozinhar e limpar, nos tornamos sua principal ocupação. Primeiro, um pedido genuíno da médica para aplicar uma injeção no ex-Capitão. Depois, pedidos constantes para usar o banheiro, de onde aproveitávamos para voltar com nossa própria água, algumas nozes — mas, não, não tocamos nos chocolates nem nas tâmaras. E o Mendi aos poucos afundava.
Logo após o horário do almoço, as Forças de Ocupação finalmente chegaram para nos resgatar, junto com seus colegas.
— Quem é o seu capitão? Perguntaram, mas não tiveram qualquer resposta.
— Queremos resgatá-los, mas, como não nos dizem quem é o capitão, terão que ir nos botes infláveis.
Dois botes, cada um com capacidade para 15 pessoas.
Fomos para um deles, e eu vi que nosso ex-Capitão tinha um GPS Garmin, que estava carregando com um powerbank. A desculpa para o uso do powerbank era que ele precisava carregar seu cigarro eletrônico.
— Se eles nos abandonarem, tenho tudo sob controle.
Esperávamos com todas as forças que eles nos deixassem para trás.
Mas não nos deixaram.
Eles nos transferiram dos botes infláveis para um barco maior e, depois, para um navio da marinha, onde fomos revistados. Assim que terminar de escrever isto, vou enviar uma mensagem ao nosso ex-Capitão, porque até hoje fico me perguntando onde foi parar o GPS Garmin.
Em seguida, fomos levados para outro barco menor, que nos conduziu ao Porto de Ashdod.
*
Em Ashdod permanecemos sob o sol por muito tempo. Fomos levados a um outro lugar e começamos a especular que provavelmente estariam preparando algo para que assistíssemos àquela velha propaganda sionista — mas não foi o que aconteceu, não naquele momento. Eles nos transferiram para outra parte do mesmo local.
— Sentem-se com a cabeça baixa, as pernas estendidas à frente e a bagagem à sua direita.
Essas instruções mal funcionam com crianças de jardim de infância — menos ainda com adultos, criaturas cheias de hábitos. Não é sem motivo que não frequentamos aulas de ioga.
Quando o sol se pôs, o vimos entrar.
Ben Gvir, cercado por jornalistas e seguranças. Ainda menos impressionante pessoalmente do que é nas telas. Assim que o resto de nós o viu, antes que ele pudesse começar a falar, gritamos todos, juntos: “Free, free Palestine!”, e repetimos incessantemente.
Acho que apenas por um momento pausamos o grito ao ouvi-lo dizer as palavras “assassinos de bebês” e “terroristas” — eu só ouvi isso porque escutei meus companheiros gritarem de volta: “Vocês é que são os terroristas, vocês é que são os assassinos de bebês!”, antes de retomarem o coro:
“Free, free Palestine!”.
Já não estava mais apenas com os 15 companheiros do barco, que amavam com tanta intensidade, mas com quase 500 pessoas que faziam o mesmo. Unidos pelo ódio mútuo a todo o veneno vindo desse homem terrível, desprovido de qualquer humanidade.
Gritamos até ele sair do palco, mas eu estava certa de que a punição viria — e veio. Fomos amarrados com braçadeiras plásticas, as mãos presas com força atrás das costas, inclusive o pobre Jornalista que estava à minha frente.
À minha esquerda, quando os sionistas já não prestavam mais atenção, o Capitão chamou meu nome e mostrou-me que suas mãos estavam livres. O Cameraman e eu ainda lutávamos, mas no fim nos rendemos e acabamos cochilando.
Pensei, ao desistir, que talvez o Cameraman e eu fôssemos uma metáfora para muitos no mundo — aqueles que veem a injustiça e não se manifestam, porque há desconforto demais em tentar conquistar a liberdade. Ou talvez, simplesmente, nossas braçadeiras estivessem mais apertadas do que as do Capitão, e por isso fosse mais difícil escapar delas.
Os participantes do Barco Mendi Reencarnado foram:
Zukiswa Wanner, Leslie Navarino, Bianca Pullman, Shifa Abdi, Abdeladim Bendraoui, Youssef Ghallal, Reaaz Moola, Mohammed Mrad, Anis Abassi, Achraf Khoja, Muhammet Emin Yildirim, Turgan Turan, Mohamed Ali, Evren Akan e Lotfi Hajji.
Zukiswa Wanner | África do Sul | Quênia |
é um ícone entre os escritores africanos. Escritora e editora, nasceu em Lusaka, Zâmbia, filha de um sul-africano exilado e de uma zimbabweana. Cresceu no Zimbabwe e formou-se em jornalismo pela Hawai’i Pacific University. Em 2020, fundou e fez a curadoria do festival virtual de literatura Afrolit Sans Frontieres, que em cinco temporadas reuniu escritores da África e da diáspora. Zukiswa foi editora convidada na revista Periferias das edições Periferias 6: Raça, racismo, território e instituições (2021), e Periferias 8: litafrika. Publicou contos nas edições impressas da Periferias Encruzilhadas do futuro (2022) e na edição bilíngue Justiça e direitos nas migrações Sul-Sul (2023). Zukiswa recebeu diferentes prêmios, entre os quais estar entre os 100 Africanos mais Influentes do Mundo pela revista New African, em 2020. Pela Periferias, Zukiswa publicou Relatos da vida palestina sob estado de apartheid (2023), e Amar, casar, matar (2025). Pela Imã editoral, publicou Madames e Homens do Sul (2025). O trabalho de Zukiswa foi traduzido ao português, francês, espanhol e kiswahili.