ensaios

periferias 10 | edição especial

Entre cliques, interfaces e códigos

Fio-ações que tecem tecnologias do viver

Vic Argôlo

| Belém, Brasil |

4 de dezembro de 2025

Foto: Vic Argôlo

O trânsito de um corpo que entra e o corpo que sai. Esse é um movimento que traz inquietações e investigações sobre itinerários de saúde nos ambulatórios para pessoas trans no SUS, em Belém do Pará. Foi refletindo sobre as lógicas de regulação e as violências sociais presentes em ambientes de saúde que outro conceito passou a nortear minhas inquietações como pesquisadora: o cuidado.

Hoje pesquiso como mulheres negras na Amazônia paraense se apropriam das redes sociais digitais, articulando a produção de narrativas digitais com sentidos de estratégias do cuidado e segurança digital.

A compreensão do ciberespaço como um território de disputas que reproduz e intensifica lógicas racistas e patriarcais fez com que o meu projeto avançasse para além dos estudos clássicos de ciberativismo, por buscar propor um contraponto crítico ao centrar as escrevivências e as narrativas tecnológicas de cuidado adotadas por mulheres negras que são anteriores ao mundo digital.

A presença digital dessas corporeidades exige uma reflexão específica sobre proteção e autocuidado coletivo que já fazem sentido fora da lógica da plataformização.

A presença digital dessas corporeidades exige uma reflexão específica sobre proteção e autocuidado coletivo que já fazem sentido fora da lógica da plataformização

Meus objetivos interagem com a busca de compreender não apenas os diferentes usos de plataformas e redes digitais, mas, também, refletir sobre táticas de tecnorresistência e os cuidados que mulheres negras desenvolvem para existir e resistir on-line e offline.

Minha pesquisa se insere na linha Processos Comunicacionais e Midiatização na Amazônia na área da Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade Federal do Pará que, ao buscar analisar experiências de apropriação de mídias, visa contribuir com os debates sobre tecnologia e cibersegurança a partir de uma perspectiva racializada e amazônica.

O tema da saúde me remete a desconfortos emocionais e psíquicos atravessados por lógicas de violência e controle que derivam de paradigmas biomédicos e sociais, os quais orientam leituras de mundo, formas de tratamento e processos de desumanização.

Contudo, sempre existem contrapontos — aprendi que, neste caso, o que vinha junto do cuidado era a premissa de construção de afetividades e redes coletivas. Em determinado momento da minha pesquisa, constatei que nem tudo era negativo. Quando penso em pontos positivos nos processos de tratamento, durante os itinerários, foi possível identificar as relações que são construídas ao longo dos acompanhamentos, consultas e encontros dentro e fora dos locais de saúde. Ali temos um achado: o senso de comunidade.

O conceito de comunidade vem guiado por uma percepção que bell hooks (2021) aborda, no sentido de ser um “movimento que aumenta nossa capacidade de companheirismo”. Quando percebemos, enquanto grupo, que a dimensão dos nossos corpos é experienciada e vivenciada de diferentes formas e em diferentes realidades socioculturais, isso nos garante, ao mesmo tempo, ações de coletividade em prol de diálogos mais cuidadosos.

Ou seja, o nosso processo coletivo de escuta e de acolhimento interpessoal das nossas vulnerabilidades acaba sendo algo terapêutico diante das violências sistêmicas que enfrentamos. Aqui, ficam evidentes as nuanças e posturas construídas através de momentos afetuosos e amorosos, com honestidade e reciprocidade.

Isso parte do fato de conseguirmos nos colocar naqueles lugares, nos entendermos e sabermos o quanto é importante nos ouvirmos, pois, às vezes, profissionais e os espaços de saúde não cumpriam esse papel de nos humanizar.

Esses insights foram fundamentais para traçar os meus caminhos na busca por identificar o cuidado em diferentes contextos. Percebo hoje que não foi diferente quando pesquisei a televisão, que foi o meu primeiro espaço para pensar as tecnologias comunicacionais e os seus impactos na vida social.

 

Minhas inquietações perpassavam o campo da imagem e da representação racial, mas, sem surpresa, encontrei caminhos que se compartilhavam com a compreensão dos conteúdos televisivos a partir da afetividade e do lugar do cuidado no âmbito de uma memória coletiva e afetuosa.

Daí você poderia se perguntar: o que isso tudo tem a ver com um texto sobre tecnologia?

Foi refletindo sobre as constantes transformações dos processos comunicacionais que pensei sobre como as redes sociais passaram a existir no dia a dia das pessoas e, de certa forma, sobre a relação específica que corporeidades interseccionais e subjetivas tinham com os algoritmos digitais. Afinal, as plataformas de dados reproduzem e constroem novas dinâmicas do ser e estar no mundo.

O ciberespaço das redes sociais passou a ser um lugar onde são construídas novas formas de se expor ao mundo em suas dinâmicas, seja interpessoais ou profissionais. Foi daí que passei a pensar em como essa relação com as mídias digitais é elaborada de formas diferentes. Meu ponto era compreender como as mulheres negras, ao adentrarem esse espaço, vão ter dinâmicas particulares e direcionadas para as suas vivências digitais.

O ponto de pensar sobre o uso das redes sociais por mulheres negras vem junto da noção de olhar a comunicação como uma incidência política, seja ela no mundo real ou no mundo digital. Penso que as mulheres negras, ao se comunicarem, estão desafiando a hegemonia branca patriarcal com suas próprias narrativas e disputas, mas, quando isso é posto no âmbito digital, me agoniava discutir sobre como fazer isso de forma segura.

O ponto de pensar sobre o uso das redes sociais por mulheres negras vem junto da noção de olhar a comunicação como uma incidência política, seja ela no mundo real ou no mundo digital

Surpreendentemente, comecei a perceber o quanto as linguagens e os códigos que constroem os debates sobre “o que é segurança digital?” ou “como eu me protejo on-line?” são distantes da nossa realidade. Percebi que, no meio de todas as dinâmicas que lidamos com cliques, interfaces e códigos de algoritmos no digital, se torna difícil se proteger quando essas ferramentas não nos comunicam. Seus formatos são inacessíveis para as nossas realidades.

Entretanto, comecei a seguir outras inquietações e perceber que muitas vezes as dinâmicas de segurança da informação e a proteção digital — por serem distantes de nós — não significam não sabermos tecer redes de cuidado.

Minha avó me apresentou isso a partir das plantas e na cozinha. Às vezes, o que pode ser entendido como um tempero se torna um remédio para diferentes dores. O cuidado hoje me mostra como, ainda que não sejamos da saúde, construímos laboratórios de cuidados que guardam segredos milenares.

Esse saber nos foi transmitido pelas gerações. Arruda, alfazema, andiroba, cidreira, erva doce, copaíba, manjericão, hortelã se tornam exemplos de tecnologia ancestral. Fazem parte de um sistema complexo que olha para os sintomas do corpo e sabe prescrever a planta certa para curar o mal-estar e o preparo ritualístico que será do tratamento.

Olhar para esse processo me faz perceber que, enquanto a ciência não reconhece essa legitimidade, as nossas anciãs já entendiam como cuidar de nossos corpos físicos e, até mesmo, como acalmar o nosso espírito. As tecnologias do viver aqui chegam com o ato de usar essas ervas, tal qual acionar um software de sobrevivência e bem-viver, software esse que vem sendo atualizado há gerações.

Outra coisa que comecei a refletir sobre as tecnologias do viver foi olhar para as tranças não apenas como uma técnica estética, mas como uma geometria da nossa resistência, uma engenharia que é socialmente aplicada. Enquanto os dedos de mulheres negras tecem fios de cabelo, elas tecem, também, histórias, confidências e até mesmo redes de apoio. O toque é permissão para ser cuidada.

As tecnologias do viver aqui chegam com o ato de usar essas ervas, tal qual acionar um software de sobrevivência e bem-viver

Entre um penteado e outro, são curadas dores emocionais e de autoestima que nenhum remédio sozinho alcança. O trançado que nasce dessas trocas é bem mais que um penteado, vira um mapa de afeto, uma armadura de beleza e um exemplo vivo de que a nossa existência é coletiva.

Em um mundo que vigia e violenta nossos corpos, criar contextos de segurança são fronteiras íntimas que erguemos neste ato, uma tecnologia que codifica em cada fio a memória de que nunca estivemos sós.

Quando decidi mergulhar na experiência digital das mulheres negras, entendi que o cuidado já seria uma dinâmica particular desse grupo. Para além do ciberativismo, empoderamento, profissionalismo e outras apropriações que são feitas por essas plataformas, foi crucial reconhecer que a exposição para corpos e subjetividades negras é singular e perversa.

Diante disso, meu caminho hoje trilha as estratégias de cuidado e segurança digital para existir e resistir não só nas redes, mas reconhecendo que narrativas de cuidado vem de outros momentos anteriores ao digital.

Recentemente, comecei a reconhecer como desenvolver essas reflexões na prática, o que vai me guiar na construção da tese de doutorado. Nesse trânsito entre fluxo de ervas, tranças e telas percebo como se revela uma tecnologia do viver. Os mesmos dedos que maceram a folha para extrair seu cuidado ou trançam nossos cabelos são os que teclam para forjar espaços de existência.

Se os nossos saberes ancestrais podem ser lidos como um software de sobrevivência atualizado há gerações, as táticas de segurança e afeto criadas por mulheres negras podem ser levadas para o on-line, para serem ferramentas contra os vírus do racismo e da desumanização. Entre cliques, interfaces e códigos, o que tecemos são novas possibilidades de cuidar de nós em um mundo hostil.

Cada ato de cuidado, ancestral ou digital, faz parte de um movimento apontado por Zélia Amador de Deus (2019) que nos diz que fio-ação faz parte da resistência do movimento negro, que tece e recria a nossa imagem na coletividade, no afeto, infinitamente resistente, que pensa, incessantemente, nos nossos novos e em outros futuros possíveis, até mesmo agora nos mundos digitais.


 

Vic Argôlo | Brasil |

É uma mulher travesti, preta e bissexual de Belém do Pará. É comunicadora,  professora de Ciências Sociais de formação, produtora cultural, roteirista e pesquisadora de memórias, escrevivências, imagem e afetividades. É Mestra em Ciências da Comunicação pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (PPGCOM/UFPA). É militante no Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), compondo a Coordenação de Programas e construindo, também, o Coletivo de Juventude Negra e o Núcleo de Tecnologia da organização. É Conselheira Municipal e Estadual pela Defesa dos Direitos Humanos e Doutoranda em Comunicação no PPGCOM/UFPA com pesquisa sobre uso, apropriação, e segurança digital adotadas em mídias sociais por mulheres negras.

@vic.argolo

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