Cria da Periferia

periferias 6 | raça, racismo, território e instituições

foto: Márcia Farias

Bira Carvalho

em memória

| Maré, Rio de Janeiro, Brasil |

Bira Carvalho foi editor de fotografia em nossa revista Periferias. Foi decisivo, e continuará a ser. Esta singela homenagem, que não é uma despedida, é um encontro; ou melhor, uma espera de reenlace.

Desde a primeira edição da revista, O paradigma da potência, despontava na sua capa uma foto provocante em que no céu emergia uma intricada rede de fios de eletricidade da favela, afigurada em planos duplicados e transversais. Longe do enigmático, a imagem revela a potência estética da favela e do ato criador do seu autor. Assim inauguramos a revista Periferias  — com o signo criativo de Bira Carvalho.

Com o Imagens do Povo, teceu o primeiro e segundo ensaio fotográfico da revista, Escritos Visuais. Publicou, na Periferias 2, Democracia e Periferia, o ensaio COMUM em movimento.

Bira prospectava, estudava, propunha e dialogava com fotografias e fotógrafos. Sempre exigente com as leituras das favelas e periferias por meio das imagens, Bira queria a favela em sua dignidade plena, mesma com a mais dolorosa das fotografias. Não era possível perder a fibra das existências plurais dos territórios populares, Rio de Janeiro e Brasil afora. Em Periferias 3, Experiências Alternativas, Bira reuniu e articulou uma rede de fotógrafos de periferias e favelas do Rio, Fortaleza, Belo Horizonte e Belém. Era assim que Bira cuidava, ensinava, mostrava e inaugurava possibilidades de criação, sabendo reconhecer logo de primeira a potência de um registro que o olhar organizava pela lente.

Saber e fazer — criar e ousar — são pares íntimos das obras do esteta que girava o mundo sem sair da favela, da sua e de todas.

Em Periferias 4, Bira articulou o ensaio com fotógrafas de escolas públicas Protagonismo Estudantil: a escola para, por e dos estudantes, protagonizado por estudantes secudanristas em mobilização contra desmontes na educação pública. Em meio à pandemia, Periferias 5, Saúde pública, ambiental e democrática apresentou o ensaio Aproximações sensíveis do distanciamento social em favelas.

O que Bira tocava virava ouro de sensibilidade e grandeza afetiva. Exposições nacionais e internacionais, livros, capítulos de livros e artigos técnicos e científicos receberam a luxuosa contribuição de suas fotografias; reconheceram o valor estético e a representatividade social de suas obras. Entretanto, o maior e melhor mérito do seu trabalho vinha mesmo, segundo Bira, das pessoas da favela que solicitavam ser fotografadas por ele, para “ficar bem na foto”.

Festas populares, cultos religiosos, partidas de futebol, jogos de crianças e idosos, rodas de samba, de rima e de slam, bailes funk, manobras radicais de skate, crianças e mais crianças,  jovens e mais jovens — estão no elenco de suas cenas celebrantes de favela — em mais de 17 mil fotos que compõem o acervo de Bira Carvalho.

Não havendo apenas tristeza, dores e tragédias insuportáveis presentes nas favelas, o duelo com as imagens estereotipadas de carência e os estigmas de violência como marcadores dos territórios populares sempre foi um marca implacável em sua obra imagética.

Bira não retratava a favela; a reinventava em formas, volumes e cores. Todos os sentidos eram mobilizados e se avizinhavam de seu olhar. Seu “escritório” era a encruzilhada da Principal com a Sargento Silva Nunes — coração da Nova Holanda. Era seu ponto escolhido de observação e travessia em relação à Mare, à cidade do Rio de Janeiro e ao complexo mundo da vida. Sentado em sua cadeira, com a câmera a tiracolo, descortinava os temas, os eventos e, em especial, as pessoas, a compor a diversidade presente em suas fotografias, muitas delas ainda inéditas.

Sem muitas dúvidas pode-se dizer que o olhar registrador de Bira também se direcionava para os pequenos acontecimentos do cotidiano e aos detalhes incomuns. Seu ponto de vista, de um horizonte próprio, traz também uma perspectiva original. Crianças soltando pipas. Mães levando filhos e filhas para as escolas. Um trabalhador conduzindo um carrinho de mão. O vassoureiro. O pipoqueiro. O engraxate. O camelô.  Na mão da uma criança, um peão. Tudo virava um ato solene de celebração do viver. Tecido bordado de personagens a sair do anonimato de becos e vielas.

A fotografia de Bira assumiu o lugar do gesto forte, audaz e destemido contra a violência do Estado, de crítica à desigualdade social e de enfrentamento ao racismo sempre brutal que subalterniza favelas e periferias. Sua exigência era a da garantia e afirmação de diretos. Do reconhecimento dos moradores como sujeitos corporificados de direitos.

Os territórios populares emergiam em suas fotos como referências de reinvenção radicalmente democrática da cidade e da sociedade. Narrador com autoria de seu olhar sensível, e ao mesmo tempo de maestria técnica, Bira revelava também em cada foto a dimensão maior de sua humanidade. Rebelde e carinhoso. As vezes triste, mas sempre solidário. Mestre e estudante em descoberta de si e dos outros. Incisivo com seus desejos e parceiro no compartilhamento de projetos.

A última edição publicada pela revista Periferias, Raça, racismo, território e instituições, traz na capa uma de tantas, por sua vez bastante marcante, fotos de Bira: desponta ao alto uma pipa lançada, com a bandeira do Brasil, com braços alçados ao longe por crianças da Maré. Enigmática, dessa vez, pela sua utopia — outro dia, Bira disse: “Vou ali pegar aquela luz para fotografar e já volto!”

Te esperamos, amigo e mestre tão querido e amado!

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Bira Carvalho | Maré, Rio de Janeiro, Brasil |

[em memória] Coordenador do projeto Imagens do Povo, é fotógrafo formado pela Escola de Fotógrafos Populares e “rueiro”; gosta mesmo é de parar na Rua principal da Nova Holanda, e é desta vivência que saem inspirações para fotografar as ruas da Nova Holanda. É formado em áudio e vídeo pela Escola de Comunicação Crítica, é formado ainda em mediação de conflito pela fundação Getúlio Vargas. Morador da Nova Holanda por quase 50 anos, Bira foi uma grande liderança comunitária no Conjunto de Favelas da Maré. Sua participação na revista Periferias foi decisiva, desde a primeira edição, como diretor de fotografia. 

 

@bira_carvalho_

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