literatura e poesia

periferias 6 | raça, racismo, território e instituições

Pastor Alemão

Utanaan Reis

| Brasil |

— O que te aflige, meu filho? Que medo é esse do mundo?

 — Não sei, também queria saber — respondeu o jovem Nélio, segurando o choro.  

— Venha, filho, vamos conversar —, chamava-o Ângela Maria, rezadeira, parteira e conselheira conhecida em todos os rincões de Seropédica e adjacências.  

Com as mãos acariciadas, Nélio se sentia seguro naquele momento, e contou a Ângela:

— Faz dois meses que não durmo direito, não como bem, tenho sonhos estranhos, acordo ofegante, suado, cansado.  

— Eu sei, meu filho. Te entendo. Prossiga.  

— Tenho sempre a sensação que alguém está me seguindo; que todos estão me olhando; que em breve alguma coisa grave acontecerá. 

— Pois bem. E pode me contar algum de seus sonhos?  

— Tá bem: Eu saí pra comprar pão, a rua totalmente deserta parecia um cenário de filme. O vento assobiava um lamento baixo, numa manhã quente e nublada. Um semáforo piscava amarelo constantemente. De alguma maneira eu sentia que me vigiavam das janelas. De repente, um barulho ritmado surgia — como se viesse de todos os lados —, até que identifiquei uma cavalaria passando por mim, e logo atrás vinha um cavalo trôpego, sozinho, sangrando pelas narinas, com a língua para fora; preso a ele, tinha uma placa. Quando olhei a placa estava meu nome escrito como por um riscado de faca: lá estava Nélio Gomes.  

— Tudo bem. Meu filho, você precisa entender duas coisas: primeiro, que precisa fortalecer sua proteção espiritual. Segundo, que em breve sua inocência será posta à prova, então cuide-se, proteja-se e tenha confiança no que diz e como age.  

— Obrigado, Ângela. Só mesmo suas palavras para me acalmar!  

Mais calmo, Nélio então observava a varanda da casa e o grande jardim em que fora se consultar e ser benzido: bem iluminado, simples e elegante ao mesmo tempo, espaçoso e acolhedor. A sensação de acolhida que recebeu dos olhos e da boca de Ângela estava em sintonia com o local, inclusive pelas plantas, distribuídas ao longo de um enorme gramado.  

Ao final da sessão, Ângela indicou ao rapaz algumas Okúta mimo, pedras sagradas dos Orixás, destinadas à proteção. Uma ficaria atrás da porta de entrada de casa, prevenindo a entrada de energias ruins; uma na janela, filtrando o que entra e o que sai; uma embaixo da cama para amansar o sono e protegê-lo de sonhos tormentosos; a última, no banheiro, local onde se lava e tira coisas pesadas do corpo. Assim saiu o jovem rapaz: otimista com a lista das pedras sagradas por comprar. 

A semana seguinte foi tranquila, sem os mesmos sentimentos de antes; dormiu melhor e se sentia mais feliz. Mas, mesmo assim, Nélio lembrava-se da mensagem final de Ângela: “Não demore com as pedras, mesmo que se sinta melhor é preciso executar o processo”. E Nélio não deixaria passar. 

Era pleno sábado de calor infernal do verão carioca. Nélio pegou um ônibus em Seropédica rumo ao centro do Rio de Janeiro em busca de uma grande loja que vendia artigos religiosos de matriz africana.  

Como planejou, não demorou muito nas compras, apesar do fascínio para com as estátuas, ervas, roupas, pedras, instrumentos, animais e tanto mais. Comprou ao total doze Okúta Mimo: três de Inhansã, três de Òpará, três de Ogum e três de Ossain. Além disso, comprou um canivete de cabo perolado com o símbolo de Ogum, o Orixá da guerra, para presentear o pai.  

Saiu feliz da vida da loja, com tudo embrulhado dentro da mochila. E, apesar de louco para com calma ver o que tinha comprado, resolveu esperar para olhar no ônibus: sabia que alguém pode estar sempre te observando.


Sentou-se ao fundo do ônibus que ia rumo a Seropédica: bem ao canto direito,  começou a desembrulhar do papel pardo as pedras e o canivete, fitando calmamente os detalhes e refletindo que a vida naquele momento estava dando certo. Sentia-se feliz, cheio de vida; o corpo pulsava boas sensações.  

Mas não demorou muito para que chegasse a prova alertada por Ângela. 

Com o ônibus na Avenida Brasil, uma blitz da polícia mandou o ônibus encostar. Os passageiros se entreolhavam, julgando uns aos outros. Nélio sentiu, mais de uma vez, que se dirigiam a ele alguns dos olhares; não era a sensação de ser vigiado ou perseguido, era sua cor vivenciando a inquisição diária que pessoas pretas passam.

Não deu outra. Um policial entrou no ônibus bradando:

—Na corporação sou conhecido como pastor alemão, farejo drogas em qualquer lugar! — Cravava o olhar em cada um dos passageiros, farejando-os, igual a um cachorro. Próximo ao jovem Nélio, com um risinho amarelado de meia boca, disse:

— Vamos descer, meu jovem? O pastor alemão já caçou sua presa. 

Intrigado, Nélio lembrou das tantas vezes em que já tinha ouvido relatos parecidos.

— O que eu fiz? — Perguntou Nélio ao policial que, bem treinado como era, largou logo um tapa na lateral do pescoço do jovem, e o mandou descer.  

Fora do ônibus, sentado no chão como um prisioneiro, Nélio olhava a todos que da janela do ônibus esperavam as cenas do próximo capítulo. Começava então a revista. 

— Levante a camisa e esvazie os bolsos, rapaz. 

Feito. Nenhum flagrante. 

— Abra a mochila, lentamente, seu drogadinho! —, dizia o policial com a arma em punho, apontada para a cabeça de Nélio. Sem hesitar, começou abrindo a mochila, quando o policial inspecionava os embrulhos amassados em papel pardo, olhando e dizendo com gosto:

—Bingo! Estourei a boa! — O Pastor Alemão mais uma vez salvava o dia, e o Rio de Janeiro, dos vagabundos. 

Tranquilo, Nélio lembrou da sabedoria de Ângela: “Se estiver em apuros e ocorrer uma reviravolta na situação, saia com classe como quem detém controle desde o começo. Valorize sua inocência”. 

Era aquele o momento. Pediu calma ao policial e perguntou, educadamente, se podia abrir os pacotes e mostrar a ele as iguarias. O policial percebeu algo estranho, mas seu ego de cão raivoso não o deixou baixar a cabeça. Ele mesmo abriu desesperadamente os embrulhos de pedras para mostrar a toda a plateia seu grande feito. 

Nélio, com calma, feito um cientista internacionalmente famoso, explicou as composições químicas — inventadas na hora —: o tipo de cada pedra, para que serviam, onde as tinha comprado e por qual preço. 

O policial foi ficando puto, transtornado pelo show inglório — até achar o canivete. Ali sabia que era ganhar ou perder. Então levantou o canivete para todo mundo ver.  

— Todos estão vendo que acabo de encontrar uma arma? — Indagava o policial em alto e bom som, tentando causar aprovação e clamor. Nélio não sabia o que fazer, mas tentou transparecer calma e despreocupação com todo aquele histrionismo. Buscando uma saída para encerrar a abordagem, Nélio avistou o outro policial que acompanhava o Pastor Alemão, mas até então só observando a situação, quando pediu ao companheiro de farda o canivete. O Pastor Alemão entregou a ele feliz, mas logo mudou seu semblante: o segundo policial tinha devolvido o canivete ao jovem Nélio, mandando-o subir de volta ao ônibus:

— Vai para casa, meu jovem.  

Nélio rapidamente arrumou as coisas e entrou no ônibus como quem desfila numa passarela presidencial, recebendo diversos olhares intrigados e interpelado pelo trocador:  

— Rapaz, eu não sei o que aconteceu ali, mas você é o primeiro que sobe de volta no ônibus depois de uma dura.  

Nélio não respondeu. Apenas seguiu o resto da viagem tranquilo, só pensando nas pedras e no canivete que acabava de conquistar.


 

Utanaan Reis | Brasil |

Utanaan Reis é Economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Escreve crônicas, contos e poesias desde a adolescência, inspirado em seu cotidiano na Baixada Fluminense, onde cresceu. 

utanaan.reis@gmail.com

@utanaan.reis @utanaan_reis

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