De volta pra casa
Preto Michel
| Belém, Brasil |
4 de dezembro de 2025
A madrugada caiu pesada sobre o barraco de dois cômodos, casa de Damasceno com a esposa, Joana, e os dois filhos pequenos. A chuva, tímida, rápida se transformou num vendaval barulhento, batendo forte no telhado de Brasilit, como se o céu despejasse toda a sua fúria sobre a rua estreita e mal asfaltada da periferia de Belém. Damasceno acordou com os pingos grossos entrando pelas frestas do telhado e água correndo pelo chão. Levantou rápido da cama, o coração acelerado, gritou:
— Joana! Acorda, mulher... a água tá entrando!
Joana, ainda sonolenta, foi abrindo os olhos para perceber o que acontecia, quando se levantou num pulo, o chão do quarto já coberto por água suja, avançando com velocidade pelo quarto.
— Meu Deus, Damasceno! As crianças! — ela gritou, correndo para pegar os meninos, que dormiam no colchão encostado na parede.
Damasceno puxou um balde para tentar conter a invasão, apenas para perceber o quanto era inútil. A enxurrada vinha com a força da rua, trazendo lama, lixo e o podre cheiro de esgoto aberto.
— Não adianta, Joana. Essa rua tá largada faz tempo... ninguém nunca fez nada. É sempre a mesma coisa quando chove.
Joana apertava os filhos contra o peito, tentando acalmar o choro de medo deles.
— E a gente? Vai perder tudo de novo, Damasceno? Até quando a gente vai viver desse jeito?
Ele respirou fundo, o rosto marcado pela revolta. Sentia um nó na garganta.
— O dia inteiro carregando cimento, trabalhando duro nessa obra pros ricos... e nem podendo dormir e descansar, vendo nossa casa assim, debaixo d’água. Parece até que a gente não tem valor nenhum.
Joana, com os pés já cobertos pela água gelada, encarou o marido.
— E se essa água sobe mais? A gente vai ter que sair daqui com as crianças no meio da chuva...
— Se for preciso, a gente sai. Mas não vou deixar essa enchente engolir o pouco que temos — disse Damasceno, firme, embora a raiva e a impotência lhe corroessem por dentro.
Do lado de fora, um rio de lama na rua, luzes dos postes piscavam, gritos vizinhos de desespero. Damasceno abriu a porta e viu a correnteza levando sacos de lixo, pedaços de madeira e até móveis que escapavam das casas mais frágeis.
Voltando para dentro, ainda resmungava enquanto tentavam salvar alguns móveis.
— Isso não é vida, Joana. Ninguém olha pra gente. A prefeitura só lembra dessa rua na época da eleição. Depois some todo mundo.
Joana, segurando os filhos, chorava baixo.
— Eu tenho medo, Damasceno... medo de perder essa casinha, por mais simples que seja.
Damasceno passou a mão molhada pelo rosto, sentindo o peso da madrugada. A chuva continuava, incansável, como se zombasse de sua resistência. E naquela noite, mais uma vez, a rua, a casa e os sonhos da família eram engolidos pela água.
O dia amanheceu cinzento, como se cansado de chorar o céu ainda carregasse o peso da noite anterior. Dentro do barraco, tudo encharcado: colchões molhados, roupas boiando no chão e o cheiro forte de lama misturado a esgoto. Damasceno, de pé desde cedo, ajudava Joana a escorrer a água com rodos e baldes, enquanto os filhos, ainda assustados, calados observavam num resto de canto seco.
— Vai dar oito horas, Damasceno… você já devia ter ido — disse Joana, com a voz cansada.
Ele passou a mão pela testa, suado, apesar do frio da manhã.
— Eu sei… mas como é que eu vou deixar vocês aqui desse jeito?
— A gente dá um jeito. Vai logo, senão vão descontar do teu salário.
Damasceno hesitou, mas pegou a mochila surrada e saiu apressado. A rua ainda era um lamaçal, vizinhos caminhavam com sacos de roupas molhadas nos ombros, alguns chorando, outros em silêncio. Ele correu para pegar o ônibus, que atolado no trânsito causado pela enchente, demorou quase uma hora para passar. Quando finalmente chegou ao centro da cidade, já passava das dez da manhã. No canteiro de obras, homens de capacete e botas trabalhavam erguendo estruturas metálicas, preparando o espaço para um grande evento internacional que reuniria políticos, empresários e turistas. O contraste entre a pompa que se planejava e a miséria da periferia ainda grudada em sua pele fez ferver o sangue de Damasceno.
— Olha quem resolveu aparecer! — gritou seu chefe, engenheiro Valadares, homem de meia-idade, barriga saliente e olhar arrogante. — Tá achando que isso aqui é brincadeira, Damasceno?
— Eu me atrasei, doutor… a chuva alagou minha rua, minha casa ficou debaixo d’água.
Valadares cruzou os braços e riu com desprezo.
— Sempre tem uma desculpa, né? Enquanto você inventa história, eu tenho prazo pra cumprir! Aqui vai ter ministro, vai ter televisão, e você acha que alguém quer saber da sua rua cheia de lama?
Damasceno respirou fundo, tentando conter a raiva.
— Não é desculpa, não. Eu passei a madrugada tirando água de dentro do meu barraco. Meus filhos acordaram chorando de medo. O senhor tem ideia do que é isso?
O silêncio dos outros operários era pesado. Todos ouviam, mas baixavam a cabeça, acostumados com o autoritarismo de Valadares.
— Ideia? — retrucou o chefe, levantando o tom.
— A única ideia que eu tenho é que você chegou atrasado e que, se não quiser perder o emprego, é melhor calar a boca e trabalhar.
Damasceno calou um pouco, o coração disparado. Por um segundo, pensou em largar tudo ali mesmo e mandar o cara para aquele lugar, mas a imagem dos filhos e de Joana apareceu em sua mente. Engoliu seco.
— Eu vou trabalhar, mas um dia o senhor ainda vai ter que ouvir a nossa voz — disse consigo mesmo, mas firme, encarando Valadares.
O engenheiro saiu, resmungando. Damasceno respirou fundo, pegou a pá e entrou na obra. Por dentro, porém, o peso da noite anterior e a humilhação daquela manhã se transformavam em algo novo: uma revolta que não queria mais se calar. No final da tarde, já de volta o ônibus sacolejava pelas ruas alagadas, demorando mais que o normal. Damasceno vinha sentado, mas parecia carregar uma tonelada nas costas. Os músculos doíam, a roupa ainda cheirava a umidade, e as palavras duras de Valadares ecoavam em sua cabeça como marteladas. Desceu perto de casa, e o coração apertou. A rua continuava um caos. Móveis jogados no meio da lama, colchões secando ao sol fraco, crianças brincando entre poças de água barrenta, sem perceber o perigo.
Ao chegar ao barraco, encontrou Joana estendendo roupas encharcadas em cordas improvisadas. Os filhos brincavam com pedaços de madeira que boiaram para dentro da casa. Ela ergueu os olhos e suspirou.
— Como foi o trabalho? — perguntou, já sabendo a resposta.
Damasceno largou a mochila num canto e sentou-se, cansado, olhando em volta.
— Foi como sempre. Pra eles, nossa vida não vale nada. Falei da enchente, mas o engenheiro riu da minha cara. Disse que ninguém quer saber da nossa rua, da nossa comunidade e do nosso bairro.
Joana baixou a cabeça, os olhos marejados.
— Parece que a gente é invisível.
Damasceno passou a mão no rosto, engolindo o cansaço e a raiva.
— Invisível até a hora do voto. Aí lembram da gente, prometem asfalto, drenagem, mas olha aí… Sempre do mesmo jeito.
Do lado de fora, ouviu-se o chamado de Dona Marta, vizinha antiga.
— Ô, Damasceno! Vai ter uma reunião aqui na frente de casa daqui a pouco. O pessoal quer conversar sobre o que aconteceu.
Ele se levantou devagar, curioso.
— Reunião?
— É, todo mundo perdeu alguma coisa nessa enchente. Ninguém aguenta mais. Acho que é hora de a gente se juntar e cobrar solução.
Damasceno olhou para Joana, que deu um leve aceno de concordância. Poucos minutos depois, estava na calçada junto de outros moradores. Havia rostos cansados, roupas sujas de lama, mas também um brilho de revolta diferente nos olhos, de quem não queria sofrer calado.
Um vizinho tomou a palavra:
— Se a gente não se unir, ninguém vai fazer nada por nós. Essa enchente foi a pior dos últimos anos. Quantas vezes vamos ter que perder móveis, comida, e quase perder nossas casas?
Dona Marta completou:
— Eu já fui três vezes na SESAN reclamar, e nada. Eles fingem que anotam, mas não voltam nunca.
Damasceno, até então calado, ergueu a voz:
— Ontem eu quase perdi tudo. Hoje, no trabalho, riram da minha situação. Riram porque, pra eles, a vida da gente não tem valor. Mas eu digo: se a gente gritar junto, eles vão ter que ouvir.
— Estou trabalhando em uma obra no centro que custou milhões, uma obra que não beneficiará ninguém das baixadas. Essa obra será para esse grande evento sobre o clima, mas eles não estão nem aí para o meio ambiente, e nós que sofremos.
Um burburinho se espalhou entre os vizinhos. Alguns acenaram com a cabeça, outros aplaudiram.
— Então vamos fazer barulho! — alguém gritou. — Vamos organizar um abaixo-assinado, vamos fazer uma caminhada com cartazes, fechar a rua principal e vamos chamar a imprensa.
Damasceno sentiu o peito arder, mas não de raiva — e sim de força. Pela primeira vez, não se sentiu sozinho no meio da lama.
E naquela noite, no lugar do silêncio de sempre, a rua encheu-se de vozes, cansadas mas firmes, que começavam a se transformar em luta. O ato estava marcado para o dia seguinte.
Damasceno e os vizinhos não ficaram só nas conversas. Às sete da manhã, ocuparam a principal rua da periferia. Barricadas improvisadas com pedaços de madeira, cartazes pintados em lençóis velhos e vozes ecoando o coro:
— “Queremos dignidade! Queremos respeito!”
— COP 30 para quem?
Joana estava lá com as crianças, Dona Marta distribuía café em garrafas térmicas, e jovens da rua batiam em latas como tambores. O protesto durou varou o dia, bloqueando o trânsito de ônibus e carros. No segundo dia, a imprensa local apareceu. Câmeras filmavam o chão encharcado, as casas destruídas, e os rostos indignados dos moradores. Damasceno, sem planejar, acabou sendo porta-voz:
— A gente tá cansado de viver com medo da chuva. Todo ano é a mesma coisa. E enquanto isso gastam milhões numa obra no centro, como se nós aqui não existíssemos.
No terceiro dia, a prefeitura não teve escolha. Uma reunião foi marcada. Prometeram estudos, canalização, asfaltamento. A comunidade ouviu, mas não baixou a guarda. Muitos ainda desconfiavam. Damasceno também. Naquela noite, voltou para casa com Joana e os filhos. Sentia-se diferente: não era mais apenas um pedreiro cansado. Era alguém que começava a acreditar na própria voz.
Dois dias depois, o céu voltou a se fechar. Relâmpagos riscavam a madrugada, e a chuva caía ainda mais forte que antes. Damasceno se levantou assustado, mas algo inesperado aconteceu: dessa vez, não foi apenas a periferia que sofreu. Eles tinham ido para a casa de sua irmã em um lugar mais alto, onde não tinha enchente. Outros moradores também se deslocaram, não tendo assim mais problemas momentâneos até a prefeitura cumprir com sua promessa.
No centro da cidade, onde os operários construíam a obra grandiosa para o evento climático, o sistema de drenagem recém-adaptado não suportou a enxurrada. Ruas alagaram, barracões desabaram, e a obra inteira ficou submersa. As imagens rodaram os jornais: a “Cidade Vitrine” virava lama diante dos olhos de todos.
Damasceno, ao ver a reportagem pela televisão na casa de sua irmã, sentiu um misto de indignação e ironia.
— Tá vendo, Joana? Eles ignoram a gente, mas até o centro tá pagando o preço. A água não escolhe bairro, estou triste e preocupado com meus amigos da obra, eles não têm culpa da ganância dos patrões.
— Égua homem, só deles que tenho pena, porque aquele arrogante do engenheiro que te demitiu quando te viu na TV um dia vai perceber o poder da natureza e vai começar a dar valor nas pessoas.
Na manhã seguinte, engenheiro Valadares, furioso com os prejuízos, deixou o canteiro de obras após uma reunião emergencial. Pegou a estrada rumo à casa de veraneio longe da cidade. O céu ainda trovejava. Entre curvas e buracos, a tempestade apertou. Relâmpagos cortavam o horizonte, e a enxurrada transformava o asfalto em espelho d’água. Num instante, um raio atingiu um poste à beira da estrada. O estrondo fez o carro de Valadares derrapar, que perdeu o controle e, em poucos segundos, a lama o engoliu ribanceira abaixo.
Seu fim foi noticiado no rádio naquela mesma noite. Para Damasceno, não houve alegria nem vingança, apenas um silêncio pesado.
— A chuva não perdoa ninguém — murmurou, olhando a rua ainda molhada diante do barraco.
No fundo, Damasceno sabia. Algo estava mudando. Não só mais nele, nem só em sua casa. Agora uma comunidade inteira resiste, disposta a lutar, se informar e se conscientizar sobre direitos e cuidado com o natural.
Preto Michel | BRASIL |
É escritor, poeta, ilustrador e quadrinista, editor gráfico e empreendedor negro periférico. Atuou como militante da cultura hip hop e movimento negro desde 1997. Começou sua caminhada como escritor em 2008 com a produção do Fanzine POESIA PRETA com publicações de seus contos e poesias. Em 2013 lançou seu primeiro livro de contos, O Assovio da Matinta Perera (Editora Cromos) na XVII Feira Pan Amazônica do Livro em Belém do Pará e no ano seguinte criou o selo literário LETRAS PERIFÉRICAS. Em 17 anos de carreira, o autor já lançou 18 obras literárias entre conto, poesia, terror, infantil, infanto juvenil e duas HQs. Em 2023 foi vencedor de dos prêmios literários: PRETAS POTÊNCIAS (PRETA HURB – SP) e OBRAS LITERÁRIAS E DE NÃO FICÇÃO — CATEGORIA LITERATURA PERIFÉRICA – (FCP Fundação Cultural do Pará). Em 2025 o autor participou do projeto ARTE DA PALAVRA organizado e produzido pela Rede SESC no Rio de Janeiro, Espírito Santos, Pernambuco, Minas Gerais e Paraná, quando lançou seu último livro de poesias O lutar é ancestral.