‘A gente se vê como uma árvore, uma oliveira unida à terra’
Ou como Ghassan e as oliveiras da Palestina recalibram horizontes de libertação pela coletividade
Juliana Muniz
| PALESTINA | BRASIL |
4 de dezembro de 2025
O mês de outubro e a Palestina ficaram diretamente associados no ano de 2023, pelo marco do início do genocídio na Faixa de Gaza cometido pelo Estado de Israel. No calendário da destruição, o genocídio ainda em curso escancara o que é denunciado pelos palestinos há mais de 77 anos, como um projeto de colonização e limpeza étnica, que só garantiu uma certeza ao povo palestino: a Nakba (catástrofe, em árabe) contínua.
O horror hipervisível que assistimos há dois anos ilustra drasticamente esse quase um século de violências sistemáticas contra a população palestina, como a ocupação, o apartheid, a desapropriação, segregação, deslocamento forçado, entre diversas tentativas de apagamento.
Contudo, o nefasto aniversário do genocídio não é a única marca entre esse mês e a Palestina. Considerando uma relação ancestral com a terra, em um calendário que informa certamente mais sobre a produção da vida que seu extermínio, outubro é a época em que se inicia a colheita das oliveiras.
Símbolo central da Palestina e sua cultura, as oliveiras representam uma parte fundamental da economia, da resistência à ocupação e sua perseverança pela vida. A produção de azeite é um pilar fundamental da subsistência de milhares de famílias palestinas, sendo um de seus principais sustentos.
Símbolo central da Palestina e sua cultura, as oliveiras representam uma parte fundamental da economia, da resistência à ocupação e sua perseverança pela vida
Estima-se que mais de 80% dos olivais na Cisjordânia tenham mais de um século de existência1Al Jazeera: Palestinian olive farmers defy Israeli attacks for prized crop.. Esse dado poderia ser lido simplesmente como uma comprovação da longevidade das árvores, mas se tratando do mito central da colonização sionista de “Um povo sem terra, para uma terra sem povo”, essa informação nos indica algo muito além.
Embora sejam árvores resistentes, oliveiras precisam do trabalho humano para se manterem e levam muitos anos para dar frutos. Portanto, para que existam oliveiras há séculos, há pessoas que as cultivam há séculos, caindo assim com a narrativa do vazio demográfico tão reproduzida pelo sionismo.
Afinal, seria muito mais “trabalhoso” assumir que, para impor um etnoestado de maioria judaica, seria preciso remover sua população autóctone não judia, como aconteceu de fato na Nakba2A Nakba, termo que significa “catástrofe” em árabe, refere-se ao processo de limpeza étnica que resultou na expropriação e expulsão de mais de 750 mil palestinos de suas casas para a fundação do Estado de Israel em 1948. Além de sua expulsão, há o registro de 15 mil palestinos assassinados e mais de 500 vilarejos nativos destruídos..
Estamos falando da Palestina ocupada, de regiões que sofrem com um sistema de apartheid e ocupação ilegais há décadas. Não há normalidade na palavra colheita para os palestinos
Enquanto escrevo a palavra “colheita”, me surge imediatamente uma imagem bucólica, garantindo no meu imaginário a possibilidade de sua realização: campos abertos, oliveiras carregadas, fartura e possibilidade de trabalho. Na “normalidade” e no tempo cíclico da natureza, você planta, aguarda, colhe e mantém o ciclo agrícola de forma sustentável.
Porém, estamos falando da Palestina ocupada, de regiões que sofrem com um sistema de apartheid e ocupação ilegais há décadas. Não há normalidade na palavra colheita para os palestinos. A ocupação da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Oriental por Israel é considerada ilegal pela Corte Internacional de Justiça da ONU desde 2024.
Desde 1967, o Estado israelense expulsa palestinos de suas terras para construção de assentamentos ilegais, habitados por colonos israelenses. Isso faz com que a Cisjordânia seja um território profundamente fragmentado, no qual uma mesma vila palestina possa ser entrecortada e invadida pela ocupação em diversos trechos, interrompidos por checkpoints, entre outros mecanismos de controle e vigilância. Quando estive na Cisjordânia em agosto deste ano, entendi que o momento de colheita que se aproximava gerava tanto entusiasmo quanto apreensão3Estive na Palestina em agosto de 2025 como representante, ao lado de mais duas colegas, o Vozes Judaicas por Libertação, coletivo de judeus antissionistas comprometidos com a luta pela libertação do povo palestino aqui no Brasil. Participamos de uma delegação internacional organizada pelo Center for Jewish Nonviolence (CJNV), que reuniu ativistas de outros coletivos judaicos antissionistas de diversos países para colaborar com ativistas palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental..
Embora esta seja uma época em que as famílias palestinas se reúnem e celebram a sua ligação às oliveiras, é também um período de aumento da violência e do assédio por parte dos colonos e das autoridades israelenses. Ano após ano, os agricultores palestinos são perseguidos e violentamente atacados, impedidos de acessar seus olivais e privados de seu meio de subsistência.
Suas árvores são queimadas, plantações destruídas e azeitonas roubadas. Além disso, os colonos também envenenam o solo, o que não só destrói sua produção como inviabiliza plantações futuras. A tortura da violência e o controle colonial causam não apenas perdas econômicas, mas também um profundo dano psicológico e cultural, afetando o dia a dia, a identidade e a dignidade palestinas.
Vários assentamentos israelenses são construídos perto desses olivais palestinos ou dentro de áreas militares israelenses designadas ilegalmente. Em muitas dessas áreas, os agricultores palestinos são obrigados a negociar com o exército para obter permissão para acessar suas próprias terras.
Em 2023, paralelamente ao início do genocídio em Gaza, o exército cancelou quase todas as permissões para colheita. Em 2023, mais de 9,6 mil hectares dos olivais na Cisjordânia ocupada ficaram sem colheita devido às restrições impostas por Israel, resultando na perda mais de 1,2 mil toneladas de azeite4OHCHR: Israel must stop violent settler attacks on Palestinian farmers that threaten their olive harvest, say UN experts..
No fim de de agosto deste ano, em apenas três dias, as forças armadas israelenses arrancaram 3 mil oliveiras5Al Jazeera: Israeli military uproots thousands of Palestinian olive trees in West Bank. na aldeia de al-Mughayyir, também no norte da Cisjordânia ocupada. Entendemos aqui a destruição ambiental como uma forma de punição coletiva, cujo objetivo é não só destruir os meios de subsistência dos palestinos e cortar sua conexão com suas terras, como também produzir insegurança e desespero. O exército justificou a medida alegando que as árvores representavam uma “ameaça à segurança” de uma estrada israelense que atravessa as terras da aldeia.
Por mais surreal que pareça, a alegação de “ameaça de segurança” faz algum sentido na narrativa sionista, equilibrada pela repetição de tantos mitos e farsas. O sionismo busca apagar a conexão dos palestinos com o território, destruindo sua paisagem, se apropriando de suas narrativas, plantando árvores não nativas e impedindo a produção agrícola.
O sionismo busca apagar a conexão dos palestinos com o território, destruindo sua paisagem, se apropriando de suas narrativas, plantando árvores não nativas e impedindo a produção agrícola
Nesse sentido, um símbolo tão fundamental de resistência e ancestralidade de fato é uma ameaça, e destruí-lo faz parte de uma esterilização da ideia de Palestina, um apagamento do passado para inviabilizar qualquer tipo de futuro.

A vila de Burin, no norte da Cisjordânia, já perdeu mais de 16 mil oliveiras por esses tipos de ataques nos últimos anos. Ativista e coordenador da Cooperativa Land and Farming Association de Burin, Ghassan Najjar nos contou na viagem que 75% do território da vila é controlado por colonos e pelo exército israelense, e 90% do seu território faz parte da Área C na Cisjordânia.
Isso faz com que a vida e o trabalho fiquem fragmentados e totalmente submetidos ao controle da ocupação. A vila é cercada por três assentamentos ilegais: Har Bracha, fundado em 1982; Yitzhar, fundado em 1984 e Givat Ronen, fundado em 1999. Mas ainda assim, eles resistem e buscam a partir da coletividade soluções para seguir resistindo.
A Burin Land and Farming propõe um sistema econômico que defende a coletivização dos recursos naturais e das terras palestinas, não reduzindo seu cultivo a uma lógica de produtividade. Liderada por nove mulheres e seis homens, a cooperativa partilha de ideais socialistas, não utiliza químicos nem agrotóxicos em suas plantações, e articula um trabalho voluntário nas terras de Burin.
Destinam 15% de sua produção para famílias vulneráveis de Burin e arredores, e parte de sua arrecadação também é destinada para apoiar trabalhos sociais na vila, como por exemplo o projeto recém lançado de construção de uma biblioteca para crianças. Para além da dimensão material do trabalho agrícola, a cooperativa se empenha no fortalecimento da soberania alimentar e na construção de autonomia. Enquanto apresentava a cooperativa, Ghassan disse:
“Entendemos que é importante ter tempo para trabalhar como voluntário na nossa própria vila, como uma pessoa que realmente sente a liberdade dentro de si e sente que precisa mudar algo. É o que sempre dizemos, se você não mudar a você mesmo, você não mudará seu país. Como isso funciona? Se você não sentir por outras pessoas, ninguém vai poder sentir por você (...) Por isso, nós criamos um time de voluntários aqui, para trabalhar corpo a corpo, para governar nossa vila, sem esperar a chegada de ONG’s estrangeiras, por exemplo, para fazermos algo. (...) O mais importante é construir você mesmo. Porque, se não nos ajudarmos, temos que esperar alguém vir de fora pra fazer isso?” Ghassan Najjar, agosto de 2025.



As ações violentas de Israel contra o meio ambiente palestino integram o projeto mais amplo do colonialismo de assentamento, cuja forma de dominação busca interromper violentamente as relações das populações autóctones com seu meio ambiente. Dessa maneira, buscam fraturar as relações dessas comunidades no território, fazendo da resistência um processo que também deve reconfigurar a organização em coletividade.
O racismo colonial nesse sentido opera tanto na intencionalidade da violência como na indiferença, na desumanização, o que nos leva a pensar a importância da solidariedade internacional dado esse contexto.
Nesse período, os palestinos pedem a presença de ativistas internacionais para apoiá-los e fazer frente a violência da ocupação, abrindo campanhas e chamados para que mais pessoas façam parte desse momento, não só para enfrentar a violência e constranger a ocupação em seus assédios, mas para redefinir significados de solidariedade.
Diferentemente da presença internacional que pode tentar ditar o destino das vidas palestinas, a relação aqui é do protagonismo palestino nas demandas e na gestão de suas próprias vidas. Esse também é um chamado de lembrança para internacionalização das lutas, na perspectiva da co-resistência.
“Você vem para nos ajudar, trocar experiências, não para construir no nosso lugar. Solidariedade internacional não significa que você vai vir aqui para ser atacado pelos colonos e eu fico ali declarando: ‘Ai, ele foi atacado porque me ama’. Não, isso não é realmente solidariedade para nós. Solidariedade significa trabalhar lado a lado pela liberdade.” Ghassan Najjar, agosto de 2025.
Volto a pensar portanto na palavra colheita certamente como algo menos dado ou natural, mas como uma prática ativa de resistência, um esforço coletivo de libertação e uma crença profunda e inegociável na liberdade. Se ano após ano queimam suas plantações, ano após ano palestinos e palestinas voltam a plantar. É a sumud palestina, sua persistência firme e incansável.
A ativista e pesquisadora palestina sobre o clima, Manal Shqair, trabalha na ideia da eco-sumud, na compreensão de que apesar das mais de sete décadas de expropriação colonial e violência, os palestinos têm sido capazes de enfrentar com firmeza, as tentativas israelenses de destruir o conhecimento e as habilidades que utilizam para manter um vínculo sustentável com o terra.
Entende a sumud ecológica como uma poderosa “contraprática ao colonialismo ecológico israelense, ao mesmo tempo em que informa uma contra-narrativa aos esforços de Israel em fazer greenwashing para encobrir seus crimes contínuos contra o povo palestino” (SHAQIR, 2024).
Nesse sentido, entendemos que a luta pela justiça climática e a luta do povo palestino pela autodeterminação estão intrinsecamente ligadas. A busca pela soberania alimentar nos Territórios Palestinos Ocupados, por exemplo, é inseparável da busca pela autodeterminação palestina e pela justiça social.
O colapso da Palestina é o colapso do mundo
O mesmo mundo que se prepara para a COP [Conferência das Partes da Convenção — Quadro das Nações Unidas sobre Mudança no Clima] 2025, momento decisório que reúne delegações de quase 200 países, é o mundo que assiste a destruição sistemática da Palestina em seu crescimento exponencial e devastador.
Nem Gaza nem o que ocorre na Cisjordânia são episódios locais, mas uma advertência universal sobre o futuro do capitalismo e suas lógicas coloniais de produtividade. Concentrando praticamente todos os sufixos “ídios” que existem, a Palestina simboliza não só a incapacidade como população global de frear a destruição, mas a cumplicidade para tal.
Andreas Malm (2024) nota um paralelismo entre por exemplo a própria COP e os “processos de paz” no contexto palestino. De alguma maneira, tanto a COP como esses processos sustentam a ilusão de que a chamada comunidade internacional estaria trabalhando para mitigar as mudanças climáticas, no primeiro caso, e para conferir aos palestinos seu próprio Estado, no segundo. Talvez um mesmo baile de rituais de diplomacias esvaziadas, numa aposta que acoberta a continuidade da destruição.
Esse padrão histórico da paz parece se repetir neste mesmo outubro de 2025. Longe do ideal, há um horizonte de cessar-fogo em Gaza, no sentimento entre o estranho alívio e a continuidade do engano. O que mudará estruturalmente? Qual poder de decisão dos palestinos sobre suas próprias vidas? Veremos uma desaceleração temporária e não garantida do genocídio em Gaza, mas a continuação do processo de limpeza étnica em outros níveis? Planos de cessar-fogo forâneos sem dúvida podem ser importantes para estancar a sangria, mas inauguram novas fases nebulosas. Perante a performance das soluções dos “de cima”, quais outras respostas estão sendo dadas nos territórios?
Um bom início de horizonte é a lembrança de que se tem algo que os palestinos nos demonstram, que populações originárias nos contam, é que o território não diz respeito a um pedaço de terra apenas. Entendemos território aqui além do espaço geográfico, mas como as redes formadas a partir de existências compartilhadas, de relações entre natureza, pessoas, suas ações, os conflitos e as estratégias de sobrevivência que ali ocorrem.
A chave que freia a destruição, da Palestina e do planeta, está no respeito à memória da terra que nos informa sobre como cuidar do futuro
É essa dimensão prática e simbólica das relações sociais que são exercidas num território que propriamente o definem. Isso nos informa um horizonte comum, carregado de um lugar de cuidado com a memória e com a ancestralidade. Num solo neoliberal de entendimento de mundo, essas redes de relações de um espaço ficam absolutamente descartáveis e fraturadas: tudo pode ser removido, tudo e todos podem ser facilmente deslocados e substituídos.
A violência da ocupação busca a todo custo que os palestinos queiram sair dali. Não é apenas sobre exterminar, mas fazer da vida cotidiana algo insuportável a ponto de ninguém querer sobrar ali. Contudo, justamente por território significar tanto além de um pedaço de terra, é que os palestinos não saem.
Quando Khitam Najjar, agricultora de Burin, diz que “As oliveiras são a nossa herança, as oliveiras são as nossas raízes”, o que nos diz é que a chave que freia a destruição, da Palestina e do planeta, está no respeito à memória da terra que nos informa sobre como cuidar do futuro.
Chaves de destruição também abrem portas de solidariedade
Em junho, a convite da Editora Periferias, mediei um encontro entre Alessandra e Yasmim Moja, lideranças da luta por moradia da Favela do Moinho em São Paulo, e Zukiswa Wanner, escritora e editora sul-africana conhecida nas publicações e edições da Periferias. Na ocasião do lançamento da nova edição do livro Relatos da vida sob estado de apartheid, na sede da Ação Educativa, conversávamos sobre as tantas interseções entre o Moinho, a Palestina e a África do Sul, entre apartheids e resistências.
No começo de setembro, Alessandra e Yasmim foram presas em uma operação do governo do Estado de São Paulo, que deixou nítida sua motivação de criminalizar a mobilização e a luta social da Favela do Moinho. Poucos dias depois, Zukiswa, que estava em uma das embarcações da Flotilla Global Sumud a caminho de romper o cerco de Gaza para ajuda humanitária, foi presa pelo Exército Israelense. Semanas depois, Ghassan teve sua casa invadida pelo Exército Israelense, seu carro apreendido e segue tendo dificuldades para encaminhar dezenas de voluntários internacionais que vieram para a colheita das oliveiras.
Parece necessário sublinhar, ainda, que estas não são coincidências. Fazem parte de projetos de poder que, sustentados no capitalismo, usam da violência do Estado para criminalizar os movimentos sociais e enfraquecer resistências. Nesses projetos, territórios devem ser sinônimos de lucratividade — claro, para alguns poucos.
Os moradores da última favela que resiste há quase 50 anos no centro da cidade de São Paulo não interessam tanto quanto a especulação imobiliária da região. A solução então é criminalizar aquelas que lutam por direitos de moradia, nem que seja o mínimo de dignidade no seu processo de saída.
Um grupo que busca romper um blqueio ilegal e entregar ajuda humantária para os palestinos em um verdadeiro campo de extermínio como Gaza é um grupo que precisa ser criminalizado em todos os ângulos possíveis. O coordenador de uma cooperativa agroecológica, que já foi preso por plantar tomates, que já passou ao todo nove anos de sua vida encarcerado, precisa ser interceptado. São projetos comuns que se impõem com estratégias e gestos de repressão a todos aqueles que fogem ao roteiro da subserviência e da submissão.
Finalmente, cuidar das oliveiras não é apenas cuidar das oliveiras. É o atestado de existência de um povo que comunica a insistência teimosa em viver. Os palestinos colhem assim sentidos da dignidade, da coletividade e pegam com as mãos o passado para dar algum lugar para o presente e para o futuro. Quando Ghassan me diz “Acreditamos que é importante que a gente se veja como uma árvore, uma oliveira unida à terra”, entendo que a natureza é chave de compreensão da própria vida em coletividade. Cuidar das oliveiras é sobre cuidar de si mesmos.
Cuidar das oliveiras não é apenas cuidar das oliveiras. É o atestado de existência de um povo que comunica a insistência teimosa em viver
No meu retorno ao Brasil, precisei passar por uma extensa revista no aeroporto israelense. Mesmo com todos os meus privilégios para estar ali, fui encaminhada ao penúltimo nível de “periculosidade” para poder sair daquele lugar. Depois de mais de cinquenta minutos vasculhando minha pequena mala — tímida de artigos palestinos, mas contendo uma garrafinha de 100 ml de azeite das olivas de Burin —, me colocaram diante de uma máquina para escanear as solas dos meus sapatos. Tecnicamente, ela deveria detectar se eu havia pisado ou não em solos com bombas ou vestígios de explosivos.
Respirei fundo, depois de uma longa viagem, e pisei. Pensava: de fato, não pisei em bombas. Pisei nos solos milenares das oliveiras, solos de resistência, de solidariedade e da generosidade das palestinas e dos palestinos que encontrei. Pisei em terras de uma liberdade tenaz, ainda que se esforcem muito para que acreditemos no contrário. Fui liberada logo em seguida, e não disse nada disso em voz alta.
Fato é: se há algum vestígio nos meus sapatos, são os de não deixar de compartilhar, nem por um segundo, que a Palestina vive; que a Palestina viverá sua libertação e é mais forte do que qualquer projeto supremacista que tente apagá-la. Não em meu nome, não em nome de ninguém. A Palestina será livre, o Moinho será livre, e as águas deste planeta voltarão a navegar sonhos e horizontes mais comuns, mais possíveis, de justiça e de liberdade para todos.
BAROUD, Ramzy. “Uma história de engano.” A Terra é Redonda, 12 de outubro de 2025. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/uma-historia-de-engano/
BURIN Film. 2025. Disponível em: https://youtu.be/VYwpFV670EA?si=0QueB_1HVog6znSg
Dolce, Julia. Fome em Gaza não é política pontual: entenda como há décadas Israel viola a soberania alimentar palestina. O Joio e o Trigo, 25 ago. 2025.
HAMOCHENE, Hazam. Ecocídio, imperialismo e libertação da Palestina. Transnational Institute (TNI). Disponível em: https://www.tni.org/en/article/ecocide-imperialism-and-palestine-liberation?translation=pt-pt
MALM, Andreas. A destruição da Palestina é a destruição do planeta. São Paulo: Editora Elefante, 2024.
OHCHR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos). Comunicado de imprensa. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-relea
SHAQAIR, Manal. “Eco-Sumud and the Palestinian Struggle for Eco-Social Justice.” WRI-IRG, 2024. Disponível em: https://wri-irg.org/en/story/2024/eco-sumud-and-palestinian-struggle-eco-social-justice
Juliana Muniz | BRASIL |
É cineasta e pesquisadora. Mestre no programa de pós-graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP, investiga relações entre cinema, produção de memória e lutas por libertação e autonomia política. É integrante do coletivo Vozes Judaicas por Libertação, em São Paulo, e tem escrito sobre suas viagens à Palestina e aos territórios zapatistas na página sonhoeruina.substack.com