ensaios

periferias 10 | edição especial

foto: Márcia Faria

Corpo-método periférico: formar, organizar e agir

Somos ou não cidadãos de direitos?

Cleber Ribeiro e Arthur Pedro

| Brasil |

5 de dezembro de 2025

Identificar os atuais desafios e potencialidades dos movimentos de base territorial das periferias na luta por direitos é ponto fundamental para interpretar e transformar a realidade de nosso país. Movimentos sociais de base territorial são formas de organização coletiva nos níveis local e comunitário, em articulação com agendas nacionais e internacionais de luta. Tais movimentos são caracterizados por sua natureza participativa de atuação territorial em rede — orientada para e pela base da sociedade. Ou seja, são liderados e impulsionados por grupos diretamente afetados pelas desigualdades, pela falta de oportunidades e que, por isso, lutam por direitos básicos.

Uma vez destituídas de direitos — e, com isso, dos instrumentos hegemônicos para sua garantia —, as pessoas que integram movimentos sociais de base nas periferias têm seu corpo como instrumento primeiro de luta. Assim, olhar para o processo de luta de grupos sociais historicamente marginalizados é, sobretudo, observar seus corpos realizando diferentes movimentos organizados na luta pela vida.

No Brasil, são diversos os períodos históricos de dominação em que a população, formada majoritariamente por pessoas pretas e faveladas, não tem garantida sua vida, em benefício de um modo de existência privilegiado de um pequeno grupo de pessoas brancas.

O sistema colonial escravocrata, patriarcal e patrimonialista estabelecido no Brasil desde 1550 demonstra como o Estado legitimou arranjos societários orientados para a defesa dos interesses de um grupo hegemonicamente branco e dominador. Com base neste marco, presenciamos diversos períodos históricos em que pessoas pretas, indígenas, mulheres, empobrecidas, têm seus corpos colocados a serviço de interesses de grupos socialmente dominantes, por meio do controle da subjetividade, de identidade, memória e território.

Com isso, a questão comum a tais pessoas ainda exploradas em suas vidas é: Somos ou não cidadãos de direitos? Ao observar sua própria realidade imediata, de sua família e vizinhos, a resposta é: Não! Ainda não nos tornamos cidadãos de direitos. Essa resposta provoca outra questão central: Então, o que somos?

De forma individual, coletiva e territorial, a partir das atuais estruturas, identificamos as origens da condição de não cidadãos de direitos. Somos corpos hegemonicamente negros, indígenas, empobrecidos e em luta por direitos. Somos moradores e moradoras das favelas e comunidades urbanas.

Tal tomada de consciência produz um fluxo histórico de produção e conexão com a identidade de grupo territorializado. Como diz o provérbio africano: “Quando não souber para onde ir, olhe para trás e veja de onde veio”. O movimento de reflexão sobre nossas identidades nos insere numa perspectiva de passado e presente, para vislumbrar futuro. Esse caminho de busca nos coloca, pessoas moradoras das favelas e comunidades urbanas, diariamente em confronto com múltiplas desigualdades que implicam tomada de decisão.

Foto: Michelle Gomes

1º dilema: Lutar ou não lutar por nossos direitos? 

Se somos pessoas historicamente excluídas de direitos básicos — necessários para a condição de cidadão — devemos ou não lutar por nossos direitos? É justamente a partir desse dilema que afirmamos nosso desejo de viver — condição apenas possível por meio da luta.

A constatação da ampla desigualdade no acesso aos direitos — educação de qualidade, capital social em instituições do Estado, segurança alimentar e nutricional, moradia e trabalhos dignos, garantia de segurança pública, ócio para lazer – nos leva a encarar o 2º dilema.

 

2º dilema: Como lutar? 

A resposta foi e ainda vem sendo dada pela organização das pessoas em movimentos sociais — o núcleo da família, a vizinhança, coletivos, associações locais —, articulados em rede e fora das instituições do Estado.

As formas de organização de luta são diversas e refletem as formas de organização do povo, em período e território específicos. As associações de moradores, por exemplo, representam um expoente da década de 1960 de movimentos comunitários de representação territorial para organização da comunidade — uma manifestação das pessoas no território colocando seus corpos em movimento de luta por direitos, a partir das formas de organização que se mostravam pertinentes naquele contexto.

 

Qual o lugar da educação (popular) na luta? 

A educação precisa ser ferramenta que viabilize a transformação, a revolução de sujeitos oprimidos em pessoas de direitos. Os corpos, desejosos de serem aquilo que está distante da lógica de dominação, buscam, portanto, meios de se libertarem.

Se compreendemos que é a luta por direitos que possibilitará a esse ser consciente de si tomar a direção para aquilo que deseja, precisamos refletir sobre como os processos de educação são importantes para essa libertação dos corpos.

A educação popular, nesse sentido, se constitui como uma ferramenta de promoção de leitura e transformação da realidade. Será a partir de metodologias dialógicas e libertárias que novas narrativas e leituras de mundo, novas perspectivas e novos saberes serão produzidos.

O método de educação popular dos movimentos sociais de base das periferias urbanas insere e convence as pessoas em movimento, a partir da leitura de seu contexto sócio-histórico, que lutar é necessário.

 

Metodologia de organização de corpos em movimentos de luta por direitos

Estratégias individuais e coletivas de reorganização produzem estruturas de luta por direitos. Os corpos em movimento, historicamente, constroem novas formas de vivência em sociedade.

Para caracterizar o movimento de luta, é preciso que o processo de tomada de consciência seja provocado na ação. É a partir da consciência de sua condição de explorado que o sujeito se coloca no fluxo de investigação, em ato de pensamento e ação, na própria realidade, depara-se com seus próprios dilemas e, a partir disso, decide se colocar em constante luta por seus direitos.

É esse processo de leitura da realidade e ação que permite à pessoa confrontar narrativas dominantes, reconstruir conceitos, promover novas inquietudes e construir reflexões — o que chamamos de Formar. Essa é a experiência inicial de redirecionamento do corpo para a superação de suas dominações.

Dadas a leitura da própria realidade, a análise dos contextos históricos de luta e a conexão com novas reflexões, é preciso sistematizar os caminhos para atuação. Esse processo de redirecionamento do corpo na contramão das estruturas de dominação que precariza vidas, chamamos de Organizar. Nele o sujeito é provocado a reconhecer, em aspectos práticos, os elementos que contribuam para a conquista de direitos e sobretudo, como estruturar a luta.

Colocar o corpo e o método a serviço da luta por dignidade humana, bem viver e libertação, é produzir esperança coletiva

A tomada de consciência e organização dos processos para a luta por direitos nos convoca para a prática. Agir é existir para a luta. Nessa experiência, os corpos produzem a luta, como manifesto vivo de existência, por novas possibilidades para as suas realidades. Viver, manter o corpo em movimento, promover afetos, encontros, e produzir novas narrativas fazem da existência o caminho e a possibilidade para atuação sobre a própria realidade, para a liberdade, e conquista de direitos.

Esse estado de existência — situado em um contexto e em direção a algo, produzido por afetos, dilemas e sentidos que, instrumentalizados ou não, permitem uma leitura da realidade confrontada pelos dilemas existências — permite que o sujeito redirecione o seu corpo para aquilo que produza dignidade humana para si e para sua comunidade, é o corpo-método.

Colocar o corpo e o método a serviço da luta por dignidade humana, bem viver e libertação, é produzir esperança coletiva.

 

Experiências de formação na Uniperiferias

A Universidade Internacional das Periferias nasce dentro de uma das maiores periferias brasileiras, a Favela da Maré, no Rio de Janeiro. Atuar no desenvolvimento de uma rede internacional dedicada à formação de sujeitos, produção de conhecimentos e de ações que visibilizam e fortalecem as potências das periferias, com a perspectiva da construção de cidades mais democráticas e sustentáveis é, também, produzir transformação social a partir das periferias.

Ao longo de sua trajetória institucional, a Uniperiferias construiu uma série de programas que produzem, sistematizam e difundem o saber das periferias, com o compromisso de contribuir com novas narrativas periféricas.

Formar, Organizar e Agir, metodologia da frente de formação política Seja Democracia, é o processo estratégico educacional para o direcionamento dos corpos em movimentos de luta por direitos.

Para além da formação política, dentro dos eixos de atuação institucional, o Paradigma da Potência, interpreta nas periferias uma fonte de inovação e transformação de toda a sociedade. Pesquisas, como o ciclo “Pesquisadores da Educação (2019 – 2024)”, que produziu a publicação de artigos de pesquisadores da área de educação em escolas públicas do estado do Rio de Janeiro, ampliam as potencialidades de narrativas de sujeitos do conhecimento em territórios periféricos.

As reflexões sobre sujeito e território, com o apoio de iniciativas comunitárias em diversos estados do País, reforçam a perspectiva de que em rede se constrói possibilidades significativas, mas é o corpo que vivencia as demandas que podem produzir incidência. O edital “Potência das Periferias” promoveu justamente esse apoio a lideranças e iniciativas locais para promoção de novas possibilidades comunitárias.

A produção de vivências, seja a partir de residência acadêmica, ou de giras de reflexão e saberes, como as giras de estudos culturais e a produção de contra narrativas estéticas e de cultura, promove manifestações, leituras e sentidos que provocam nos sujeitos experimentações e afetos que despertam novas dimensões de saberes.

Produção, sistematização e difusão de saberes, das periferias para as periferias. Seja nas dimensões de formação, vivências ou investigação, a Uniperiferias promove o encantamento de mentes e corações para o saber nascente em favelas, centros urbanos, quilombos e aldeias, do Brasil e do mundo.


 

Cleber Ribeiro | Brasil |

é diretor da Uniperiferias. Geógrafo, mestre em Educação e doutorando em Geografia, também atua como professor de geografia no Pré-Vestibular Comunitário da Rocinha, contribuindo para a formação crítica e cidadã de jovens e adultos das periferias.

Arthur Pedro | Brasil |

É cria da Maré. Pedagogo e Mestrando em Educação pela UFRRJ, com ênfase em políticas educacionais e desigualdades sociais, atua como coordenador do Eixo de Formação da Uniperiferias.

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