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periferias 4 | escola pública: potências e desafios

ilustração: Photo: Tamer Institute for Community Education | مؤسسة تامر للتعليم المجتمعي

Repensando desafios da educação sob ocupação

Rasha Alshakhshir

| Palestina |

Resumo

A educação na Palestina resiste a vários conflitos e restrições decorrentes da ocupação israelense. Professores e estudantes têm sentido o impacto de desvantagens e vulnerabilidade causados pelas complexidade desse contexto, o que fez criar uma situação de restrição de acesso aos equipamentos de educação para muitos. Entretanto, a educação é um dos elementos chave com a qual Palestinos podem contar para perseguir a liberdade e se emanciparem dos conflitos. Uma série de movimentos de base reconhecem a importância da participação de estudante e professores no processo educacional por uma educação democrática capaz de empoderar a voz, emancipar mentalidades e  permitir o pleno exercício de direitos da Palestina.

Palavras chave: Educação sob ocupação; vulnerabilidade; educação emancipatória; repensar o objetivo da educação

Tradução
Daniel Stefani

A educação sob a Ocupação

Desde 1984, professores e estudantes palestinos enfrentam uma série de desafios causados pela ocupação israelense, tanto de ordem política, econômica e cultural. Sem desconsiderar as violações de direitos humanos que, por sua vez, prosseguem e intensificam uma realidade em que terras de palestinos são fragmentadas e, ainda, um problemático status econômico e político mantém muitos palestinos abaixo do nível da pobreza. É alta a evasão escolar por parte de estudantes que deixam a escola, tanto para trabalhar quanto para casar, realidade especialmente verdadeira para garotas no ensino equivalente ao de nível médio. Famílias temem pela própria segurança, pelos ataques de colonos, e pelos postos de controle e  dificuldade de transporte e mobilidade. Esses fatores impedem que palestinos e palestinas exerçam seus direitos plenamente.

Subjugados a diferentes níveis de conflito e a limitações quanto ao acesso a direitos, palestinos são privados particularmente do direito à educação. Professores e estudantes palestinos enfrentam desvantagens e condições de vulnerabilidades relacionadas ao território, exposição à violência, fatores econômicos, institucionais e políticos, assim como convenções socioculturais (UNDAF, 2017). São fatores relacionados à educação que, frequentemente, restringem o acesso de estudantes às escolas - efeito agravado pela condição de desigualdade e pela falta de políticas de inclusão, especialmente para estudantes com dificuldades de aprendizagem.

Vulnerabilidade à luz da Ocupação

Um discurso a respeito da “vulnerabilidade” tem ganhado proeminência em discussões de direitos humanos e bioética que se relacionem à espaços de poder, designando partes como "vulneráveis" de acordo com categorias e presunções.  Mais ainda, o contexto da Palestina ocupada tem feito com que exagerassem da vulnerabilidade de professores e estudantes palestinos. De acordo com o documento da ONU "common country analysis", todos palestinos estão relativamente vulneráveis em razão da ocupação, muito embora alguns se encontrem sistematicamente mais suscetíveis e vulneráveis que outros. A UNESCO identificou vinte grupos que apresentam formatos recorrentes de vulnerabilidade: "garotas adolescentes; mulheres expostas à violência de gênero; insegurança alimentar em domicílios chefiados por mulheres; obstáculos de acesso de crianças às escolas; trabalho infantil forçado; sujeição de crianças à violência; crianças; juventude; população idosa; comunidades na Área C; Beduínos e comunidades nômades na Área C; moradores e moradoras de Gaza desprovidos de água potável e saneamento básico; residentes de Hebron H2; pessoas vivendo na zona de costura, pessoas com deficiência; indivíduos com urgência de tratamento médico; refugiados em condição de pobreza abjeta;  residentes em campos de refugiados; pequenos agricultores; comunidades nômades não-beduínas; pescadores; e trabalhadores empobrecidos" (UNESCO, 2016 p.43). 

Desafios para uma educação emancipatória

A educação, apesar de elemento-chave para a emancipação da ocupação e para nos libertarmos de traços coloniais e conquistarmos autodeterminação e soberania para  palestinos, exerce  papel considerável na produção e reprodução de modos coloniais, pensamento e aspirações pós-coloniais, uma vez que escolas podem reproduzir ambiente ideológico para a reflexão de filosofias e agendas dominantes (Said, 1994). O escopo desse discurso também afeta outros aspectos da educação: políticas, currículo e abordagens pedagógicas.  

Como parte do discurso palestino, Edward Said criticou o rótulo "pós-colonial", argumentando, por outro lado, sobre os efeitos decorrentes das práticas discursivas costumeiras e da prática colonial nas populações em condição de vulnerabilidade e desigualdade. Said explica a relevância do poder colonial nos méritos identitários, de representação e intercâmbio cultural - os quais contribuem para o aperfeiçoamento da compreensão da "conhecimento-poder" diante dos problemas da educação (Rizvi e Lingard, 2006).

À medida em que o imperativo econômico e a globalização afetam políticas e práticas no Sul Global, palestinos se encontram, como cidadãos, impelidos a preencher as lacunas e privações no setor econômico, pautando mudanças para que o desenho do sistema educacional se encaixe no mercado e contribua para a construção da capacidade do Estado. A visão geral dessa situação tão complexa revela lacunas nas políticas e na prática que afetam professores e estudantes, relacionadas, em especial, à barreiras para a adoção de atitudes contra o estigma e a discriminação.

Foto: Tamer Institute for Community Education | مؤسسة تامر للتعليم المجتمعي

Repensando a educação e mudando mentalidades

A configuração descrita afeta o objetivo e propósito da educação, por se tratar, segundo hooks, de "empoderamento, libertação, transcendência”; aprender a se engajar plenamente no presente, e nos compreendermos como parte do mundo em que vivemos (p. 43), e não receber informações e preparo para trabalhos. hooks também descreveu como as consequências das práticas em instituições escolares enfraquecem o processo de democratização da educação, desencorajando uma aprendizagem ativa para estudantes, fazendo perder a alegria da aprendizagem e tornando a educação repreensiva e opressiva - o que faz ampliar divisões de classe e gênero.

Historicamente, a prática pedagógica das escolas palestinas tem sido centrada no professor. A aula expositiva é o principal método adotado, e estudantes devem memorizar o material curricular. Carteiras na sala de aula são dispostas em fileiras, e a circulação e liberdade para conversa são controladas e minimizadas. Estudantes tidos como "excelentes" recebem maior atenção, enquanto outros são negligenciados. Isso reduz a capacidade de atender às necessidades individuais de cada aluno e de alcançar o direito à igualdade de oportunidades de aprendizado. (Al-Ramahi and Davies, 2002)

Infelizmente, esse sistema e projeto educacional foram implementados após o mandato britânico na Palestina, como parte da política colonial nos países colonizados. Apesar da presença de métodos educacionais inovadores e libertadores, como o de Khalil Sakakini, conhecido por seu modelo educacional de descoberta, pela caminhada, da natureza na Palestina - com estudantes circulando por vilarejos e colinas, como parte das atividades curriculares - os sistemas de caráter colonial foram mantidos. Construído a partir da cultura e natureza árabe e palestina, esse currículo envolve processos de aprendizagem que abraçam experiências de vida e conhecimento (Sukarieh, 2019).

A pedagogia de ensino existente falha em apoiar o pensamento crítico e a conscientização estudantil sobre a própria situação e aspirações. Portanto, desenvolver uma compreensão sobre o objetivo da educação deve ultrapassar portões de escolas, desenvolver filosofias, abordagens e pedagogias que possam ser utilizadas como práticas eficazes de educação emancipatória, mudando a lógica vigente  e aceitando  novas percepções de liberdade.

Entretanto, não podemos negligenciar o poder por trás de atividades curriculares e educação informal que professores palestinos poderiam utilizar para a criação de espaço de diálogo para o engajamento democrático, aumentando a conscientização e explorando diferentes entendimentos diante das limitações de professores. A importância da educação emancipatória para Palestinos é advogar pela compreensão e desafiar as forças sociais e políticas que desempoderam. 

Foto: Tamer Institute for Community Education | مؤسسة تامر للتعليم المجتمعي

Acolhendo a mudança

Recentemente, muitos movimentos populares têm reconhecido a necessidade das práticas emancipatórias como resposta à repressão israelense e às restrições de provisão da educação implementadas a primeira Intifada, antecipando e aprofundando a consciência política, e buscando mobilizar ações para uma sociedade mais socialmente justa. O foco dessas iniciativas está nos modelos emancipatórios e abordagens de aprendizagem e ensino, encorajando professores(as) a utilizarem mais das intervenções participativas e do  engajamento entre as comunidades, estabelecendo novas compreensões de cidadania, assim permitindo que estudantes acessem o potencial que lhes é proposto.

Ações por uma educação Palestina emancipatória foram descritas por Ramahi (2015), em nove organizações diversas e iniciativas individuais: Tamer Institute for Community Education,  Salamn Halabi ForumTeacher Creativity Forum, Afkar for Educational and Cultural Development, Campus in Camps,  Ziad Khaddash,  American School in Palestine, FilastiniyateAshtar Theatre.

Essas iniciativas e programas oferecem vários métodos e abordagens, desde programas que defendem a educação comunitária,  a fóruns, debates, projetos sociais, jornais de participação juvenil, e escola de teatro para grupos em condição de desigualdade, sem acesso à equipamentos e serviços. A iniciativa também oferece programas para que professores viabilizem transformações nas condições de ensino das escolas, associando teoria à ação, pela prática. Intervenções comunitárias também garantem a participação equitativa de mulheres e juventude palestina, com o aprofundamento da conscientização, emponderamento e protagonismo.

Enquanto o sistema educacional palestino sofre de várias lacunas em currículo, políticas e práticas, esses programas e projetos têm o potencial de criar ambientes que valorizem a participação estudantil e   desenvolvam o pensamento crítico - especialmente quando estendido à educação formal, alcançando, e influenciando, a maioria dos professores e estudantes pela Palestina. Sinaliza, no contexto palestino, para o desenvolvimento e aprofundamento de diretrizes em políticas, bem como para inovação nas práticas pedagógicas. 

 

Original em inglês

Al-Ramahi and Davies (2002) 'Changing primary education in Palestine: Pulling in several directions at once', International Studies in Sociology of Education, 12(1), pp. 59-76.

bell hooks. (2003) Teaching Community, Pedagogy of Hope. Routledge, London.

Ramahi, H. (2015) Education in Palestine: Current Challenges and Emancipatory Alternative: Rosa Luxemburg Stiftung. Available at: http://www.rosaluxemburg.ps/wp-content/uploads/2015/11/RLS-Study-29.11.15-final.pdf.

Rizvi and Lingard (2006) 'Edward Said and the Cultural Politics of Education, Discourse', Studies in the Cultural Politics of Education, 27(3), pp. 293-308.

Said, E. W. (1994) Culture and imperialism. London: Vintage.

Sukarieh, M. (2019) 'Decolonizing education, a view from Palestine: an interview with Munir Fasheh', International Studies in Sociology of Education, 28(2), pp. 186-199.

UNDAF (2017) United Nations Development Assistance Framework State of Palestine 2018-2022

Available at: https://www.undp.org/content/dam/papp/docs/Publications/UNDP-papp-research-undaf_2018-2022.pdf.

UNESCO (2016) Common Country Analysis 2016 :“Leave no One Behind: A perspective on Vulnerability and Structural Disadvantage in Palestine”. Available at: https://unsco.unmissions.org/sites/default/files/cca_report_en.pdf.

 Pictures:

 Pictures (1 & 3) Obtained from online source: https://www.tamerinst.org/en/content/reports/46.

Picture (2) Obtained from online source: https://www.mintpressnews.com/israel-forces-destroy-palestine-school-day-before-classes-begin/231275/.

Rasha Alshakhshir | Nablus, Palestina |

Foi professora na escola Pioneers Montessori, em Nablus; trabalhou como Diretora no departamento Montessori no Palestinian Child Institute, além de lecionar na Najah National University. Doutoranda na Universidade de Dundee

r.alshakhshir@dundee.ac.uk

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